O papo é antigo, amplificado pelas redes de extrema-direita e agentes de desinformação. Agora, é mais amplo pelos que reclamam dos “sommeliers de vacina”. Por motivos diferentes e individuais, as pessoas estão “escolhendo” que vacina querem tomar. 

No primeiro momento, a vilã era a vacina da AstraZeneca, que foi relacionada a raros casos de coágulos. Recentemente, passou a ser a chinesa Sinovac-CoronaVac: primeiro porque, por não ter sido aprovada para uso na União Europeia, as pessoas vacinadas com ela não poderiam viajar aos países do bloco. Recentemente, porém, ressurgiu uma conversa antiga, sobre a eficácia da vacina.

Enquanto era assunto só das redes e WhatsApp de família (por que mesmo vocês participam de grupos de família?), o assunto era restrito mas, na última terça-feira, ninguém menos que o New York Times entrou na história, e de um jeito bastante desastrado. Em artigo abertamente xenófobo, o jornal estadunidense simplesmente fez um apanhado de países em que a vacinação está se dando majoritariamente com vacinas de fabricação chinesa para sugerir que elas não são eficazes. O título (em tradução livre): “Eles confiaram em vacinas chinesas. Agora eles estão lutando contra surtos”. É um negócio vergonhoso para aquele que é, para muitos, o padrão-ouro do jornalismo mundial.


O caso tem um lado científico e um jornalístico. O científico não é comigo, já que não sou cientista. Por isso conversei com um — e dos bons: Eder Gatti, doutor em medicina preventiva (USP) e que escreveu uma tese sobre vacinas que ganhou menção honrosa pela Capes. Perguntei a ele sobre a eficácia das vacinas, como avaliá-la, e se é possível concluir, como fez o NYTimes, que a Sinovac-CoronaVac é menos eficaz que as vacinas da Pfizer ou da AstraZeneca. Ele diz que não, e explica:

1-  É impossível comparar os estudos de eficácia das diferentes vacinas

O estudo da Sinovac-CoronaVac feito no Brasil foi com profissionais de saúde, uma população muito mais exposta ao vírus do que a geral, com quem foram testadas as outras vacinas. Além disso, durante o teste, a segunda dose foi aplicada depois de duas semanas, quando é sabido que a eficácia das vacinas, principalmente as de vírus inativado, como da Sinovac-CoronaVac, tendem a ser maiores com mais intervalo entre as duas doses. Vale lembrar que na população geral a Sinovac-CoronaVac vem sendo dada com intervalo de 28 dias entre as doses.

2- O perfil das hospitalizações por Covid-19 mudou radicalmente de fevereiro para cá

Em fevereiro, quando a vacinação começou no Brasil, o público-alvo eram idosos. A partir de fevereiro, e cada vez mais, são adultos em idade produtiva. Dados do município de Serrana e do Chile mostram com clareza que entre os vacinados as hospitalizações diminuem significativamente.

3- Já há estudos de fase 4 sendo feitos, em que se avalia a eficácia das vacinas na comunidade, e eles apontam uma taxa de sucesso superior a 80% em prevenir mortes.

Consideremos que, mesmo que não dê pra comparar em pé de igualdade os estudos de eficácia das vacinas, a Sinovac-CoronaVac tenha eficácia menor que a vacina da Pfizer para impedir contaminações: o que torna a vacina produzida pelo Butantã eficaz não é apenas sua capacidade de impedir transmissão da doença – que, ainda que seja menor que a da Pfizer, não é ruim, apenas demanda um número maior de pessoas vacinadas para que a doença seja controlada. A Sinovac-CoronaVac é extremamente eficaz em impedir hospitalizações e mortes. Além dos casos citados acima, no Uruguai, por exemplo, números mostram que ela é até mais eficaz que a Pfizer em prevenir mortes. E isto faz uma diferença que não é pequena.


Se do ponto de vista científico o artigo do New York Times é problemático, do ponto de vista jornalístico ele é muito mais questionável. 

Para começar, desvaloriza a distinção que apresentamos acima. A reportagem cita dados da Mongólia para mostrar que o país, embora tenha vacinado boa parte da população, continua tendo surtos de Covid-19. O próprio artigo, entretanto, informa que o país tem dados que indicam que a Sinovac-CoronaVac protege mais do que as vacinas AstraZeneca e Sputnik V. O governo do país é claro ao avaliar a causa dos surtos: abriram tudo cedo demais, e algumas pessoas sentiram-se protegidas antes de tomar a segunda dose. 

