Um tratamento de anticorpos feitos em laboratório tem mostrado resultados promissores na prevenção de hospitalizações por COVID-19, pelo menos em alguns testes preliminares.

Na terça-feira (15), a farmacêutica Eli Lilly anunciou que sua terapia experimental com anticorpos reduziu a taxa de hospitalizações entre pessoas com COVID-19 tratadas em regime ambulatorial, em comparação com um grupo de controle com placebo. Mas as descobertas precisam ainda de mais estudos.

O tratamento da Eli Lilly, chamado LY-CoV555, consiste em um anticorpo monoclonal. Os anticorpos monoclonais são criados a partir de uma única célula clonada em laboratório.

Embora sejam baseados em anticorpos produzidos naturalmente pelo sistema imunológico, eles costumam ser ajustados para serem mais eficazes ou seguros em qualquer tarefa que pretendem realizar. Os anticorpos monoclonais são usados na medicina para tratar doenças como câncer, doenças autoimunes e infecções virais, e os cientistas têm muita esperança de usá-los para tratar a infecção que causa o COVID-19.

O LY-CoV555 é derivado de um tipo de anticorpo neutralizante — um anticorpo que impede o coronavírus SARS-CoV-2 de infectar células — encontrado em sobreviventes de COVID-19. Ele foi descoberto inicialmente por cientistas da empresa de biotecnologia AbCellera, que desde então criou uma parceria com a Eli Lilly para desenvolvê-lo. Já existe um ensaio de fase 3 para LY-CoV55 em andamento, sendo executado em conjunto com o NIH (National Institutes of Health).

Estes últimos resultados vêm de uma “análise provisória” de dados de um ensaio de fase 2 do LY-CoV555. O ensaio em andamento, chamado de BLAZE-1, tem como objetivo testar a segurança do tratamento e a dose ideal. O teste deve recrutar 800 participantes até o final, todos com diagnóstico de COVID-19 leve a moderado, mas não necessariamente doentes o suficiente para precisar de hospitalização ou atendimento de emergência. Os voluntários foram randomizados para um de quatro grupos: um recebendo placebo e os outros três recebendo doses variáveis de LY-CoV555.

Aqueles que receberam LY-CoV555 (em todos os grupos de dosagem) foram menos propensos a precisar de hospitalização ou visitar um pronto-socorro do que aqueles que receberam o placebo, informou a empresa nesta terça-feira (15). Apenas 1,7% dos pacientes com LY-CoV555 precisaram de cuidados hospitalares, em comparação com 6% com placebo, totalizando uma redução relativa de risco de 72%. Além disso, o tratamento parecia ser bem tolerado, sem relatos de eventos adversos graves relacionados ao medicamento, e parecia haver pouca evidência de que o vírus tivesse forte resistência inata ao anticorpo em pacientes.

“Esses dados provisórios do ensaio BLAZE-1 sugerem que o LY-CoV555, um anticorpo dirigido especificamente contra o SARS-CoV-2, tem um efeito antiviral direto e pode reduzir as hospitalizações relacionados ao COVID-19”, disse Daniel Skovronsky, diretor científico da Eli Lilly e presidente da Lilly Research Laboratories, em comunicado divulgado pela empresa. “Os resultados reforçam nossa convicção de que anticorpos neutralizantes podem ajudar na luta contra COVID-19”.

Embora a empresa tenha dito que planeja apresentar essas descobertas em uma revista científica revisada por pares, isso ainda não aconteceu, então quaisquer resultados devem ser vistos com cautela por enquanto. E embora os resultados pareçam promissores no geral, existem algumas peculiaridades que podem colocá-los em dúvida.

Por exemplo, foi apenas no grupo que recebeu a dose média de LY-CoV555 (2.800 miligramas) que o objetivo principal do ensaio foi alcançado, onde o grupo de tratamento tinha níveis significativamente menores do vírus em seu sistema do que o grupo que tomou placebo; nenhum resultado semelhante foi observado no grupo de dose baixa ou alta. Isso não é necessariamente prejudicial, mas muitos medicamentos tendem a ter uma curva de dose-resposta, em que seus efeitos no corpo são mais potentes quanto maior for a dose.

É possível que este ensaio simplesmente não tenha sido ótimo para medir a verdadeira força do tratamento, impedindo o vírus de crescer mais cedo do que se nada fosse feito. Na verdade, a empresa está argumentando que sua análise inicial mostra que as pessoas que receberam o LY-CoV555 tinham menos vírus em seu sistema no terceiro dia do que o grupo do placebo. A maioria das pessoas no estudo, com ou sem placebo, havia eliminado a infecção 11º dia do tratamento; é possível que o benefício adicional do tratamento fosse detectável em pacientes que ficaram doentes por mais tempo.

Também é possível que os resultados positivos, incluindo a menor taxa de hospitalização, sejam um acaso estatístico. Mesmo se for o caso, isso não descarta os anticorpos monoclonais possam ser um tratamento útil, especialmente para casos mais graves.

No fim das das contas, tudo isso significa que quaisquer resultados iniciais, não importa quão bons, devem ser cuidadosamente estudados por outros e replicados antes que possamos ter certeza sobre eles.