Depois de uma semana de especulações os astrônomos confirmaram a descoberta do Proxima b, um planeta potencialmente habitável na nossa estrela vizinha mais próxima, a Proxima Centauri. Engenheiros estão preparando uma viagem interestelar para procurar sinais de vida no exoplaneta, mas alguns especialistas alertam que anãs vermelhas como a Proxima Centauri talvez não sejam capazes de serem habitáveis.

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Para quem está se perguntando o que iremos descobrir na superfície do Proxima b – um deserto estéril ou uma biosfera alienígena vibrante – um estudo nos dá um pouco de otimismo. De acordo com especialistas em astrobiologia da Universidade de Cornell, a vida poderia, em teoria, evoluir para sobreviver em ambientes de alta radiação de uma anã vermelha ao converter os raios mais danosos da estrela em luz visível inofensiva. Sabemos que isso é possível graças a um mecanismo – chamado bio-fluorescência – que se desenvolveu diversas vezes aqui na Terra.

“A principal questão que irá surgir da descoberta [da Proxima b] é como você poderia imaginar vida naquele planeta” conta Lisa Kaltenegger, coautora do estudo, ao Gizmodo. “Eu acho que é justo utilizar a Terra como uma inspiração.”

Como seria a vida no Proxima B

Antes de continuarmos, um pouco de contexto sobre as anãs vermelhas. Elas são menores, mais frias e escuras do que o Sol e são as estrelas mais abundantes da galáxia. Elas têm uma grande expectativa de vida – a estimativa é de que a Proxima Centauri já tenha 250 milhões de anos terrestres e sobreviverá por mais de trilhões de anos. Além de tudo, pesquisas recentes mostram que as anãs vermelhas são ninhos de pequenos exoplanetas rochosos em uma zona habitável, onde a água líquida pode se formar. Todos esses fatores fazem com que elas sejam interessantes para se procurar vida alienígena.

Mas aqui vem um problema: o fato das anãs vermelhas serem tão fracas fazem com que a zona habitável seja muito, muito perto da estrela. A Proxima b fica a apenas 7,5 milhões de quilômetros da Proxima Centauri – quase dez vezes mais perto da órbita de Mercúrio ao redor do sol.

Numa órbita tão justa, algumas coisas podem acontecer. Por exemplo, o planeta pode passar a ter lados permanentemente claros ou escuros, o que poderia causar ventos atmosféricos fortíssimos e algumas dinâmicas climáticas bem malucas.

Além disso, muitas anãs vermelhas, incluindo a Proxima Centauri, produzem erupções poderosas que expelem rajadas de radiação no espaço diariamente. Como notam os cientistas que descobriram o novo exoplaneta, o Proxima b sofre com fluxos de raios-x aproximadamente 400 vezes maiores se comparado à Terra. De acordo com Kaltenegger, as explosões da Proxima Centauri provavelmente levam muita radiação UV para a superfície do planeta, o que pode danificar o DNA.

A vida conseguiria se manter num mundo assim? Se você viver no subsolo, talvez. Infelizmente para nós, essas circunstâncias tornariam as chances muito menores.

Mas Kaltenegger e Jack O’Malley argumentam em seu estudo, que foi enviado para o The Astrophysical Journal, que pode existir outro jeito. Alguns organismos construtores de recifes de corais possuem proteínas capazes de absorver a radiação UV e reemitir essa energia em ondas mais longas e seguras; um processo conhecido como bio-fluorescência. Ao “reduzir” as ondas mais agressivas do sol, acredita-se que os corais são capazes de estabelecer uma relação simbiótica com as algas e protegê-las dos danos dos raios UV.

biofluorescencia Bio-fluorescência em peixes. Foto por: Wikimedia.

A bio-fluorescência não é exclusividade dos corais – ela se desenvolveu de forma independente e em diferentes ocasiões, sugerindo que suas vantagens adaptativas são difusas.

Inspirados nessa observação, O’Malley James e Kaltenegger se propuseram a determinar como uma forma de vida bio-fluorescente poderia produzir um traço remotamente detectável num planeta que orbite uma anã vermelha. Utilizando proteínas fluorescentes de corais, eles modelaram uma assinatura espectral de um planeta com uma atmosfera semelhante à Terra numa zona habitável.

Eles descobriram que, se a bio-fluorescência estivesse presente na superfície do planeta – em forma de vida terrestre ou em bacias oceânicas superficiais – o planeta produziria uma bioassinatura distinta durante a emissão de raios UV. Basicamente, se houvesse vida, o planeta iria brilhar. “Você pode imaginar um mundo oceânico que é atingido por raios UV e de repente se acende,” disse Kaltenegger.

É uma ideia bem bonita – mas a bio-fluorescência iria oferecer proteção o suficiente num planeta como o Proxima b? Ninguém tem a resposta, em parte porque não sabem ainda qual é a quantidade de radiação UV que chega à superfície dele. Mas em experimentos em laboratório, bioengenheiros conseguiram ter bastante sucesso com as proteínas e chegaram a 100% de eficiência. Dado um ambiente de alta radiação, é lógico que a seleção natural pode fazer o mesmo.

Charles Mazel, que é biólogo especialista em corais e bio-fluorescência, enfatiza: mesmo que o mecanismo de Kaltenegger e O’Malley James seja uma proposta plausível, um organismo também lida com grandes quantidades de radiação UV ao dissipar a energia em forma de calor ou fazendo com que ela seja aproveitada em suas células, assim como as plantas aproveitam a luz visível para a fotossíntese. “A ideia da florescência é uma entre diversas estratégias possíveis,” contou ao Gizmodo por email. “Provável? Eu não posso dizer. Possível? Suponho que seja.”

Como chegaremos ao Proxima b

Uma das coisas mais animadoras em torno dessa ideia é que talvez os astrônomos sejam capazes de detectar o brilho da vida alienígena em de alguns anos, graças à nova geração de telescópios gigantes que estamos desenvolvendo. E se acabarmos nos deparando com alguns sinais brilhantes no Proxima b? É um grande motivo para a iniciativa espacial Breakthrough Starshot replanejar a rota de sua viagem interestelar.

Anunciada por Stephen Hawking e Yurni Milner no começo desse ano, a iniciativa Breakthrough Starshot é um programa de pesquisa e engenharia que visa preparar a base para as futuras viagens interestelares. O primeiro passo envolve a construção de “nanonaves” movidas a luz que podem viajar a até 20% da velocidade da luz. Tais espaçonaves conseguiriam chegar ao sistema estelar Alpha Centauri em cerca de 20 anos após o lançamento. Atualmente, os cientistas do projeto tentam demonstrar a viabilidade de usar feixes de laser potentes para impulsionar uma vela leve.

“Uma coisa que eu acho incrível [sobre a Breakthrough Starshot] é que se tornou possível falar de viagem interestelar,” disse Kaltenegger. “Pessoas estão levando isso a sério. Eu acho que falar sobre isso nos inspira, e colocar essa tecnologia ao nosso alcance, será uma coisa incrível.”

Imagem do topo: Conceito de um planeta brilhando, em resposta a uma erupção solar de uma anã vermelha. Jack O’Malley James.