De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal publicada na última quarta-feira (14), a Amazon teria pressionado a fabricante de termostatos inteligentes Ecobee a fornecer dados de seus dispositivos habilitados para voz, mesmo quando os clientes não faziam uso dos aparelhos. Quando a Ecobee negou o pedido, a Amazon ameaçou isolar a empresa de eventos de vendas de alto nível, como o Prime Day, ou recusar a certificação Alexa para novos gadgets da Ecobee.

Executivos da varejista confirmaram que, no ano passado, a Amazon abordou a Ecobee, entre outros vendedores de dispositivos habilitados para Alexa, sobre o compartilhamento de dados de “estado proativo” de clientes. Com essas informações, a Amazon receberia atualizações sobre o status dos dispositivos em todos os momentos, como a temperatura de sua casa ou se suas portas estão trancadas, entre outros exemplos. E isso até quando eles estivessem em stand-by.

A Ecobee estaria hesitante no início. Como seus termostatos inteligentes incluem suporte para Alexa, ela já compartilha alguns dados do usuário com a empresa. No entanto, uma fonte familiarizada com o assunto contou ao WSJ que a Ecobee teme que essa nova demanda possa ir longe demais e violar a privacidade de seus clientes.

A Amazon tem um histórico bem documentado de clonagem de produtos de sucesso para depois lançar as próprias versões desses dispositivos sob sua marca interna. Logo, a Ecobee temeu que compartilhar dados sensíveis dos usuários, além de violar a privacidade dos clientes, seria basicamente como entregar um projeto para a Amazon desenvolver um produto próprio concorrente.

Contudo, quando a Ecobee se recusou a fornecer os dados, a Amazon alertou que uma recusa poderia impedir a empresa de grandes eventos de vendas, como o Prime Day, ou impedir que seus futuros dispositivos recebessem a certificação Alexa. Como a Amazon controla uma boa fatia do mercado global de comércio eletrônico — quase 40% apenas nos EUA —, esse tipo de movimento pode levar à falência companhias menores, como é o caso da Ecobee.

O porta-voz da Amazon, Jack Evans, disse ao WSJ que a varejista usa dados de estado proativos (quando os dispositivos estão prontos para funcionar, mas não estão em uso) para fazer recomendações melhores aos clientes. Estes, por sua vez, concordam em compartilhar esses dados ao vincular suas contas.

Andie Weissman, porta-voz da Ecobee, afirmou ao jornal que as negociações continuam em andamento e que “a Amazon continua a ser uma parceira valiosa da Ecobee”.

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Se for verdade, este seria apenas o exemplo mais recente de como a Amazon continua tentando alavancar seu domínio na indústria com base em parceiros que cooperam e aceitam os termos para aumentar essa participação. Já vimos isso antes com o serviço de streaming HBO Max, que a Amazon supostamente trouxe para os dispositivos Fire TV somente depois que a Warner Media Group concordou em hospedar a plataforma nos principais canais de vídeo da Amazon por um ano e estender um contrato lucrativo com a Amazon Web Services.

Além de copiar projetos de outras empresas, o WSJ diz que a Amazon também teria pressionado parceiros da indústria a usar seu braço de logística, Fulfillment by Amazon, ameaçando dificultar a venda de produtos em seu mercado. Sim, a Amazon compete com empresas em que investe (é a Ecobee é uma delas) e usa sua posição de acionista para acessar informações confidenciais e desenvolver produtos semelhantes.

Em outubro do ano passado, um subcomitê antitruste do Judiciário da Câmara dos EUA concluiu que a Amazon e outras empresas de tecnologia têm “poder de monopólio” em seus respectivos mercados e “abusam de seu poder cobrando taxas exorbitantes, impondo termos contratuais opressivos e extraindo dados valiosos das pessoas que dependem dessas companhias”.