A Apple enfim reconheceu que terá que fazer mais para acalmar a ira de seus consumidores depois de admitir e se desculpar por deixar os iPhones antigos mais lentos. Em uma carta que minha mãe teria definido como “passivo-agressiva” e “nem um pouco um pedido de desculpas” se fosse eu que tivesse escrito, a Apple escreveu: “Sabemos que alguns de vocês sentem como se a Apple tivesse os decepcionado. Pedimos desculpas”. Com esse objetivo, a empresa cortou o preço das trocas de baterias para os iPhones 6, 6s e 7 de US$ 80 para US$ 30 (isso nos Estados Unidos; não há previsão para o restante do mundo).

A carta, que veio oito dias depois de a Apple confirmar rumores de que estava deixando lentos celulares com baterias envelhecidas, tinha um tom frustrado, e se você conhece um pouquinho sobre como as baterias envelhecem, deve estar tão frustrado quanto a Apple soa estar. Isso porque, pelo que revelou, a Apple desacelerou os iPhones antigos para evitar um problema ainda mais frustrante dos celulares: o desligamento inesperado dos aparelhos.

No iOS 10.2 e em versões anteriores, o iPhone tinha um problema irritante. Conforme as baterias desses dispositivos envelheciam (e não tem jeito de evitar isso), o tempo de funcionamento naturalmente se encurtava, mas em períodos de “pico de carga” o celular desligava, frequentemente do nada, mesmo quando a bateria parecia ter 40% restantes — sei disso porque meu iPhone 6 sofria desse problema.

Era tremendamente frustante, e depois de passar três meses com uma bateria externa para evitar não ter meu celular quando precisasse dele, fui e comprei um kit de substituição de bateria do iFixit por US$ 30.

Porém, se eu fosse uma dessas pessoas que frequentemente atualizavam seu iPhone 6, eu teria recebido o iOS 10.2.1, que incluía um conserto silencioso para o problema do desligar sozinho. Em vez do celular misteriosamente desligar do nada, o sistema operacional do aparelho teria, em vez disso, administrado o processador e mantido o celular vivo. Então eu conseguiria fazer ligações, mas jogar, navegar e todo o restante estariam mais lentos.

É aí que a Apple errou. Em vez de mostrar uma janela dizendo algo como “seu celular está entrando no Modo de Energia Ultrabaixa, por favor carregue sua bateria o mais rápido possível”, o software simplesmente fazia o que queria e deixava vários usuários frustrados. Seu celular não só estava durando pouco (as baterias ainda estavam ruins e tinham tempos de duração menores do que o esperado), como estava lento demais também.

Como apontou o Geekbench ao analisar os dados que havia coletado de seus próprios usuários, o desaceleramento se tornou ainda mais evidente no iOS 11.2, levando a rumores de que a Apple estava tornando celulares antigos mais lentos de propósito para forçar as pessoas a comprar um novo. O rumor tinha tanto peso que o Halte à l’Obsolescence Programmée, grupo francês de defesa ao consumidor, entrou com um processo nesta quarta-feira (27), com a premissa de uma lei de 2015 que proíbe empresas de, propositalmente, tornar tecnologias mais antigas obsoletas, e na semana passada duas ações judiciais coletivas foram apresentadas nos Estados Unidos.

Talvez seja difícil provar esse intuito manipulador da Apple, já que a empresa está certa: baterias antigas perdem sua capacidade de manter uma recarga, e, graças ao traço incrível de tornar os celulares resistentes à água, maioria dos aparelhos não permite mais que as baterias sejam facilmente trocadas. Ainda assim, conforme a HTC e a Motorola contaram ao Verge nesta quinta (28), desacelerar ou desligar o celular não são comportamentos tipicamente pretendidos por celulares com baterias antigas. A resposta da Apple a baterias mais antigas nos iPhones 6, 6s e 7 foi um desvio tanto para a empresa quanto para a comunidade de celulares como um todo.

Porém, diminuir o preço das substituições de bateria é um belo passo em uma direção melhor (e é a expectativa é de que isso se torne o padrão para a Apple e todas as outras fabricantes de celular). Embora uma bateria de iPhone possa ser encontrada por um preço relativamente modesto online, um kit, incluindo todas as ferramentas necessárias, ainda sai mais caro, subindo gradativamente de valor conforme o modelo do iPhone. E o reparo em si pode ser perigoso ou destrutivo se você não souber o que está fazendo. Pagar os US$ 30 para que outra pessoa faça o reparo inteiro para você é uma pechincha para muita gente.

Além do corte no preço da substituição de bateria para celulares afetados, a Apple também prometeu uma atualização para o iOS:

No começo de 2018, vamos lançar uma atualização de software para o iOS com novos recursos que dão aos usuários maior transparência sobre a saúde da bateria de seu iPhone, para que eles próprios possam ver se sua condição está afetando o desempenho.

Não está claro como será essa atualização. Ela pode ser simples, apenas um app (existem vários desses disponíveis atualmente), ou pode ser até mesmo uma notificação que te avisa quando está na hora de trocar de bateria.

De um jeito ou de outro, conforme os celulares ficam mais caros e os consumidores, mais relutantes em comprar um aparelho novo a cada um ou dois anos, provavelmente veremos mais histórias como essa — celulares morrendo muito antes do que você esperaria, considerando seu preço.

[Apple]

Imagem do topo: Gizmodo