Foram detectados em Marte canais de rios secos com mais de 1,6 quilômetro de largura e 198 metros de profundidade, mostrando como o Planeta Vermelho já abrigou água líquida em sua superfície.

Conhecemos Marte hoje como um deserto estéril, porém, há cerca de 3,4 bilhões de anos, o Planeta Vermelho estava inundado de azul, apresentando um grande oceano em seu hemisfério norte, lagos e muitos rios sinuosos. Durante o seu passado antigo, Marte tinha uma atmosfera espessa e quente, permitindo ao planeta abrigar água líquida na superfície. Observações de satélites em órbita ao redor de Marte e de rovers na superfície forneceram a evidência para isso, seja na forma de leitos de rios secos ou depósitos semelhantes a argila que requerem a presença de água para se formar.



Versão de um artista para Marte quando tinha água na superfície. Imagem: ESO/M. Kornmesser/N. Risinger

No entanto, com o tempo, a espessa atmosfera marciana evaporou e, junto com ela, a água superficial do planeta. Hoje em dia, a evidência visível dessa água ainda pode ser percebida como gelo congelado nos polos.

Novas imagens divulgadas nesta quinta-feira (21) pela Agência Espacial Europeia (ESA) oferecem mais provas do passado aquático de Marte. A região mostrada nas fotos é um sistema de vales localizados nas regiões montanhosas do sul, a leste de uma grande cratera de impacto chamada Huygens. As fotos, captadas pelo satélite Mars Express, da ESA, no final do ano passado, mostram uma região antiga, com muitas crateras, que, apesar das eras de erosão, ainda apresenta sinais reveladores de água corrente.

Esta imagem da Mars Express do vale seco foi tirada em 19 de novembro de 2018. A resolução do solo é de aproximadamente 14 metros por pixel. O norte é mostrado à direita. Imagem: ESA/DLR/Universidade Livre de Berlim

Visão topográfica da região codificada a cores. As áreas de menor altitude são mostradas em azul e roxo, enquanto as regiões mais altas são mostradas em branco, amarelo e vermelho. Imagem: ESA/DLR/Universidade Livre de Berlim

Um dia, a água corria encosta abaixo a partir do norte (da direita para a esquerda na foto), criando rios de até dois quilômetros de largura e 200 metros de profundidade, de acordo com a ESA. Hoje, o vale é liso e fragmentado, mas seu status anterior de leito de rio é claramente visível. A ESA explica mais detalhadamente:

Em geral, o sistema de vales parece se ramificar significativamente, formando um padrão um pouco parecido com os galhos de árvores oriundos de um tronco central. Esse tipo de morfologia é conhecido como ‘dendrítico’ — o termo é derivado da palavra grega para árvore (dendron), e é fácil ver o porquê. Vários canais se separam do vale central, formando pequenos afluentes que muitas vezes se separam novamente na sua viagem para fora.

Este tipo de estrutura dendrítica também é visto nos sistemas de drenagem na Terra. Um exemplo particularmente bom é o do rio Yarlung Tsangpo, que atravessa China, Índia e Bangladesh desde a sua nascente no Tibete. No caso dessa imagem de Marte, esses canais ramificados foram provavelmente formados pelo escoamento de água superficial de um fluxo anteriormente forte do rio, combinado com chuvas extensas. Pensa-se que esse fluxo tenha cortado o terreno existente em Marte, forjando novos caminhos e esculpindo uma nova paisagem.

A presença de águas antigas correndo em Marte levanta muitas questões. Qual era a fonte dessa água? Ela foi causada pelo derretimento de geleiras ou era a água que vazava por baixo da superfície? Ou foi a chuva que gerou essa água corrente? E quanto tempo levou até que essa água secasse? É importante também questionar: ela contribuiu para as condições habitáveis em Marte, e o planeta algum dia abrigou vida?

Essas questões seguem sem resposta e servem como um apelo para que mais estudos sejam feitos sobre Marte. Felizmente, a sonda Curiosity e o lander InSight, da NASA, continuam coletando dados valiosos, assim como o Orbitador de Reconhecimento de Marte, também da agência americana, e a ExoMars Trace Gas Orbiter e o Mars Express, da ESA. E temos também a próxima missão da ExoMars para aguardar com expectativa, que contará com o rover recém-nomeado Rosalind Franklin.

[ESA]