Está bem estabelecido há muito tempo que passar tempo demais em frente a telas faz mal, seja da TV, do smartphone ou do computador. Mas um levantamento da Universidade de Oxford sugere que os efeitos do tempo passado em frente a telas sobre os hábitos de sono de crianças não são tão drásticos quanto se presume frequentemente. O estudo descobriu que cada hora em frente a telas por dia implicava apenas oito minutos ou menos de sono perdido por noite.

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O autor do estudo, Andrew Przybylski, psicólogo experimental e diretor de pesquisa do Oxford Internet Institute, passou sua carreira toda tentando desvendar como interagimos com internet, redes sociais e videogames e como essas tecnologias afetam nosso bem-estar. Mas a questão de quanto exatamente o tempo em frente a telas afeta a saúde de crianças é uma particularmente importante para ele.

“Como pai e cientista, eu queria ter uma ideia clara da significância prática do efeito do tempo em frente a telas no sono”, Przybylski disse ao Gizmodo.

Neste estudo mais recente, Przybylski observou dados existentes do National Survey of Children’s Health, um levantamento recorrente sobre crianças norte-americanas com menos de 18 anos conduzido pelo governo federal dos EUA. Mais especificamente, ele observou respostas de guardiões de pouco mais de 50 mil crianças que responderam à pesquisa em 2016 (online ou pelo correio), revelando o tempo em frente a telas e os hábitos de sono de seus filhos.

Como esperado, o tempo de tela esteve significativamente associado a um sono de pior qualidade e menos consistente, isso depois de levar em conta outros fatores, como a riqueza de uma família ou o estado geral de seu bairro. E o tempo em frente a telas foi similarmente associado a menos sono em geral. Em particular, as crianças que seguiram as diretrizes de tempo diário de tela recomendadas pela Academia Americana de Pediatria (AAP) relataram um sono melhor e de maior duração do que aquelas que não seguiram. Aquelas que seguiram a versão de 2010 das diretrizes (não mais do que duas horas de tempo de tela, no máximo, para qualquer criança acima de dois anos de idade) tiveram 20 minutos a mais de sono por noite, enquanto as crianças que seguiram a versão de 2016 (de uma a duas horas para crianças entre 18 meses e cinco anos, com limites mais flexíveis para crianças mais velhas) tiveram 26 minutos a mais.

Mas, ao olhar para o tempo gasto em frente a telas de forma isolada de outros fatores conhecidos por afetar o sono, como as condições de sua vizinhança, Przybylski só viu uma associação modesta. Para crianças entre seis meses e cinco anos de idade, cada hora de tempo de tela estava ligada a cerca de oito minutos de sono perdido; para crianças com mais de cinco anos, foram apenas três minutos.

As descobertas foram publicadas na segunda-feira (5), no periódico The Journal of Pediatrics.

“A maioria dos estudos usa significância estatística como um significante para saber se a correlação entre as telas e o sono ‘existe'”, disse Przybylski. “O que eu descobri foi que menos de 2% dos resultados de sono estavam correlacionados às telas e tentei colocar esse efeito em uma métrica relatável (ou seja, de 3 a 8 minutos).”

Não é a primeira vez que Przybylski lança dúvidas sobre a narrativa de que as telas são particularmente prejudiciais para as crianças. No ano passado, ele e outros especialistas publicaram pesquisas parecidas, mostrando que a quantidade de tempo em frente a telas de uma criança, por si só, não está ligada a um comportamento inadequado ou a problemas de saúde mental.

Tanto esse estudo antigo quanto o atual se basearam em dados de pesquisas observacionais dos pais, o que significa que eles não conseguem mostrar diretamente uma ligação de causa e efeito entre as telas e a saúde. Mas, diferentemente de outros estudos menores de tempo de tela, os tamanhos grandes das amostras usadas nas pesquisas de Przybylski reforçam suas descobertas.

Przybylski também apontou que registrou previamente os detalhes de como o estudo seria conduzido antes de começar. Essa medida é tomada por cientistas para aumentar a transparência na pesquisa, porque mostraria se um pesquisador alterou os métodos de um estudo após a coleta de dados, a fim de obter certos resultados desejados.

A maioria dos americanos, incluindo crianças e adolescentes, tem dificuldade em dormir o suficiente. Então, qualquer coisa que possa ajudar não deve ser descartada completamente. Mas, como aponta Przybylski no periódico, mudar o início das aulas na escola para mais tarde durante o dia ajudaria muito os pequenos a dormirem melhor. Apesar das descobertas, Przybylski não está defendendo que os pais deixem as crianças terem um tempo ilimitado em frente a telas.

“Acho que os pais devem tomar decisões de acordo com seus valores e não devem depender de manchetes assustadoras para orientar suas decisões como pais”, disse o autor do estudo. “Só porque a pesquisa indica que o tempo de tela não desempenha um grande papel (no sono) não significa que eles não devem definir regras que funcionem para sua família.”

Seu próprio trabalho mostrou que a qualidade do que as crianças assistem nas telas, e se os pais estão envolvidos nesse tempo de tela, é o que mais importa. E o mesmo pode ser dito sobre todas as maneiras como a geração mais jovem está interagindo com tecnologias.

“Eu acho que pais e crianças precisam estar engajados em um diálogo ativo sobre o uso da tecnologia e precisam ser realistas de que nada mágico acontece quando alguém faz 18 anos”, acrescentou. “Em vez disso, existe um processo de tentativa e erro em que os pais ajudam as crianças, e a tecnologia é uma pequena parte desse processo mais amplo.”

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[The Journal of Pediatrics]