O futuro do trânsito nas cidades – pelo menos na teoria – parece incrível. Teremos assistentes digitais nos nossos carros para fazer reservas de última hora em restaurantes e nunca mais precisaremos tocar num volante, porque os veículos vão se dirigir sozinhos.

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Na CES, eu pude sentir na pele como essa tecnologia está se desenvolvendo. Embora eu estivesse num contexto de um percurso cuidadosamente desenhado, em vez de uma experiência real nas ruas da cidade, fui embora pensando que uma sociedade sem motoristas está muito longe de acontecer.

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Tive essa compreensão durante uma experiência com carros autônomos concedida em conjunto por cinco grandes empresas: Microsoft, NXP, IAV, Swiss Re, Esri e Cubic Telecom. O passeio foi montado para uma demonstração de como os veículos do futuro irão se comunicar com a infraestrutura das cidades e sobre como eles irão utilizar bastante a inteligência artificial para oferecer uma viagem totalmente automatizada para pessoas como eu – um turista numa cidade desconhecida – e sugerir lugares para se visitar.

O conceito é incrível e eu deveria ter aproveitado bastante o tour. A ideia era que eu entrasse no caso e ele me levasse até o hotel Las Vegas Strip enquanto o sistema de inteligência artificial iria apontar diversas localidades interessantes que eu poderia visitar. O melhor de tudo é que eu não deveria fazer nada, já que o carro é autônomo.

viagem-autonoma-1O carro autônomo teve dificuldades em detectar objetos parados, como carros em sua frente. Imagem: Gizmodo.

Imaginei que seria uma corrida de táxi perfeita, sem um motorista tagarela ou qualquer desvio desnecessário do caminho. A minha viagem seria usada para fazer coisas úteis, como aprender sobre a cidade que estou visitando ou fazer novos planos durante o trajeto. Mas a realidade é que a tecnologia de autonomia do carro quase não funcionou e os sistemas conectados à internet pareciam ser apenas simulados.

Senti que não era demais esperar tudo isso. Afinal, o Google tem desenvolvido carros autônomos e os testando no mundo real praticamente sem incidentes já faz alguns anos. E no ano passado o Uber inaugurou sua primeira frota de carros totalmente autônomos em Pittsburgh. Sim, ainda tem um motorista atrás do volante nesses Ubers, mas na maior parte do tempo os carros estão dirigindo a si mesmos com humanos sendo levados pra lá e pra cá. E em termos de veículos do mercado, os carros da Tesla são equipados com hardware suficiente para que ele seja completamente autônomo, eles possuem inclusive um sistema de piloto automático (legalmente contestado).

Embora carros autônomos seguros devem existir atualmente, essa demonstração não me fez sentir bem sobre a tecnologia. No final, nós quase batemos – duas vezes! Em duas ocasiões diferentes o carro não conseguiu parar e nosso motorista teve que enfiar o pé no freio para previnir que o carro se arrebentasse em outro. Aparentemente, o sistema tem dificuldades em identificar veículos parados. OK!

Além disso, o operador do nosso carro dirigiu por pelo menos 40% de todo o caminho. Ele girou o voltante e pisou no freio. Em umas duas ocasiões, ele não respondeu ao sistema de inteligência artificial, mesmo quando a assistente estava funcionando conforme os comandos. Foi como se eu estivesse preso numa cela ambulante com um guru do marketing que me dizia coisas sobre a internet das coisas e o futuro místico dos veículos.

viagem-autonoma-3A primeira vez que o nosso sistema de freios do radar falhou. Ainda bem que o nosso operador pisou no freio. Imagem: Gizmodo.

Para ser sincero, as companhias disseram expressamente antes do teste que se tratava apenas de um veículo de conceito e a ideia era demonstrar o que um dia talvez fosse possível. Para dar um desconto para as seis empresas que fizeram esse negócio, havia um monte de peças em movimento, e eles as colocaram juntas em apenas seis meses.

O carro que utilizamos foi um Volkswagen Golf Estate modificado com uma quantidade inacreditável de tecnologia extra, incluindo sistemas vehicle-to-everything (V2X), radar, uma câmera, LiDar e conexão 4G LTE. É muito mais hardware do que você encontraria nos carros mais avançados no mercado – como um da Tesla – e com tudo isso ele deveria ter oferecido uma corrida suave pela cidade.

viagem-autonoma-4Essa é uma antena para o sistema 4G LTE. Imagem: Gizmodo.

Mas houveram algumas barreiras que não conseguimos superar. Primeiro, para o carro se comunicar com os sinais da rua a cidade precisa estar equipada com seus próprios sistemas de comunicação V2X. Isso significa que todos os sinais das ruas e cruzamentos precisam ter uma pequena caixa que se parece com um roteador wireless e que é capaz de enviar informações para o veículo.

Na rota que pegamos para chegar ao Las Vegas Strip, apenas um cruzamento tinha o sistema V2X necessário – e eu tenho quase certeza de que ele não funcionou direito. Era difícil saber quando o nosso motorista estava pisando nos freios, mas eu tenho certeza absoluta que ele precisou intervir pelo menos duas vezes durante nossa viagem “autônoma”.

Esse não foi o único problema de comunicação que tivemos. O sistema de infoentretenimento do carro era controlado pela assistente digital Cortana da Microsoft e era capaz de fazer muitas das coisas que você consegue realizar em um computador Windows 10. Ela pesquisava locais próximos, marcava eventos no calendário e realizava uma variedade de tarefas por meio de comando de voz.

A única parte estranha era que a Cortana parecia ser iniciada aleatoriamente durante nossa carona (veja o vídeo no final do post). E não consegui confirmar, mas eu não ficaria surpreso se o sistema de infoentretenimento estava apenas tocando algum tipo de vídeo da Cortana para fazer essa demonstração.

Nossa interação com a Cortana foi no mínimo estranha, já que nós não tínhamos a ativado em nenhum momento que ela começou a funcionar. Ainda assim, preciso admitir, ela faz com que eu realmente quisesse uma assistente digital em qualquer carro que eu compre no futuro.

Carros autônomos ainda não estão eu seu auge, e depois de hoje fica claro para mim que as empresas de tecnologias (e as cidades onde operam) não possuem tudo o que é preciso para tornar isso uma realidade. O LiDar e os sistemas de radar que detectam o mundo em torno do carro estão longe de serem perfeitos e os sistemas de comunicação com a cidade são ainda piores.

Nós precisaremos de versões muito melhores de todas essas coisas se um dia os carros autônomos forem parte do nosso dia-a-dia – mas eu ainda tenho esperança de que daqui a 10 anos, vou voltar na CES e poderei dizer que fiz um tour pela cidade num carro que não precisava de um motorista.