Voos de astronautas americanos em naves russas podem estar com os dias contados

A NASA mandou a astronauta Kate Rubins para o espaço a bordo de uma nave russa Soyuz, mas próximos voos devem ser feitos com uma SpaceX.

Foguete sendo lançado.

Lançamento de um foguete Soyuz do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, nesta quarta-feira (14). Imagem: NASA / GCTC / Andrey Shelepin

A NASA acaba de pagar US$ 90 milhões à agência espacial russa pelo lançamento da astronauta Kate Rubins com destino à Estação Espacial Internacional. Supondo que seus parceiros comerciais sejam capazes de fazer isso, essa pode ter sido a última vez que a NASA compra um assento em uma espaçonave Soyuz.

Às 2h45 desta quarta-feira (horário de Brasília), um foguete Soyuz-2.1a decolou do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Além de Rubins, estavam na espaçonave Soyuz MS-17 os cosmonautas Sergey Ryzhikov e Sergey Kud-Sverchkov. Estes são os três primeiros membros da tripulação da Expedição 64, composta por sete pessoas, que trabalhará a bordo da Estação Espacial Internacional até abril de 2021.

O trio atracou na ISS cerca de três horas depois, chegando às 5h48 da manhã. Se você achou muito rápido, não está errado. Para entregar a tripulação em tempo hábil, a agência espacial russa Roscosmos empregou uma abordagem super-rápida em duas órbitas.

Antigamente, essas viagens para a ISS demoravam mais de 50 horas. A partir de 2013, a Rússia reduziu para seis horas com uma abordagem de quatro órbitas e, em 2018, a viagem foi reduzida para quatro horas com uma abordagem de duas órbitas.

Os russos conseguiram reduzir este tempo ainda mais. A jornada de hoje de três horas e três minutos é um novo recorde — o anterior era de três horas e 18 minutos, estabelecido pela nave de carga Progress MS-17 em 23 de julho de 2020.  A Roscosmos faz isso lançando seu foguete Soyuz pouco antes de a ISS passar diretamente por cima do local de decolagem.

A nave espacial Soyuz MS-17 atracou na ISS. Imagem: NASA Television

Rubins, Ryzhikov e Kud-Sverchkov se juntaram ao astronauta da NASA Chris Cassidy e aos cosmonautas Anatoly Ivanishin e Ivan Vagner, que estão na ISS desde abril. A Expedição 64 terá início oficialmente com a partida da tripulação da Expedição 63, prevista para 20 de outubro.

Esta é a segunda passagem de Rubins pelo espaço — ela já trabalhou a bordo da ISS em 2016. Pesquisadora médica, Rubins é a primeira cientista a sequenciar o DNA no espaço, segundo a NASA.

E a SpaceX?

Em algum momento de novembro, os outros quatro membros da Expedição 64 — os astronautas da NASA Michael Hopkins, Shannon Walker e Victor Glover, juntamente com Soichi Noguchi da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) — serão lançados a bordo de uma nave espacial SpaceX Crew Dragon.

A NASA diz que esta será a “primeira missão comercial operacional à estação espacial”: pela primeira vez desde a aposentadoria do programa Space Shuttle, em 2011, os EUA terão a capacidade de lançar regularmente missões tripuladas de seu território. O lançamento deveria acontecer em 31 de outubro, mas a SpaceX está atualmente analisando um problema com o motor de seu foguete Falcon 9.

Dado o recente sucesso da missão Crew-1, da NASA e da SpaceX, na qual os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley foram entregues com sucesso à ISS a bordo de um SpaceX Crew Dragon, é razoável perguntar por que a NASA acabou de pagar US$ 90,25 milhões para a Roscosmos por um lugar para Rubins a bordo de uma espaçonave Soyuz.

A NASA disse que fez isso para “garantir que a agência mantenha seu compromisso com as operações seguras por meio de uma presença contínua dos EUA a bordo da Estação Espacial Internacional até que as capacidades de missões tripuladas comerciais estejam rotineiramente disponíveis”.

Na verdade, a NASA e a SpaceX ainda estão trabalhando em alguns detalhes finais para obter a certificação do Crew Dragon, incluindo análises das capacidades de lançamento, encaixe e retorno da espaçonave. O próximo lançamento da cápsula SpaceX marcará um grande passo para fazer tudo isso parecer rotineiro.

Durante briefings realizados no final do mês passado, Jim Bridenstine, chefe da NASA, disse que o lançamento representa “um marco crítico no desenvolvimento de nossa capacidade de lançar astronautas americanos em foguetes americanos de solo americano — agora de forma sustentável”.

Futuro

Então, o lançamento de um foguete Soyuz hoje significa que será a última vez que a NASA pagará à Rússia por seus serviços de viagem de astronautas?

Em uma declaração enviada por e-mail à Forbes, a NASA colocou da seguinte maneira: “À medida que a capacidade de missões tripuladas comerciais dos EUA se torna operacional, os astronautas e cosmonautas devem voltar a voar juntos em suas respectivas espaçonaves, como se fazia anteriormente.” E, como Jeff Foust relata na SpaceNews, “a NASA não expressou nenhum interesse público em comprar futuros assentos [nas naves] Soyuz”.

Claro, tudo isso pode mudar se o Crew Dragon não for certificado ou se o problema acima mencionado com o foguete Falcon 9 persistir. Ou se — Deus me livre — algo consideravelmente mais sério ocorrer.

Quanto ao outro parceiro da tripulação comercial da NASA, a Boeing, ela ainda está trabalhando para remediar uma série de problemas revelados durante o desapontante lançamento de seu CST-100 Starliner no ano passado.

Um teste tripulado da espaçonave Boeing poderia acontecer em junho de 2021, mas isso pressupõe o sucesso de testes não-tripulados nos próximos meses. Resumindo, não devemos nos precipitar devido a algumas incertezas com a SpaceX e a Boeing.

E, embora a NASA não vá pagar por assentos no Soyuz no futuro próximo, isso não significa necessariamente que os astronautas da NASA nunca mais vão pegar uma carona a bordo desses foguetes. De acordo com a SpaceNews, a NASA tem falado em “tripulações mistas”, em que os astronautas da NASA continuarão a voar em foguetes Soyuz e os cosmonautas da Roscosmos em veículos comerciais tripulados.

No entanto, a Rússia não concordou muito com o conceito, então pode não acontecer, apesar de ser uma ideia muito boa. O tempo dirá, especialmente se os lançamentos tripulados de naves Crew Dragon e CST-100 Starliner se tornarem rotina.

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