Astrônomos viram uma rajada extremamente brilhante de ondas de rádio emanando de dentro de nossa própria galáxia. A observação surpreendente poderá nos ajudar a entender o mistério por trás dessas emissões enigmáticas, conhecidas como rajadas rápidas de rádio.

Telescópios de todo o mundo estão compartilhando dados sobre radiação eletromagnética vinda da direção de uma estrela de nêutrons altamente magnética, chamada magnetar SGR 1935+2154. Essas observações, primeiro relatadas pela ScienceAlert, representam a primeira explosão de rádio originária de nossa própria galáxia já registrada — embora os cientistas não estejam prontos para considerar decisivamente o evento como uma rajada rápida de rádio como as provenientes de outras galáxias que foram documentadas.

As rajadas rápidas de rádio são exatamente o que o nome sugere: rajadas curtas e fortes de ondas de rádio que medimos aqui na Terra, sempre originárias de fora da Via Láctea. Os cientistas avistaram a primeira com o radiotelescópio Parkes em 2001 e descobriram muitas mais desde então, incluindo aquelas que se repetem. Dado que essas explosões vêm de galáxias distantes, tem sido difícil determinar o que as causa, embora magnetares como SGR 1935+2154 tenham sido considerados os culpados mais prováveis.

Telescópios — incluindo o Observatório Swift Neil Gehrels, o Telescópio Espacial Fermi de Raios Gama e o Explorador de Composição Interior de Estrelas de Nêutron (NICER) — notaram que o SGR 1935+2154 estava ficando mais ativo em 27 de abril, emitindo mais raios-x e raios gama.

“Depois de algumas horas, houve repentinamente um número muito grande de rajadas brilhantes, e vimos o que normalmente é conhecido como uma floresta de rajadas”, disse Jamie Kennea, professor de pesquisa da Universidade Estadual da Pensilvânia que trabalha com o Swift, ao Gizmodo. “Eles estavam vindo rapidamente e se tornaram quase indistinguíveis um do outro.”

Então veio o flash: uma explosão de ondas de rádio atingiu o telescópio CHIME no Canadá. Elas estavam fora da linha de visão direta de CHIME, mas o telescópio as viu mesmo assim.

O Experimento Canadense de Mapeamento de Intensidade de Hidrogênio/Projeto de Rajadas Rápidas de Rádio (CHIME/FRB, na sigla em inglês) é um radiotelescópio no sul da Colúmbia Britânica, composto por quatro antenas de meio cilindro que varrem o céu 1.000 vezes por segundo em busca dessas rajadas. O CHIME já viu muitas delas, mas a explosão do SGR 1935+2154 foi algo especial.

“Estava tão claro que o vimos pelo canto dos olhos, por assim dizer”, disse ao Gizmodo Shriharsh Tendulkar, pós-doutorando na Universidade McGill. Eles acharam que tinham que levar as notícias da detecção para a comunidade o mais rápido possível, enquanto a fonte estava ativa.

As mensagens de celular e no Slack chegaram aos montes, e outros telescópios começaram a olhar para a fonte. Em um curto período de tempo, telescópios de raios-x, de raios gama e outros radiotelescópios começaram a captar evidências do sinal. Os pesquisadores postaram suas observações no Astronomer’s Telegram.

Agora, os cientistas estão trabalhando para entender se realmente viram uma rajada rápida de rádio originada dentro de nossa própria galáxia. Tendulkar explicou ao Gizmodo que a explosão teria caído na faixa possível de energias de rajada rápida de rádio, embora no limite mínimo; do lado de fora da Via Láctea, ela pareceria fraca. Eles também devem calcular melhor a distância até SGR 1935+2154 e a força real do sinal.

“Acho que ainda vale a pena ser cauteloso ao afirmar que os magnetares podem exibir luminosidades do tipo rajada rápida de rádio, mas esse evento é certamente encorajador”, disse Victoria Kaspi, professora de física da Universidade McGill, ao Gizmodo por e-mail. E se foi mesmo uma, esse evento ainda não confirmaria que os magnetares representam todas as rajadas rápidas de rádio.

Os magnetares são, há muito, um dos principais candidatos a explicar essas explosões. Os astrônomos pensam que os incríveis campos magnéticos desses objetos podem induzir tremores nas estrelas, eventos que ocasionalmente se repetem e liberam rajadas de raios gama e raios-x. Mas os astrônomos não viram ondas de rádio desses objetos até agora.

Essa observação fortalece ainda mais a busca por flashes brilhantes dos magnetares. Tendulkar disse ao Gizmodo que é apenas uma questão de continuar as observações para tentar encontrar outro flash desse tipo. Ele também comentou que outros radiotelescópios precisam garantir que flashes brilhantes como este não sejam ignorados, já que outros podem descartar sinais de rádio especialmente brilhantes como interferência terrestre.

Se você esperava que os alienígenas estivessem por trás de explosões rápidas de rádio, não fique triste! Essa observação ainda não descarta alienígenas.