A menos que você seja uma mulher que goste de tecnologia e queira engravidar, você provavelmente nunca ouviu falar da Ava. Fino e discreto, é um rastreador wearable de US$ 300 que, junto com um aplicativo, monitora sua frequência cardíaca, temperatura corporal e respiração enquanto você dorme para prever quando você está ovulando.

Nada disso é particularmente impressionante por si só — afinal, existem muitos wearables ou aplicativos de rastreamento de fertilidade disponíveis. A Ava lançou seu primeiro dispositivo em 2016.

A novidade é que a Ava divulgou nesta segunda-feira (20) um estudo clínico detalhando como os wearables podem oferecer às mulheres uma maneira mais precisa e não invasiva de prever dias férteis durante o ciclo menstrual.

Quando se trata de “femtech”, o termo usado para descrever qualquer tecnologia específica para mulheres, independentemente de ser um aplicativo ou uma bomba de tirar leite, a novidade é muito relevante, considerando que as opções são sempre limitadas. Entre os milhares de aplicativos gratuitos de monitoramento de menstruação e fertilidade, quase nenhum deles conduziu ou participou de pesquisas clínicas.

O aplicativo contraceptivo Natural Cycles teve algumas iniciativas, mas foi fortemente criticado por ser invasivo além de ser acusado de imprecisão. Enquanto isso, um estudo de 2016 da Columbia University Medical Center descobriu que, entre os 1.116 aplicativos de menstruação gratuitos na App Store da Apple, apenas 20 eram confiáveis. Para piorar, apenas 5% citavam um envolvimento profissional ou uma literatura médica.

Isso é preocupante, dado o cenário atual em relação à saúde reprodutiva das mulheres. Independentemente de como você se posicione no debate sobre o aborto, fica claro que nem todos são igualmente informados sobre em que estágio uma menstruação atrasada pode ser um indício de gravidez, anovulação regular (quando os ovários não liberam um óvulo durante um ciclo menstrual) ou um sintoma de uma condição não relacionada à gravidez.

Dados os avanços significativos da tecnologia nos últimos 20 anos, era de se esperar que haveria opções melhores do que versões reformuladas dos antigos calendários e diários em papel que as mulheres vêm usando há séculos.

O estudo da Ava, intitulado “Sensores wearable revelam mudanças na fisiologia com base na menstruação e permitem prever o período fértil”, é animador.

O estudo fez com que 237 mulheres usassem um rastreador Ava por um ano ou até elas engravidarem para medir cinco parâmetros diferentes: frequência de pulso em repouso, frequência respiratória, variação da frequência cardíaca, perfusão da pele e temperatura corporal basal.

No total, o estudo analisou mais de 1.000 ciclos para tentar encontrar novos padrões que pudessem ser usados ​​para prever com precisão o período fértil de seis dias, o que pode ajudar as mulheres que estão tentando engravidar.

A partir disso, a Ava concluiu que os wearables não só eram capazes de rastrear de maneira precisa e simultânea vários parâmetros fisiológicos durante um ciclo menstrual, mas também desenvolveu um algoritmo capaz de prever com 90% de precisão o período fértil de seis dias de uma mulher.

Embora tenham sido observadas apenas mulheres com ciclos regulares — até 30% das mulheres experimentam ciclos irregulares durante a idade fértil –, essa taxa de 90% é impressionante. Um outro estudo clínico de 2018 para aplicativos de smartphones pesquisou 73 apps de fertilidade, e menos de um terço deles conseguia prever um ciclo de seis dias ou menos, e com uma precisão variando de 11 a 81%.

“Este estudo é apenas o primeiro de vários outros planejados que devem validar o potencial de combinar machine learning, monitoramento contínuo e inovação tecnológica para melhorar o atendimento à saúde da mulher”, disse a Dra. Maureen Cronin, Chief Medical Officer da Ava em comunicado à imprensa sobre o estudo.

De acordo com os resultados da pesquisa, a tecnologia wearable também forneceu leituras semelhantes aos métodos de rastreamento de fertilidade mais tradicionais, mas de uma maneira não invasiva e que oferecia mais flexibilidade e conveniência. Por exemplo, muitos métodos atuais exigem que mulheres meçam sua temperatura no mesmo horário todos os dias, urinem em um copo para medir seus níveis de hormônio luteinizante e verifiquem seu muco cervical.

Um wearable que prevê com precisão os dias mais férteis de uma mulher teria grandes implicações. Além de ser mais confortável, seria um grande passo para que as mulheres tenham um conhecimento mais profundo sobre seus corpos — e, portanto, mais autonomia.

Uma maior compreensão do ciclo também poderia desmistificar quais dias seriam mais eficazes para os casais conceberem. Quem sabe? A longo prazo, isso pode reduzir o número de famílias que tenham que optar por tratamentos caros sem qualquer garantia.

É animador ver que o algoritmo resultante do estudo da Ava foi capaz de prever um período fértil de seis dias com 90% de precisão. Ainda há um caminho a se percorrer para atingir os 100%, mas já é um começo.

