A Uber anunciou que se encaminha para atingir, antes do previsto, a meta de equilibrar as contas ou ter um lucro operacional pela primeira vez. Bom, pelo menos no papel — e analisando as contas do jeito que eles esperam que você o faça.

De acordo com a Reuters, a companhia disse na última terça-feira que espera atingir o ponto de equilíbrio neste trimestre, de acordo com sua definição de “EBITDA ajustado” — o lucro que não considera fatores como juros, impostos, depreciação e amortização. Esta é uma maneira elegante de dizer que a Uber afirma estar ganhando dinheiro antes de calcular todos os gastos que possui — o que, historicamente, significa que não está ganhando. A Uber está projetando algo entre um lucro e uma perda de US$ 25 milhões com base no EBITDA ajustado para o terceiro trimestre de 2021. A estimativa anterior previa que a empresa continuaria a perder US$ 100 milhões no período.

Um analista da consultoria MKM Partners, Rohit Kulkarni, disse à Reuters que este é um “claro sinal positivo” para a Uber. Isso é verdade, porque a empresa, pelos padrões normais de contabilidade, derramou bilhões durante anos — como se dólares fossem formigas de fogo tentando escalar suas pernas. Como observou o site TechCrunch, em 2020, a empresa perdeu US$ 6,7 bilhões pelas regras contábeis normais, mas conseguiu reduzir esse número para US$ 2,7 bilhões, aplicando sua definição extremamente generosa de EBITDA. Essa definição é feita da seguinte maneira:

Definimos o “EBITDA Ajustado” como o lucro (prejuízo) líquido, excluindo (i) lucro (prejuízo) de operações descontinuadas, líquido de imposto de renda, (ii) lucro líquido (prejuízo) atribuível a participações não controladoras, líquido de imposto, (iii) provisão para (benefício de) imposto de renda, (iv) receita (perda) de investimentos pelo método de equivalência patrimonial, (v) despesa de juros, (vi) outras receitas (despesas) líquidas, (vii) depreciação e amortização, (viii) estoque-despesa de compensação baseada, (ix) certas alterações e liquidações legais, fiscais e regulatórias, (x) ágio e prejuízos / perdas na venda de ativos, (xi) despesas relacionadas com aquisição e financiamento, (xii) reestruturação e encargos relacionados e (xiii) outros itens não indicativos de nosso desempenho operacional contínuo. Isso inclui pagamentos relacionados à resposta à COVID-19, para assistência financeira aos motoristas pessoalmente impactados pela COVID-19, o custo do equipamento de proteção individual distribuído aos motoristas, reembolso dos motoristas pelo custo de compra de proteção pessoal, os custos relacionados com viagens gratuitas e entregas de alimentos para profissionais de saúde, idosos e outros necessitados, bem como doações de caridade.

Como observou o site TechCrunch, é extremamente incomum que uma empresa liste 12 categorias separadas de exclusão no EBITDA ajustado. Equilibrar-se com essa métrica, porém, se tornou o principal argumento da Uber para com os investidores, uma vez que a companhia continuamente falha na tarefa de realmente ganhar dinheiro. Isso funcionou principalmente porque a máquina especulativa publicitária da empresa garantiu que os investidores continuassem a derramar subsídios.

No passado, como observou o Wall Street Journal, a Uber muito raramente conseguiu contabilizar lucros por “ganhos únicos de certos investimentos e desinvestimentos”. Esses exemplos incluem a fusão de suas operações na Rússia e no sul da Ásia com concorrentes em 2018, ou seu investimento na empresa chinesa Didi (que a Uber foi convenientemente capaz de tornar público antes que reguladores chineses tomassem medidas para cortar suas ações em mais de 50%), no segundo trimestre de 2021.

“O EBITDA é, por vezes, usado por empresas com ativos fixos muito grandes, grandes ativos intangíveis (como o ágio adquirido após uma grande fusão) ou grande financiamento de dívida para dar a quem vê de fora uma noção crua da capacidade da empresa de cumprir suas obrigações financeiras pendentes. A Uber não tem nenhuma dessas características”, escreveu o analista de transportes Hubert Horan no site Naked Capitalism em fevereiro de 2020.“ Mais importante, os números de ‘EBITDA’ relatados pelo Uber excluem bilhões de despesas, além de juros, impostos, depreciação e amortização”.

Em um documento apresentado na terça-feira, a Uber previu reservas brutas de US$ 22,8 bilhões a US$ 23,2 bilhões para o trimestre atual, que a CNBC informou ser um ajuste de uma estimativa de ganhos anterior de US$ 22 bilhões a US$ 24 bilhões. No segundo trimestre de 2020, a Uber reservou US$ 8,6 bilhões em mobilidade (táxis, bicicletas e motos) e US$ 12,9 bilhões para entrega de refeições em restaurantes.

Horan, analista do site Naked Capitalism, não se deixou impressionar pelos resultados do segundo trimestre divulgados recentemente pela empresa.

“Considerando os dados muito limitados que a Uber incluiu em seus relatórios, é impossível estimar a lucratividade das caronas compartilhadas e entrega de comida separadamente, ou como a lucratividade de cada negócio está mudando ao longo do tempo”, acrescentou Horan em uma postagem feita este mês. “Apesar das falhas na métrica usada, a entrega de comida parece ser um desastre financeiro, que reduziu significativamente o lucro líquido da Uber. Mesmo depois de excluir blocos de custos relevantes, a margem de contribuição da entrega de comida foi negativa de 10% no primeiro semestre de 2021, e teve margem 30% pior do que as caronas compartilhadas.”

Algumas das razões pelas quais a Uber se tornou tão próxima de obter um lucro teórico ajustado incluem demissões em massa, bem como custos exorbitantes para viagens e taxas de cair o queixo para serviços de entrega de comida. Observe que, apesar de criar uma rede de pessoas miseráveis, tudo isso não conseguiu gerar lucro real até agora para ninguém, exceto executivos e investidores que lucram durante suas muitas flutuações de ações.

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As ações da Uber subiram mais de 12,5% no início da tarde da última terça-feira, com os investidores continuando a apostar suas fichas. O preço de quase US$ 45 por ação era muito mais baixo do pico de mais de US$ 60 no início de 2021. Mas, pelo menos, muito melhor do que o preço do início da pandemia nos EUA, em março de 2020, quando atingiu menos de US$15 por ação.