Cerca de uma vez por ano, algum filtro do Snapchat se torna viral, inunda sua linha do tempo e você pensa: “Ah sim, o Snapchat ainda existe”.

Esta semana, o filtro de troca de sexo do Snapchat explodiu em todas as redes sociais. Você dificilmente poderia passar pelo Twitter, Instagram ou Facebook sem ver versões de sua família, amigos, ex-namorados, celebridades, colegas de trabalho, a prima do seu vizinho com gênero trocado.

Mas não seria realmente um filtro viral do Snapchat se não houvesse uma corrente culturalmente insensível a certas questões. Lembram do filtro de Bob Marley que ignora as questões raciais? Ou que tal aquela Marie Curie sexista? Ou aquele filtro “yellowface” horrível? Para alguns membros da comunidade LGBT, os filtros são insensíveis em relação às questões de gênero – um lembrete de que pessoas trans e não-binárias são abertamente perseguidas por sua apresentação de gênero, enquanto pessoas cis podem simplesmente brincar de se vestir e fechar um aplicativo. Outros observaram que o filtro era uma ferramenta útil para ajudar a imaginar como seria uma futura transição ou experimentação de gênero. Alguns elogiaram o discurso que se seguiu, e outros criticaram os filtros por dependerem fortemente de estereótipos de gênero. O filtro de mulher, em particular, supõe que todas devem ter sobrancelhas finas, maxilares raspados, maquiagem leve e pele iluminada.

Isso não quer dizer que o filtro seja universalmente malicioso. Minha mãe gostou de um texto que enviei desejando a ela um Feliz Dia das Mães de seu filho fictício Victor. Também foi meio reconfortante ver minha tia e minha mãe rirem do quanto seus “eus” masculinos se pareciam com meu avô recém-falecido. Mas, ao mesmo tempo, esse é o quarto filtro do Snapchat que, descaradamente, contorna a linha entre algo divertido e ofensivo.

O Snapchat não respondeu imediatamente ao pedido de comentários do Gizmodo.

De uma perspectiva mais cínica, a estratégia do Snapchat é utilizar a novidade para aumentar seus números de downloads. Apenas recentemente eles pararam de perder usuários, que migraram para outras plataformas, como Instagram e TikTok. Para participar dessa onda de troca de gêneros, as pessoas que excluíram o aplicativo ou nunca o baixaram teriam que voltar ao Snapchat apenas para utilizar o filtro e postar em outras redes sociais. E não é como se o Snapchat não estivesse ciente do potencial viral da troca de gêneros. Em 2017, o FaceApp explodiu exatamente pelo mesmo motivo e desencadeou as mesmas discussões na comunidade trans.

Então, talvez o verdadeiro problema seja que todos nós nos divertimos, não aprendemos nada e depois temos exatamente a mesma discussão na próxima vez que isso acontece.

Em nota enviada ao Gizmodo Brasil na terça-feira (21), o Snapchat se posicionou da seguinte forma:

A equipe do Snapchat entende que identidade é algo totalmente pessoal. E, enquanto continuamos a explorar as possibilidades dessa tecnologia, nosso time de designers vai continuar trabalhando em conjunto com os grupos de recursos humanos da empresa, operações de clientes, políticas e equipes de T&S para garantir que os filtros sejam diversos e inclusivos. Por exemplo, o time está trabalhando para evitar o reforço estereotipado de normas de gênero e acessórios binários de gêneros ou personagens em andamento (como arcos de cabelo para mulheres ou bonés de baseball para homens), fornecendo uma ampla gama de efeitos e combinações transformadoras.

Texto atualizado em 21 de maio com a nota de posicionamento do Snapchat.