Trinta anos atrás, Tim Berners-Lee apresentou uma proposta para o que se tornaria a world wide web. Agora, por muitas razões, o inventor da web não está nada entusiasmado com a forma como tratamos sua criação nas décadas que se seguiram.

“Embora a web tenha criado oportunidades, dado uma voz a grupos marginalizados e facilitado nossa vida cotidiana, ela também criou oportunidades para golpistas, deu voz àqueles que espalham o ódio e tornou todos os tipos de crimes mais fáceis de se cometer”, escreve Berners-Lee hoje em uma carta aberta comemorando o aniversário da web.

Com um número aparentemente infinito de escândalos e vazamentos, revelações sobre mineração de dados e condições de trabalho precárias permitidas pela rede, fica fácil se render à ideia de que o legado da web é de longo e lento declínio​. Berners-Lee, no entanto, adverte contra o derrotismo. “Se desistirmos de construir uma rede melhor agora, não será a rede que terá falhado conosco, mas nós que teremos falhado com ela.”

“Este ano, vimos vários funcionários de tecnologia se levantarem e exigirem melhores práticas de negócios. Precisamos encorajar esse espírito”, ele escreve, provavelmente em referência às várias cartas abertas de trabalhadores que pressionam contra o envolvimento de suas empresas em projetos militares. Trabalhadores do Google se posicionaram contra a participação da empresa no Projeto Maven. Na Microsoft, houve oposição à colaboração da companhia com o Pentágono para desenvolver os HoloLens para treinar soldados, e também uma onda de críticas ao uso da tecnologia pela Agência de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).

Criar um “Contrato para a Web” é o motor da análise retrospectiva de Berners-Lee. Ele lançou esse conceito em novembro do ano passado. O contrato lista nove princípios, três direcionados a governos, três a empresas e três adicionais para os próprios usuários da web. Alguns, como o acesso universal à internet habilitado pelo Estado, são benevolentes, mas talvez idealistas.

Embora ainda estejam engatinhando e sujeitas a mudanças, as ideias de Berners-Lee sobre como as empresas poderiam construir uma internet mais benéfica, infelizmente, parecem totalmente distantes da realidade em que vivemos atualmente.

“Tornar a internet financeiramente acessível” é justamente o que permitiu que o modelo de publicidade atual se tornasse tão popular. Também foi a justificativa que levou à coleta de dados em massa responsável por tornar o Facebook e o Google tão ricos. Essa última situação, inclusive, está fundamentalmente em desacordo com o próximo mandamento de Berners-Lee: “respeitar a privacidade e os dados pessoais dos consumidores”.

Pedir para as plataformas on-line “desenvolverem tecnologias que apoiem o melhor da humanidade e desafiem o pior” — novamente, algo que seria melhor e mais saudável — vai contra a afirmação do Facebook de que “não importa onde tracemos os limites do que é permitido; quando um conteúdo chega perto dessa linha, as pessoas vão se engajar mais com isso”.

Embora defenda especificamente seu próprio contrato, Berners-Lee está certo ao dizer que chegamos a um ponto de inflexão em “nossa jornada da adolescência digital para um futuro mais maduro, responsável e inclusivo”. Muitos consumidores, funcionários de empresas de tecnologia e legisladores concordam que é necessário um controle mais amplo sobre a web e a internet de forma geral, seja na forma de segurança do usuário, legislação de privacidade de dados ou na busca de casos antitruste contra as maiores empresas nascidas da invenção de Berners-Lee.

Se o Contrato para a Web será a “estrela-guia” que Berners-Lee pretende que seja é o de menos. O que importa é saber que o pai da Web continua empenhado em ver sua criação se desenvolver.