As raias-manta e os tubarões-baleia estão entre os maiores “peixes filtro” do planeta. Para se alimentar, eles peneiram enormes quantidades de plâncton da água. Mas uma nova pesquisa na costa da Indonésia sugere que suas refeições estão vindo com um tempero indesejado: uma quantidade alarmante de lixo plástico.

As águas da Indonésia são ricas em plâncton e oferecem amplas oportunidades de alimentação para as arraias e tubarões-baleia. Infelizmente, essas mesmas áreas de alimentação também são onde nosso lixo tende a se acumular: a Indonésia é o segundo maior poluidor marinho de plásticos do mundo, e as ondas e as correntes concentram grande parte desse material próximo à costa.

Tendo passado muito tempo mergulhando na Indonésia e vendo a magnitude dos resíduos de plástico próximos à costa, Elitza Germanov, bióloga marinha da Marine Megafauna Foundation e Murdoch University, imaginou quanto do lixo estava sendo canalizado para as mantas e tubarões-baleia. Pesquisas anteriores mostraram que os tubarões-baleia podem engolir pedaços de plástico durante a alimentação, mas os cientistas não observaram o mesmo problema nas arraias.

Para descobrir, Germanov e sua equipe coletaram e contaram fragmentos de resíduos plásticos na água acima dos recifes em toda a Indonésia. Os pesquisadores visaram áreas em que as mantas e tubarões-baleia costumavam se alimentar, arrastando uma rede de plâncton de malha fina através da água do barco. Depois, eles levaram as amostras de volta ao laboratório.

“Separamos o plâncton e outro material natural do plástico usando a gravidade e a água do mar”, disse Germanov a Earther por e-mail. “Basicamente, o plâncton afunda e o plástico boia”.

Depois de contar e categorizar o plástico, os pesquisadores puderam usar a contagem desses resíduos e o volume de água amostrado para obter a densidade de plásticos na água. Como a equipe sabia a quantidade de água que arraias e tubarões-baleia filtram durante a alimentação, eles puderam fazer previsões sobre a quantidade de plástico que os animais poderiam estar engolindo.

Alerta de spoiler: é muito.

Restos de plástico na superfície. Foto: Fundação Marine Megafauna

Os resultados da equipe publicados na terça-feira na Frontiers in Marine Science sugerem que, em algumas partes da Indonésia, as mantas podem estar ingerindo até 63 pedaços de plástico por hora. Para os tubarões-baleia em Java Oriental, onde os gigantes se reúnem sazonalmente para se alimentar, a taxa pode chegar a 137 pedaços por hora.

Claro, isso são estimativas. Mas Germanov e sua equipe receberam pela primeira vez uma confirmação concreta de que as raias-manta estão ingerindo o material. Eles conseguiram coletar um pouco de vômito e cocô de manta frescos. Ambos continham muitos fragmentos de plástico. Para as fezes de manta, foram 26 pedaços, enquanto os pesquisadores encontraram uma média de 66 pedaços no vômito.

E sim, coletar cocô e vômito de manta envolve uma quantidade significativa de sorte.

“Alistamos a ajuda das comunidades locais de mergulho autônomo que visitam regularmente os locais de agregação de arraias e pedimos que carregassem ‘tubos de cocô’ nos bolsos [de equipamentos de mergulho] enquanto mergulhavam, apenas no caso de verem as mantas liberando cocô ou vômito, Germanov disse.

O aparente consumo rotineiro de plástico nesses locais de alimentação é alarmante, uma vez que os plásticos têm a capacidade de causar sérios danos aos tubarões-baleia e mantas. Coisas como canudos de plástico podem endurecer no estômago dos tubarões-baleia, tornando-se lanças fatalmente afiadas quando espetam o revestimento do estômago.

Manta alimentando-se no lixo, Indonésia. Foto: Andrea Marshall, Fundação Marine Megafauna

“Já existem vários exemplos de plástico nos tratos digestivos de tubarões-baleia encalhados e falecidos no Brasil, Tailândia, Filipinas e Malásia”, disse Germanov.

Animais filtradores são particularmente vulneráveis a concentração de grandes quantidades de fragmentos de plástico nos seus órgãos dada a maneira como se alimentam. O escopo do problema pode até se estender à sobrevivência a longo prazo de mantas e tubarões-baleia.

“Em outros organismos, incluindo peixes, sabemos que a exposição a alguns poluentes plásticos associados pode atrapalhar o funcionamento regular do sistema endócrino, o sistema responsável pelo controle do crescimento e da reprodução”, adverte Germanov. “Como espécies ameaçadas, nem as raias-manta nem os tubarões-baleia podem se dar ao luxo de ter quedas nas taxas de reprodução.”

Os ftalatos – aditivos no plástico que o tornam mais flexível – estão por trás de alguns dos caos reprodutivos que Germanov descreve, e seus impactos se estendem muito além das águas da Indonésia. Eles têm aparecido no músculo dos tubarões-frade e na gordura de baleia-comum no Mediterrâneo, e até na pele dos tubarões-baleia no Golfo do México.

Apesar de todas as notícias ruins, o estudo também revela algumas informações que podem ajudar no enfrentamento desse problema específico de poluição plástica. Os pesquisadores descobriram que a abundância de plástico aumentou mais de 40 vezes em alguns lugares durante a estação das chuvas, enquanto os dilúvios sobre a Indonésia lavavam os plásticos para o mar. Concentrar os esforços de limpeza de plástico em leitos de rios e cursos de água imediatamente antes do início da estação chuvosa pode ser uma boa estratégia para reduzir a quantidade que acaba no oceano, disse Germanov.

Manta com plástico na Indonésia. Foto: Elitza Germanov, Fundação Marine Megafauna

O estudo também revelou que a maior parte do lixo plástico próximo à costa era fragmentos de sacolas de uso único e embalagens de alimentos, de modo que reduzir o uso desses materiais também poderia ajudar, disse ela. A ilha indonésia de Bali deu um grande passo nessa direção no início deste ano, proibindo o plástico descartável.

A saturação de recifes outrora intocados com resíduos de plástico não é exatamente fácil de observar, mas Germanov planeja continuar em busca de pesquisas que joguem luz sobre o problema da poluição e as possíveis soluções.

“Ver plástico no meio da alimentação de raias-manta e, geralmente, na água, nunca é algo com o qual eu possa me acostumar”, disse ela. “Inicialmente, eu me emocionava com isso, e ainda o faço nos ‘grandes dias’ – quando há mais plástico que a média, mas agora concentro-me em obter a documentação do problema e garantir que a ciência seja concluída corretamente”.