O estudo da Ava tem algumas limitações, no entanto. “A revista em que o estudo foi publicado é uma revista digital de acesso aberto”, afirmou Margaret Long, obstetra e ginecologista da Mayo Clinic, ao Gizmodo. “Essas revistas são geralmente menos rigorosas.”

Quando questionada pelo Gizmodo sobre isso, a Dra. Cronin da Ava disse que era uma escolha deliberada, já que revistas de acesso aberto não colocam a pesquisa atrás de paywalls. “Além do nosso dispositivo wearable, queremos ajudar a transmitir o conhecimento científico sobre a saúde reprodutiva das mulheres… não seria correto para nós descobrir essas mudanças de fase e não torná-las acessíveis a todos.”

Cronin afirmou que a pesquisa da Ava foi inovadora o suficiente para motivá-la a voltar a trabalhar mesmo tendo se aposentado depois de 20 anos de carreira desenvolvendo vários métodos contraceptivos para a Vifor Pharma e a Bayer Pharmaceuticals.

Em segundo lugar, é importante notar que a Ava tem interesse no sucesso de seu produto. Falei com a fundadora e CEO Lea Von Bidder e com a Dra. Cronin, e embora eu acredite que ambas realmente querem promover a saúde das mulheres, seria ingênuo não reconhecer a possibilidade de um certo viés da indústria. Ainda assim, as descobertas podem ser fundamentais para impulsionar a colaboração entre os setores de tecnologia e medicina — caso ganhe força.

Essa colaboração é urgentemente necessária, especialmente se considerarmos o Daysy — um termômetro de US$ 330 que afirmava que poderia identificar se uma mulher estava fértil com até 99,4% de precisão. Esse é um número absurdamente alto, visto que vários estudos descobriram que a temperatura corporal basal, por si só, não é confiável.

Um pesquisador de saúde reprodutiva do Instituto Guttmacher levantou alguns questionamentos sobre o número divulgado e o estudo acabou sendo retirado devido a falhas fundamentais em sua metodologia.

É uma forma pessimista de se pensar, mas estudos publicados podem ser uma forma atraente de marketing. No caso do Daysy, felizmente um pesquisador se deparou com a ciência duvidosa da empresa e decidiu questioná-los. Uma maior colaboração com pesquisadores poderia ter evitado isso, ou, no mínimo, salvado os consumidores de um produto que fez promessas que não poderia cumprir.

Afinal, quando se trata de concepção ou femtech contraceptiva, confiança é fundamental — mesmo que isso signifique um marketing menos “sexy”.

“Eu concordo que a tecnologia no estudo [da Ava] é intrigante e pode ajudar a identificar os dias férteis de um ciclo”, disse Long, da Mayo Clinic. “Este é um estudo exploratório que pode ajudar a orientar futuras pesquisas, mas a interpretação dos dados e possivelmente a tecnologia precisam ser aprimorados antes que esteja pronto para uso geral.”

A Dra. Long explicou ainda que para a tecnologia de fertilidade ser confiável, ela deve ser precisa — principalmente quando se trata da possibilidade de wearables serem utilizados como um contraceptivo no futuro. “Um erro para quem quer evitar uma gravidez pode resultar em uma gravidez não planejada”, disse Long. “Um erro para quem quer identificar o período fértil significa tentar engravidar no mês seguinte.”

Isso indica um grande obstáculo para os fabricantes de wearables que estão tentando saltar de dispositivos fitness para dispositivos médicos. Foi um grande passo quando a Apple conseguiu a aprovação do FDA (Food and Drug Administration) para o recurso de ECG do Apple Watch. Da mesma forma, o smartwatch de pressão arterial da HeartGuide, Omron, precisou passar por dois anos de testes clínicos antes de chegar ao mercado.

Se quisermos ver a aprovação do FDA para um dispositivo como a Ava antes que nossos ovários se encolham e morram, isso significa que serão necessários mais pesquisa clínica, mais financiamento, mais protótipos e, talvez o mais frustrante, um senso de urgência.

O estudo da Ava é preliminar e intrigante, mas o fato é que ele não pode fazer muito por si mesmo. A Ava afirmou ao Gizmodo que mais estudos estão a caminho, incluindo uma comparação entre a taxa de rastreamento da Ava em relação a aplicativos de menstruação baseado exclusivamente em dados estatísticos da população, além de como a Ava pode ajudar mulheres com ciclos irregulares.

Mesmo assim, vários estudos de uma única empresa não são suficientes. Este é um bom começo, mas, a menos que isso suscite uma maior conversa dentro da indústria, ele sempre será apenas um bom começo.

As mulheres merecem alternativas melhores do que as que estão por aí, e não é irracional pedir que as empresas de tecnologia cheias de dinheiro e com interesse no mercado de saúde desempenhem um papel maior nisso. As mulheres merecem receber mais tempo, esforço e financiamento pela sua saúde do que recebem.