Aplicativos de namoro, incluindo Tinder e Grindr, não conseguiram evitar a exploração sexual de crianças em suas plataformas, em parte devido às fracas medidas de verificação de idade, de acordo com uma reportagem do Sunday Times.

Por meio de um pedido de registros públicos, espécie de Lei de Acesso à Informação, o jornal obteve documentos de dez forças policiais britânicas detalhando vários casos de aliciamento e exploração sexual de crianças envolvendo serviços de namoro online.

Os incidentes incluíam uma menina de 16 anos com síndrome de Down que foi explorada e incentivada a enviar fotos nuas, uma menina de oito anos que teve uma “conversa sexual” com um homem e lhe enviou fotos sexuais e um menino de 13 anos que foi abusado sexualmente por 21 homens através de aplicativos de namoro, incluindo Grindr. O adolescente agora é um adulto e disse ao Sunday Times que foi “submetido a uma lavagem cerebral” por seus agressores — dos quais dois eram supostamente professores — e conseguiu acessar o aplicativo usando uma data de nascimento falsa.

Desde 2015, houve investigações em mais de 30 casos de estupro infantil na Grã-Bretanha, nos quais as vítimas conseguiram contornar a verificação de idade nos aplicativos de namoro, de acordo com os documentos obtidos. Os registros supostamente indicaram que houve 60 casos, além desses envolvendo exploração sexual de crianças em serviços de namoro online.

“Vou escrever a estas empresas perguntando que medidas elas têm em vigor para manter as crianças a salvo de danos, incluindo a verificação de sua idade”, disse ao Sunday Times Jeremy Wright, político do Partido Conservador Inglês e Secretário da Cultura. “Se eu não estiver satisfeito com sua resposta, reservo-me o direito de tomar novas medidas.”

Tinder e Grindr só permitem usuários com 18 anos de idade ou mais. As Diretrizes da Comunidade do Tinder sequer autorizam fotos de menores desacompanhados, o que significa que, se você quiser incluir uma foto do seu filho, você precisa estar na foto. “Se você vê um perfil que inclui um menor desacompanhado, encoraja danos a um menor ou retrata um menor de uma forma sexual ou sugestiva, por favor, denuncie imediatamente,” dizem as diretrizes online. O Grindr também declara em sua Política de Privacidade que os usuários devem contatar a empresa se souberem que uma criança ou um menor compartilhou qualquer informação no aplicativo.

Um porta-voz do Tinder disse ao Gizmodo por e-mail que a empresa usa “uma rede de ferramentas, sistemas e processos de revisão e moderação automatizados e manuais líderes na indústria — e gasta milhões de dólares anualmente — para prevenir, monitorar e remover menores e outros comportamentos inadequados do nosso aplicativo”. Eles disseram que as ferramentas automatizadas verificam os perfis dos usuários em busca de “linguagem e imagens reveladoras” e apontaram que a companhia também analisa manualmente “perfis suspeitos, atividades e denúncias geradas por usuários”, além de bloquear “endereços de e-mail, números de telefone e outros identificadores associados a usuários menores de idade tentando contornar essas restrições”.

“O resumo é o seguinte: estamos consistentemente avaliando e refinando nossos processos para impedir o acesso de menores e sempre trabalharemos com as autoridades policiais, sempre que possível, para proteger nossos usuários também”, disse o porta-voz. “Não queremos menores no Tinder. Ponto final.”

O Grindr enviou o seguinte comunicado ao Gizmodo:

“Ficamos tristes ao saber desses relatos. O Grindr está empenhado em criar um ambiente seguro e protegido para ajudar a nossa comunidade a se conectar e prosperar, e qualquer caso de abuso sexual ou outro comportamento ilegal é preocupante para nós, assim como uma clara violação dos nossos termos de serviço. Encorajamos os usuários a denunciar comportamentos impróprios ou ilegais dentro do aplicativo ou diretamente por e-mail, para legal@grindr.com. Além disso, nossa equipe está constantemente trabalhando para melhorar nossas ferramentas de triagem digital e humana para prevenir e remover o uso impróprio de nosso aplicativo por menores de idade.”

Ferramentas automatizadas de detecção, moderação manual e denúncias geradas por usuários podem permitir que os serviços de encontros monitorem e eliminem retroativamente quaisquer perfis que pareçam violar seus requisitos de idade, mas esses processos não impedem que todos os menores mintam sobre sua data de nascimento e usem os aplicativos. O processo de verificação de idade para esses aplicativos, como a maioria dos serviços de internet, depende do sistema. Não está claro se aplicativos de namoro, como Grindr e Tinder, exigirão que os usuários forneçam evidências mais sólidas de sua idade, mas, como o comentário de Wright acima sugere, se não o fizerem, os legisladores podem pressioná-los.

[The Times]