Algumas horas após a Amazon anunciar o novo Echo Show, um dispositivo de comunicação com touchscreen e abastecido com a assistente de voz inteligente da empresa, a Alexa, eu recebi um email de uma empresa de relações públicas representando uma companhia chamada Nucleus. O assunto era chamativo: “A Amazon está em busca de sangue – o Echo Show é prova disso”. Eu quase nunca respondo a esses emails, mas a história desse me intrigou.

• A Amazon anunciou um Echo com touchscreen e chamadas em vídeo
• O Invoke é a resposta da Microsoft aos assistentes Google Home e Amazon Echo



O email do Nucleus declara: “Em agosto passado, o Nucleus lançou seu primeiro dispositivo touchscreen com a Alexa, para comunicação em áudio/vídeo dentro e fora de casa, e, em setembro, anunciou sua Rodada Série A, liderada pelo The Alexa Fund“. O Alexa Fund é um fundo de capital de risco, operado pela Amazon e fundado em 2015, que investe dinheiro em empresas — 23 delas, no momento desta publicação — que constroem dispositivos que vão se integrar com a Alexa. O Nucleus levantou US$ 5,6 milhões (R$ 17,7 milhões na cotação atual) em sua Rodada Série A, embora não esteja claro quanto veio do Alexa Fund.

Durante uma conversa por telefone com o CEO do Nucleus, Jonathan Frankel, na tarde desta terça-feira (9), perguntei-lhe se ele estava acusando a Amazon de roubar seu produto. Frankel confirmou.

“A história sobre a Amazon chegar e roubar a nossa ideia é verdade”, alega o CEO do Nucleus.

A resposta da Amazon para essa alegação foi tanto previsível quanto razoável. A empresa tem trabalhado no Echo Show há cerca de 18 a 24 meses. E, de qualquer forma, seu objetivo não é acabar com startups, mas, sim, trabalhar com elas.

“Não pegamos a ideia para o Echo Show do Nucleus”, um porta-voz da Amazon contou ao Gizmodo. “A Alexa já está em telas — Fire TV e Fire Tablets. Sempre estamos pensando no que vai beneficiar nossos consumidores. Sabemos que eles amam ter escolha em formatos, e isso é um objetivo nosso na equipe da Alexa.”

Mas essa rixa faz, sim, a Amazon parecer um pouco tirânica. Frankel disse que nas semanas e meses após o investimento do Alexa Fund, o Nucleus conduziu “chamadas de conferência diárias” com a Amazon para discutir seu produto e a integração com a Alexa. Ele parece suspeitar que a Amazon tenha tomado ideias de sua equipe e as aplicado no desenvolvimento do Echo Show, que é agora um produto concorrente no mercado.

“[A Amazon], é claro, como investidora, teve acesso aos nossos planos e sabia quais funções estávamos construindo e planejando construir”, disse Frankel. “Sabemos há algum tempo que eles estavam construindo um Echo com tela. Não sabíamos até [terça-feira] de manhã o quão diretamente ele seria um concorrente.”

Quando a Amazon e o Nucleus estavam conversando sobre o Echo com touchscreen, alega Frankel, a Amazon nunca o definiu como um dispositivo de comunicação. A principal característica do dispositivo do Nucleus é que ele oferece maneiras fáceis de se comunicar com familiares. É basicamente um interfone em vídeo que trabalha no Wi-Fi, com algumas funções extras embutidas graças à integração com a Alexa.

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A Amazon está definitivamente vendendo o Echo Show como um dispositivo de comunicação (Imagem: Amazon)

O Echo Show está definitivamente sendo vendido como uma maneira de se comunicar com amigos e família, mas qualquer um poderia facilmente afirmar que a função de comunicação básica é bastante óbvia — o recentemente anunciado alto-falante inteligente Invoke, da Microsoft, com o Skype embutido, por exemplo. As semelhanças entre o produto do Nucleus e o Echo Show vão além. Particularmente, a função “Drop In”, da Amazon, que lhe permite checar sua avó (ou qualquer outro familiar) sem ela precisar exatamente atender à chamada de vídeo, traz semelhanças marcantes com o “Auto Answer”, do Nucleus, lançado há muito tempo.

“Meu queixo caiu quando eu vi [o Drop In]”, disse Frankel. “O Auto Answer tem sido nossa função principal desde o primeiro dia. A capacidade de se conectar instantaneamente com sua família mais próxima é a principal diferença entre nós e o Skype.”

Isso com certeza é ruim para o Nucleus, mas a Amazon está fazendo algo ilegal? Quando pressionei Frankel a falar sobre o assunto, ele desviou e fez um longo discurso sobre como o tratamento da Amazon à sua empresa deveria deixar outras startups e empresas de telecomunicação muito assustadas. Ele não quis dizer se a Amazon de fato roubou qualquer propriedade intelectual do Nucleus ou se violou qualquer patente. Na maior parte do tempo, Frankel só parecia irritado que a Amazon pudesse tão descaradamente virar as costas a uma empresa de que costumava ser uma parceira próxima. E, obviamente, ele disse, os desenvolvedores deveriam pensar duas vezes antes de aceitar dinheiro do Alexa Fund para construir novos produtos.

Quando perguntei a Frankel se sua empresa planejava tomar alguma ação legal contra a Amazon, Frankel não dizia com certeza. “Tudo é possível”, afirmou. “Nossa abordagem preferida seria fazer uma parceria com outras empresas que são uma ameaça à Amazon.”

A Amazon, por sua vez, disse que gostaria de continuar trabalhando com o Nucleus e qualquer outro desenvolvedor que queira criar produtos a partir da plataforma da Alexa. O porta-voz da Amazon explicou que o ecossistema do Echo não é projetado para ajudar produtos com a marca da Amazon a preencher cada lar nos Estados Unidos.

“Pensamos que o produto do Nucleus é bastante complementar ao Echo Schow — é mais fino e pode ser colocado em uma parede, servindo com um propósito complementar em um lar”, contou-me o porta-voz da Amazon. “Enfim, estamos trabalhando duro para trazer todas as capacidades da Alexa, inclusive as chamadas e as mensagens, a dispositivos (com a Alexa) como o Nucleus. Achamos que os dispositivos do Nucleus podem ser grandes pontos para as comunicações da Alexa.”

Para resumir essa citação desajeitada, a Amazon está na verdade sugerindo que o Nucleus deveria ficar empolgado com o Echo Show. Tudo bem, ele é incrivelmente semelhante ao dispositivo que o Nucleus está vendendo, mas talvez alguém (alguém?) queira comprar os dois.

Olhando de fora, isso parece ser uma situação bem difícil para Frankel e o Nucleus. A startup recebeu dinheiro de uma gigante da internet e compartilhou segredos com seus desenvolvedores. É dificilmente uma surpresa que a Amazon tenha acabado integrando algumas características similares a um produto concorrente próprio. Não sabemos com certeza se a Amazon teve essas ideias a partir das reuniões com o Nucleus, mas a controvérsia é inegável.

Isso acontece o tempo todo no Vale do Silício e em outros lugares. Basta olhar para a acusação do Snapchat de que o Facebook estava supostamente roubando suas principais funções, ou ver a disputa legal do Google com o Uber por causa do suposto roubo de segredos de carros automatizados. Empresas aproveitam toda oportunidade que têm de explorar as fraquezas umas das outras, e é sempre difícil descobrir qual acusação é verdadeira e qual é apenas injúria.

É nojento, claro, mas a essa altura já é parte da tradição americana.

Imagem do topo: Nucleus