Um médico que tratou sobreviventes de um misterioso acidente nuclear na Rússia ouviu do Ministério da Saúde do país que o isótopo radioativo césio-137 encontrado em seu corpo tinha vindo de “caranguejos de Fukushima” que ele havia comido em uma viagem, segundo a CNN.

O incidente de 8 de agosto na área de testes de Nyonoksa, em uma plataforma no Mar Branco, ainda não foi totalmente explicado. Pelo menos sete pessoas foram dadas como mortas após o que a agência nuclear Rosatom descreveu como um acidente envolvendo uma “fonte de energia isotópica para um motor de foguete de combustível líquido”.

Mais tarde, surgiu a informação de que o incidente foi grave o suficiente para que autoridades russas em Arkhangelsk cogitassem emitir ordens de evacuação em cidades próximas.

Várias mortes de pessoas foram causadas por uma explosão no local, e o Washington Post informou esta semana (citando o jornal Novaya Gazeta) que dois indivíduos morreram por causa da exposição à radiação antes que pudessem ser levados a Moscou para tratamento.

Os níveis de radiação na cidade vizinha de Severodvinsk atingiram um nível 16 vezes maior, segundo o Serviço Federal Russo de Hidrometeorologia e Monitoramento Ambiental. Não se espera que esse nível tenha consequências para a saúde humana.

Segundo a matéria do Post, os médicos de um hospital regional não foram informados de que três pacientes que chegaram após o acidente tinham sido expostos à radiação.

Uma fonte disse que, depois que o césio-137 foi detectado em uma sala de emergência, médicos e enfermeiros que usavam apenas máscaras para proteção tiveram que descontaminar a sala. Mais tarde, eles foram forçados a assinar acordos de confidencialidade, declarando que qualquer informação sobre o incidente é um segredo de estado, segundo o Post.

O Ministério da Saúde local disse que a detecção de césio-137 no corpo de um médico era por causa da comida, segundo a CNN:

Apesar da exposição do médico a pacientes de uma área onde foi registrado um pico de radiação de curto prazo, o Ministério da Saúde local colocou a culpa pelas quantidades vestigiais do isótopo em frutos do mar ruins.

“O césio-137 (…) tem a característica de se acumular em peixes, cogumelos, líquenes, algas”, diz o comunicado divulgado no site do governo local. “Com um certo grau de probabilidade, podemos considerar que esse elemento entrou no corpo humano através dos produtos alimentares.”

Segundo a Meduza, uma agência de jornalismo investigativo com sede em Riga, as autoridades de saúde disseram ao médico que o césio-137 detectado provavelmente estava relacionado a férias recentes na Tailândia.

Um funcionário do hospital contou que as autoridades de saúde disseram ao médico: “Você acabou de comer caranguejos de Fukushima lá” — referindo-se a uma série de colapsos na usina nuclear de Fukushima Daiichi em 2011, após o terremoto e o tsunami de Tōhoku.

Embora algum césio-137 tenha sido detectado na vida selvagem oceânica, a maioria da comunidade científica acredita que ele foi diluído a níveis improváveis ​​de afetar a saúde humana.

Suspeita-se que o próprio incidente tenha envolvido um protótipo de arma russa conhecida pela OTAN como SSC-X-9 Skyfall, um tipo de míssil de cruzeiro com propulsão nuclear, teoricamente capaz de atingir qualquer ponto da superfície da Terra.

Esses tipos de mísseis são projetados para evitar sistemas de defesa antimísseis, como os atualmente em operação no Alasca e na Califórnia, de acordo com o New York Times. O presidente russo Vladimir Putin procurou retratá-los como quase impossíveis de se parar antes de chegar ao seu destino.

Apesar disso, todos os testes preliminares da arma foram ruins. Os EUA também tentaram e falharam na construção de sistemas de armas semelhantes nas décadas de 1950 e 1960. Como observou o Bulletin of Atomic Scientists, o esforço americano enfrentou inúmeros desafios técnicos, incluindo o de que a tecnologia seria muito perigosa para testar.

Também é possível que o acidente de Arkhangelsk tenha envolvido algum outro tipo de tecnologia, como uma instalação nuclear ou um gerador termoelétrico de radioisótopos.

Questionado sobre a equipe médica que não foi avisada de que estava lidando com as consequências de um acidente nuclear na quinta-feira, o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, disse a repórteres: “eu não estou ciente disso, não sei do que você está falando”. As informações foram repercutidas pela CNN.

“É necessário saber especificamente quais são esses médicos mencionados, quem eles são”, acrescentou Peskov, dizendo que a mídia estava tentando “distorcer a realidade”.

“Você não tentou olhar a situação de um lado diferente?”, disse o porta-voz. “A maneira como a situação se desenrola faz parecer que alguém intencionalmente quer aumentar a cobertura da mídia em torno disso, distorcer a realidade e apresentar a situação como se houvesse motivos para se preocupar com o perigo.”

Ainda segundo a CNN, um cirurgião cardiovascular do hospital, Igor Semin, escreveu na rede social Vkontakte que as autoridades não disseram “nada, não avisaram ninguém — eles causaram o problema e nos deixaram resolver”.