O avião Solar Impulse II, movido a energia solar, pousou ontem (3) no Havaí depois de cinco dias e cinco noites em voo, e quebrou alguns recordes: o de voo solitário mais longo e o de maior distância percorrida por uma aeronave impulsionada por energia solar. Ambos foram completados enquanto o piloto, André Borschberg, percorria um ambicioso trecho sobre o Oceano Pacífico, na jornada de volta ao mundo do avião.

No dia 29 de junho, o avião movido a energia solar iniciou o que se tornaria um voo de mais de 120 h de Nagoya, no Japão, até o Havaí, nos EUA. Agora, a aeronave entra para a história da aviação ao quebrar o recorde de voo solitário, anteriormente mantido pelo americano Steve Fosset, em 2006. E ao quebrar este recorde, o Solar Impulse II mostra ao mundo do que a nossa atual tecnologia solar é capaz.

O avião pousou em Kalaeloa, no Havaí, ontem pela manhã, às 5h55 (horário de Brasília) e para concluir o voo, Borschberg teve a difícil tarefa de encarar uma frente fria:

Quando chegou ao destino, o piloto precisou lidar com algumas restrições rigorosas para garantir que o avião – com envergadura de 72 metros – pudesse pousar com segurança.

Com o pouso, nosso heroico piloto concluiu o percurso de mais de 120 horas no ar, o equivalente a cinco dias e cinco noites voando. E tudo isso amarrado a um assento que também serve de toalete, cama e máquina de exercícios, além de ter dormido muito pouco nos últimos dias. Mas não se preocupe: antes de decolar, Borschberg recebeu treinamento meditativos e hipnóticos para ajudá-lo a manter a concentração para o que se tornou a mais exigente jornada da vida dele.

Pouco no ar, muito na Terra

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Borschberg ficou mais de uma semana voando, sentado em uma poltrona que serve mais do que apenas para sentar. Mas apesar de sozinho fisicamente, ele recebe suporte de bastante gente aqui na Terra — o Solar Impulse II conta com uma operação de botar inveja em qualquer missão espacial.

O Solar Impulse II tem espaço para apenas um piloto por vez, e esta é uma função que tem sido alternada entre Borschberg e Bertrand Piccard em cada trecho — enquanto o piloto se responsabiliza por voar o avião, as funções do copiloto, que não está fisicamente presente no avião, são feitas por uma equipe terrestre de 60 pessoas.

O Mission Control Center (MCC), localizado em Mônaco, país no sul da França, é o centro terrestre responsável em cuidar do piloto e do avião durante o voo. O centro possui desde engenheiros (que monitoram os sistemas da aeronave) a uma equipe médica (que monitora os sinais vitais e a saúde do piloto) — 28 pessoas estão sempre de plantão durante qualquer momento do voo.

Além destes, uma equipe de meteorologistas fica de olho nas nuvens, uma vez que elas são uns dos maiores riscos para o avião: se as nuvens tampam a luz do sol, o avião não acumula energia para recarregar as baterias e voar durante a noite.

O Solar Impulse II conta também com uma equipe terrestre para auxiliá-lo durante o pouso, uma vez que o avião não pousa como qualquer outra aeronave: profissionais precisam se posicionar no meio da pista para segurar o avião. Isso já difícil por si só, então imagine executar tal tarefa no meio de um aeroporto comercial, onde aviões não param de pousar e decolar por um minuto sequer?

É por isso que a equipe do Solar Impulse II precisa lidar diretamente com o controle de tráfego aéreo de diversos países, para que os pousos e decolagens em aeroportos possam ser interrompidos por alguns minutos para o Solar Impulse II aterrissar.

Assim como o pouso, o armazenamento do avião também não é nada simples: graças à grande envergadura do Solar Impulse II, ele não cabe em galpões normais — é necessário inflar um galpão gigante para protegê-lo da umidade, chuva, vento e mudanças de temperatura, que podem danificar os delicados eletrônicos do avião.

A equipe do Solar Impulse usa um avião russo Ilyushin IL-76, projetado para carregar armamento e equipamento militar, para levar o galpão e todo o equipamento necessário a fim de reparar e manter o avião solar pronto para voo.

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Isso acaba sendo um pouco contraditório. Veja, a missão do Solar Impulse II é mostrar como a energia limpa pode mover o mundo, mas faz isso com um enorme avião de guerra comedor de combustível. Sem contar que as dificuldades para pousar e armazenar o avião não fazem dele uma opção viável para voos comerciais. Mas a Solar Impulse II sabe disso e afirma que este nunca foi o objetivo da missão. Segundo Gregory Blatt, diretor do Solar Impulse II:

“Nossa missão é conscientizar, e a melhor forma de fazer isso é com um avião tripulado. Se você observar a nossa lista de parceiros, verá que apenas alguns são da indústria da aviação. Temos trabalhado em grande parte com companhias que não têm nenhuma relação com aviões”.

É fácil ver o Solar Impulse II como uma grande campanha para a indústria de energia solar. A missão é muitas vezes vista como uma demonstração da viabilidade dos voos solares — e por essa perspectiva, ela só tem sucesso caso você ignore os meses de trabalho árduo, enorme equipe de suporte e formas “diferentes” de usar o banheiro.

Mas em vez de um teste para voos solares, esse é um exemplo crucial para o futuro de energia reutilizável. E o Solar Impulse II já gerou mais interesse na energia solar do que qualquer governo já conseguiu.

O Solar Impulse II levantou voo pela primeira vez em 9 de março com o objetivo de percorrer 35.000 km sem usar combustível fóssil, e sim energia solar — o avião usa mais de 17 mil células solares para se energizar. A volta ao mundo possui 12 etapas, as quais já incluíram escalas em Mascate (Omã), Ahmedabad e Benarés (Índia), Mandalay (Mianmar), Chongqing e Nanquim.

O próximo destino do Solar Impulse II é em Phoenix, nos EUA, e ele deve pousar também em Nova York antes de voar sobre o Oceano Atlântico, com destino a Europa ou África do Norte — a escolha do destino dependerá das condições climáticas de cada local.

Você pode acompanhar o progresso do voo no site do Solar Impulse ou ver atualizações dos bastidores a viagem pelo Twitter de Borschberg e de Piccard. [G1, Fox News, Gizmag]

Colaborou: Maddie Stone.