Um dos efeitos colaterais mais estranhos de uma picada de carrapato — o desenvolvimento de uma alergia à carne vermelha — pode ser ainda mais fácil de se pegar do que se pensava anteriormente. Uma nova pesquisa publicada neste fim de semana sugere que picadas de certos carrapatos podem causar a alergia, não importa o que eles tenham mordido recentemente. A descoberta pode derrubar uma teoria comumente aceita de que os carrapatos precisam ter ingerido recentemente o sangue de outros mamíferos antes que possam espalhar a alergia à carne para humanos.

A alergia é causada por uma resposta imune a uma molécula de açúcar chamada alfa-gal. A maioria dos mamíferos tem alfa-gal em seus músculos, mas humanos e outros primatas, não. Por alguma razão, a picada de certos carrapatos pode, às vezes, provocar uma hipersensibilidade contínua a coisas que contêm alfa-gal, mais notavelmente carne vermelha, que inclui carne bovina, suína e até mesmo, em alguns casos, laticínios.

Essa hipersensibilidade atua quase exatamente como uma alergia alimentar comum, com sintomas como urticária, problemas respiratórios ou mesmo um choque anafilático potencialmente fatal. Mas ela é a única alergia alimentar a um açúcar conhecida, em vez de a uma proteína, e seus sintomas levam horas para aparecer após a exposição. Por vezes, a alergia só parece fazer efeito anos após a picada inicial.

Sabemos da síndrome de alfa-gal, como é chamada, há muito tempo. Na verdade, é uma das principais razões pelas quais os grandes transplantes de órgãos de animais não-humanos, como porcos, são um desafio de se fazer. Os primeiros casos de alfa-gal transmitida por carrapatos foram documentados no final dos anos 1980, mas somente depois de décadas os cientistas oficialmente fizeram a relação entre a doença e as picadas. E ainda há muita coisa que não entendemos sobre isso.

Um desses mistérios é por que, exatamente, os carrapatos podem causar a síndrome. O autor principal da nova pesquisa, Scott Commins, professor associado de medicina e pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, foi um dos primeiros médicos a relatar casos de alergia à carne vermelha, há uma década. Uma teoria comum que ele e outros tiveram é que os carrapatos “pegam” o alfa-gal de uma refeição de sangue anterior, como um cão, veado ou camundongo. Sua saliva, agora cheia de alfa-gal, então torna a pessoa picada mais sensível à carne.

Para testar essa teoria, Commins e sua equipe fizeram um experimento simples. Primeiro, eles pegaram amostras de sangue humano e filtraram sua imunoglobulina nativa E (IgE), que são os anticorpos que protegem contra certos tipos de invasores estranhos e também causam uma reação alérgica a um alérgeno. Em seguida, eles dosaram o sangue com plasma doado (cheio de anticorpos IgE) de pessoas com e sem a síndrome. Por último, introduziram saliva de quatro espécies de carrapatos: o estrela solitária, o de veado, o da Costa do Golfo e o do cão americano. As amostras de saliva eram tanto de carrapatos que tinham quanto de outros que não tinham se alimentado de sangue contendo alfa-gal.

Até agora, o carrapato mais associado à alergia à carne vermelha nos Estados Unidos era o estrela solitária. Sem surpresas, a saliva desse carrapato foi capaz de causar uma reação imune (baseada no nível de um determinado glóbulo branco chamado basófilo) 40 vezes maior do que o normal no sangue sensibilizado ao alfa-gal. Mas a saliva do carrapato de veado, o vetor primário da doença de Lyme e outras doenças transmitidas por carrapatos nos Estados Unidos, também causou uma reação. O mais preocupante foi que a saliva de carrapatos não alimentados de ambas as espécies também causou uma reação no sangue sensibilizado.

As descobertas, que foram apresentadas no último fim de semana na conferência anual da Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia (AAAAI), são preliminares — e ainda não foram publicadas em uma revista revisada por pares. Mas elas fornecem evidências para outra teoria importante que sustenta que é o carrapato em si, e não sua última refeição, que está causando a síndrome.

“Esses novos dados sugerem que a última (teoria) pode estar correta: algo está na saliva intrinsecamente”, disse Commins ao Gizmodo. “Todos os humanos dão uma resposta existente ao alfa-gal, e esses dados seriam consistentes com um modelo em que as picadas de carrapatos simplesmente redirecionam a resposta imune existente a uma resposta alérgica.”

Commins disse que é quase certo que as probabilidades de uma única picada de carrapato estrela solitária ou outro carrapato estar causando alergia são muito baixas. Mas não sabemos o quão baixo é esse risco neste momento (de acordo com uma estimativa anterior de Commins, pode haver cinco mil vítimas só nos Estados Unidos). E se os carrapatos são a causa raiz, independentemente da sua dieta, então a janela de oportunidade para uma picada que provoque a alergia será obviamente maior.

A alergia à carne vermelha é apenas um dos problemas de saúde causados por carrapatos — problemas que, pelo menos nos EUA, são suscetíveis a se intensificarem à medida que o clima aquece. Houve quase 60 mil casos registrados de doença de Lyme no país em 2017, por exemplo, contra 22 mil em 2004. Mas o verdadeiro número anual de casos de Lyme, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, está em torno de 300 mil.

Portanto, embora a alergia à carne vermelha possa ser uma complicação rara transmitida por carrapatos, é uma das várias que provavelmente estão se tornando mais comuns. E, atualmente, não há tratamento ou cura para a síndrome. Alguns doentes podem uma hora vir a comer carne novamente, mas não todos. Isso significa que só há realmente uma maneira de evitar que isso aconteça, de acordo com Commins, embora nem todos que se expõem a carrapatos estejam em risco.

“Essas descobertas enfatizam muito a importância de evitar as picadas de carrapatos e as precauções para evitar picadas de carrapatos”, afirmou Commins. “As pessoas no oeste e no noroeste dos Estados Unidos parecem ter pouco ou nenhum risco. Além dessas áreas, as pessoas devem estar atentas e cuidadosas com as precauções de picadas de carrapatos. Então, estamos mais preocupados com as áreas sul e leste dos EUA.”