Nenhum lugar está a salvo da praga das superbactérias, nem mesmo o espaço. É isso que sugere um novo estudo, que encontrou amostras de bactérias resistentes a diversos antibióticos na Estação Espacial Internacional (ISS). Embora as bactérias não tenham deixado nenhum astronauta doente, os autores dizem que é bastante provável que elas consigam.

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Os autores por trás do estudo, publicado na semana passada na BMC Microbiology, são primeiramente membros do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, que é administrado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. O laboratório é um grande centro de pesquisa de espaço robótico e missões científicas na Terra da NASA, como o rover Curiosity, além de comandar a rede de satélites Deep Space Network (Rede de Espaço Profundo), da NASA

O novo estudo é, na verdade, uma atualização ao trabalho contínuo dos pesquisadores. Em janeiro, a mesma equipe publicou uma pesquisa que investigava a genética bacteriana de amostras retiradas da superfície da Estação Espacial Internacional em 2015. Dentro dessas amostras, encontraram mais de 100 genes bacterianos conhecidos por ajudarem a tornar as bactérias resistentes a antibióticos. E cepas pertencentes a uma espécie particular de bactéria, a Enterobacter bugandensis, foram resistentes a todos os nove antibióticos testados contra elas.

Em seu mais recente estudo, eles esperavam descobrir o quão perigosas essas cepas poderiam ser para a saúde humana. Então, eles compararam a genética das cepas da ISS com três cepas de Enterobacter bugandensis coletadas na Terra que haviam adoecido pessoas. As cepas da ISS tinham muito em comum com as cepas da Terra, incluindo genes associados com resistência e virulência antimicrobiana (o potencial para que um micróbio infecte uma pessoa). Com base nessas semelhanças genéticas, a equipe estimou que as cepas da ISS tinham probabilidade de 79% de causar doenças ou ser patogênicas.

Considerando os resultados, os autores escreveram que “essas espécies apresentam importantes considerações de saúde para futuras missões”.

Bactérias Enterobacter vivem quase em todos os lugares, incluindo nossas entranhas. Normalmente, elas não causam doenças. Porém, em pessoas com sistemas imunológicos debilitados, como pacientes de hospitais, elas podem se tornar fonte de infecções sérias e potencialmente fatais. E a recém-descoberta Enterobacter bugandensis é conhecida por causar sépsis — uma resposta imunológica bastante drástica a infecções que pode fatalmente desligar nossos órgãos — em recém-nascidos e idosos.

Essas infecções oportunistas já são ruins o bastante, mas a resistência a antibióticos as tornou cada vez mais difícil de se tratar. E, no espaço, onde os recursos médicos são limitados e os astronautas tendem a ter sistemas imunológicos mais fracos, uma potencial infecção poderia ser catastrófica.

Por sorte, os autores dizem não haver evidência de que essas cepas tenham causado qualquer doença a bordo da Estação Espacial Internacional. E ainda tem muito trabalho a ser feito para se descobrir o tamanho do problema que essas bactérias representam, assim como se as condições das viagens espaciais estão incentivando seu crescimento ou as deixando mais perigosas. Um cientista, por exemplo, especulou que a microgravidade poderia, na verdade, fazer as bactérias evoluírem mais rapidamente do que o fariam na Terra ou diminuiria os efeitos de matar germes dos antibióticos. Pesquisas futuras terão que incluir experimentos diretamente conduzidos no espaço.

“O fato de um patógeno oportunista como o Enterobacter bugandensis causar ou não doenças depende de uma variedade de fatores, incluindo ambientais”, disse o autor sênior Kasthuri Venkateswaran, pesquisador do Grupo de Biotecnologia e Proteção Planetária do Laboratório de Propulsão a Jato, em um comunicado. “Mais estudos in vivo são necessários para discernir o impacto que as condições da ISS, como a microgravidade, outro espaço e fatores relacionados a espaçonaves, podem ter sobre patogenicidade e virulência.”

[BMC Microbiology]