Uma nova pesquisa, feita por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA, pode deixar os amantes de refrigerantes diet um pouco menos seguros de seu hábito.

Em um pequeno ensaio experimental, pesquisadores descobriram que alguns grupos de pessoas sentiam mais fome e consumiam mais calorias após consumir bebidas adoçadas artificialmente — em comparação a quando ingerem bebidas com açúcar natural. Participantes com obesidade e mulheres, por exemplo, mostraram ter mais fome.

Refrigerantes diet e outras bebidas adoçadas artificialmente são, há muito tempo, uma alternativa popular para quem deseja evitar as calorias do refrigerante comum — mas, ainda assim, ter uma experiência açucarada. Ao mesmo tempo, algumas pessoas temem que os adoçantes artificiais, usados ​​para criar essa ilusão, sejam prejudiciais — talvez até mais do que o açúcar. Os refrigerantes diet são acusados ​​de aumentar o risco de diversas doenças, desde câncer até cegueira e demência. 

As evidências para sustentar algumas dessas afirmações ainda são muito fracas, e baseadas em pesquisas observacionais limitadas. Já outras, que foram investigadas mais a fundo, ainda não foram validadas até agora — como o receio de que o adoçante cause câncer, por exemplo. Agências reguladoras, incluindo a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, continuam a insistir que adoçantes artificiais são seguros para comer. Mas outras preocupações com a saúde possivelmente relacionadas aos refrigerantes diet, como um risco aumentado de ganho de peso ou diabetes tipo 2, não podem ser descartadas, com dados conflitantes de ambos os lados.

O estudo da USC é um dos poucos a testar os efeitos das bebidas dietéticas no corpo e no cérebro. Outras pesquisas experimentais no mundo da nutrição são geralmente raras, em parte porque podem ser muito caras e mais difíceis de conduzir em comparação a um teste típico envolvendo drogas. Os dados vêm de um projeto dos pesquisadores conhecido como estudo Brain Response to Sugar, que testou como o cérebro responde à ingestão de diferentes tipos de açúcares — bem como ao adoçante artificial Sucralose.

“Nosso estudo incluiu jovens adultos, homens e mulheres, com pesos corporais variados, para que pudéssemos entender como fatores específicos, como o sexo ou o peso, podem impactar a forma como o cérebro e o corpo respondem a adoçantes artificiais quando comparados ao açúcar real”, disse autora do estudo Kathleen Page, médica e endocrinologista da Escola Keck de Medicina da USC ao Gizmodo, por e-mail.

Ao todo, 72 pessoas participaram de um ensaio cruzado, sendo submetidas a vários testes ao longo de três visitas. Depois de um jejum de 12 horas no dia anterior, às 8 horas eles beberam água adoçada com sacarose (açúcar natural), sucralose (adoçante conhecido como Splenda) ou não beberam nada. 

Antes e depois de beber água, eles fizeram exames de sangue. Cerca de 20 minutos depois, eles fizeram um teste visual. Fotos de alimentos eram expostas enquanto eles passavam por uma ressonância magnética funcional. Os resultados da ressonância e dos exames de sangue tinham o objetivo de mostrar sinais de fome inconsciente, como certos padrões de atividade cerebral ou níveis flutuantes de certos hormônios. Duas horas após a ingestão, os voluntários foram conduzidos a um buffet, onde puderam comer o quanto quisessem.

Page e sua equipe descobriram que pessoas com obesidade (índice de massa corporal acima de 30) pareciam exibir mais sinais de fome em sua atividade cerebral durante o teste. Isso ficou mais claro, depois que bebiam a água com adoçante do que após beberem o açúcar comum, embora não houvesse diferença entre participantes com sobrepeso e peso normal. Da mesma forma, as mulheres no estudo pareciam mais famintas com base na resposta do cérebro do que os homens que beberam a Sucralose, e também comeram mais calorias no buffet.

As descobertas, dizem os autores, podem esclarecer dados conflitantes que foram coletados até agora sobre refrigerantes diet, sugerindo que os efeitos corporais de adoçantes artificiais são influenciados por outros fatores.

“No geral, esses resultados sugerem que mulheres e pessoas com obesidade podem ser mais sensíveis às diferenças na forma como o cérebro e o corpo respondem aos adoçantes artificiais — quando comparados ao açúcar normal”, disse Page. 

O estudo experimental é um dos maiores desse tipo, dizem os autores. Mas as descobertas ainda são baseadas em uma amostragem relativamente pequena. Embora um ambiente de laboratório tenha vantagens, ele também traz desvantagens. O estudo não pode nos dizer nada sobre os efeitos potenciais de longo prazo do consumo de refrigerante diet, por exemplo, e analisou apenas um adoçante artificial em particular. De acordo com Page, há muito mais pesquisas a serem feitas sobre como esses adoçantes podem nos afetar.

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“Há muitas perguntas sobre os efeitos dos adoçantes artificiais em relação à fome e a saúde geral que ainda precisam ser testadas. Por exemplo, precisamos saber mais sobre como os adoçantes artificiais afetam o apetite e o risco metabólico quando as pessoas os comem ou bebem regularmente”, disse ela. “Também precisamos estudar outros tipos de adoçantes artificiais e testar como eles afetam voluntários de diferentes faixas etárias e pessoas com distúrbios metabólicos, como diabetes.”