Outro ponto problemático é a maneira “jogada”  como se compara números. Uma comparação, por exemplo, é entre o número de casos de Covid-19 em Israel e nas Ilhas Seychelles. Segundo o jornal, o número de infectados em Israel, que vacinou sua população com a vacina da Pfizer, caiu para 4,95 por milhão, enquanto nas ilhas, que usaram a Sinovac-CoronaVac , o número estaria em 716 por milhão. A reportagem só esqueceu de mencionar que as Ilhas Seychelles têm menos de 100.000 habitantes, ou seja, qualquer desvio é imensamente significativo, ao contrário de Israel, onde vivem 9 milhões de pessoas.

Outro dado estatístico peculiar: a reportagem indica que na Indonésia, que vacinou majoritariamente com Sinovac, muitos profissionais de saúde foram contaminados depois da vacina. No mesmo parágrafo, porém, informa que de fevereiro a julho 61 médicos morreram de Covid-19, mas apenas 10 deles haviam tomado a Sinovac-CoronaVac – à qual a matéria se refere como “a vacina feita na China”, embora não mencione onde são produzidas as outras vacinas.

É significativo observar também que a matéria ouve apenas dois especialistas, e que um deles é ligado à Universidade de Hong Kong, o que apresenta questões geopolíticas profundas que não deveriam ter sido ignoradas – a frase final do cientista, significativamente, é: “A China tem que pagar por isso”.

O outro cientista citado é William Schaffner, da Universidade Vanderbilt. Schaffner, porém, embora diga que de fato parece haver ligação entre uma maior contaminação por Covid-19 e a vacinação com Sinovac-CoronaVac, conclui que apesar de tudo esta vacina “mantém as pessoas em grande parte fora do hospital”.


Há muitos anos, a Folha de S.Paulo apresentou uma campanha publicitária na qual enumerava os feitos positivos de um determinado governante enquanto a câmera abria lentamente sem revelar quem era o personagem. Quando a imagem finalmente aparecia, percebia-se que era Adolf Hitler. A chamada da campanha era É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. A reportagem do New York Times sobre a Sinovac-CoronaVac deveria ser utilizada em escolas de jornalismo como exemplo acabado de propaganda de uma causa disfarçada de jornalismo.

A população tem o direito de saber tudo o que puder sobre as vacinas que poderá ou não tomar — e esse é o papel do jornalismo. Em um momento como o atual, porém, em que vacinar é fundamental e ao mesmo tempo há movimentos políticos buscando desacreditar as vacinas, não basta fazer o básico bem feito. O New York Times não fez nem isso.

Só saberemos com mais precisão a eficácia de todas as vacinas disponíveis contra a Covid-19 com o tempo. O que existe de informação hoje em dia, porém, permite dizer que a Sinovac-CoronaVac é bastante eficaz em manter as pessoas fora do hospital, assim como em impedir óbitos. Falar sobre sua suposta menor eficácia em impedir transmissões sem mencionar este fato é contraproducente e perigoso no meio de uma pandemia como a que vivemos. Não é jornalismo e não é responsável.


Do ponto de vista da saúde pública, o que as pessoas precisam entender é que cobertura vacinal não é algo que se atinge individualmente. Enquanto uma parte significativa da população não estiver vacinada, ninguém, vacinado ou não, estará seguro, independentemente de a pessoa ter tomado a vacina A ou a vacina B. 

Por outro lado, é preciso entender também que buscar o melhor pra si é humano, e que as pessoas trabalham com as informações que têm. Simplesmente chamar de “sommelier de vacina” quem busca a melhor proteção possível para si e para sua família é se manter no terreno da sinalização de virtude. 

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É necessário que as pessoas estejam informadas, e que entendam que o que garante uma mudança de capítulo da pandemia é que muitas pessoas se vacinem. Para isso acontecer, no entanto, não vai dar pra escolher grife de vacina. Ainda mais quando os resultados mostram que todas as que temos disponíveis fazem grande diferença no que importa mais, que é ficar vivo e, se possível, sem precisar ir ao hospital. 


A dica de hoje é de uma série que eu ainda não assisti, mas que tem tudo a ver com o tema da coluna: A Corrida das Vacinas, da Globoplay. A recomendação é pelo tema mas também pelos envolvidos, especialmente o Alvaro Pereira Junior, um dos melhores e mais sérios jornalistas do Brasil. Aqui.

E a outra dica é: vacinem-se. Esta não requer explicações.