Quando achávamos que nenhuma outra invenção poderia ser pior do que os “conteúdos compráveis” (modelo de anúncios que permite comprar itens presentes no programa de TV a que você está assistindo) para o futuro do entretenimento, a emissora norte-americana NBCUniversal deu um passo ainda maior para inovar nesse espaço cada vez mais infernal de anúncios.

Na última segunda-feira, o grupo anunciou o lançamento de seu novo produto, uma “ShoppableTV”, que consiste em um modelo de anúncios com base em códigos QR e permite que os telespectadores comprem o conteúdo que estão assistindo. A empresa alega ser pioneira neste tipo de modelo. Esse modelo de anúncios será centrado no que a companhia descreve como “momentos compráveis”, quando a audiência poderá escanear a tela utilizando o celular e instantaneamente ser direcionado ao site de compra da marca ou o marketplace. Parece ótimo, não? Quem não ama anúncios e QR codes?!

“Com a ShoppableTV, a NBCUniversal está transcendendo o legado de práticas de negócio no ambiente televisivo e gerando resultados de negócio ao criar um experiência de compra ao vivo e em tempo real”, afirmou Josh Feldman, vice-presidente executivo e head de marketing e advertising creative da empresa, em um comunicado. “Ao combinar as marcas com nosso conteúdo premium, controlando cada estágio do funil de vendas e removendo as barreiras que os consumidores costumam encontrar entre ver um produto e adquiri-lo, nós estamos oferecendo às marcas um canal de vendas diretas para milhões de espectadores de todo o país.

Imagine só: você está assistindo a um programa de TV e, de repente, surge na tela um código QR para toalhas de papel. É só escanear e clicar direto no botão de compra! Claro que você poderia simplesmente comprar ali na esquina, mas quem gosta de andar, não é mesmo? O TechCrunch citou a empresa afirmando que, durante um teste do produto, o modelo de anúncios gerou um aumento de seis dígitos em vendas em “questão de minutos”.

Isso é apenas a repetição mais recente do pesadelo dos anúncios “engajáveis” que está lentamente engolindo todas as formas de entretenimento. O serviço de streaming da Walmart, Vudu, estaria planejando vender “conteúdos compráveis” dentro da sua plataforma, o que, por si só, já parece uma forma horrível de publicidade antes mesmo de a NBCUniversal anunciar que estava mais do que preparada para ultrapassar os limites do consumismo.

A Amazon também está apostando alto em anúncios com seu serviço de streaming de vídeo, o IMDb Freedive, e seu novo serviço de streaming de música para produtos habilitados para Alexa (concorrente da versão gratuita do Spotify). No caso da Amazon e do Walmart, os serviços de streaming de vídeo são café pequeno quando comparados ao negócio principal das empresas. A sinergia de anúncios interativos que te levam diretamente para a compra online é incrível demais para resistir.

Os espaços de serviços e entretenimento estão cada vez mais competitivos e saturados. À medida que cada vez mais empresas tentam conquistar um espaço na disputa por nossa atenção, elas estão brigando não apenas com gigantes já estabelecidos no mercado, como Netflix e Hulu, mas também com novatos como Apple TV+ e Disney+. No caso deste último, existe uma legião de fãs fiéis dispostos a gastar o que for preciso para acessar seus serviços. E isso significa que empresas de mídia que querem entrar na briga e sobreviver terão que criar fontes de receita alternativas e inovadoras.

Você realmente pagaria para a NBC se tivesse a opção de adquirir a maioria dos seus programas no Hulu em um pacote com a ESPN e a Disney+? O público já odeia anúncios, principalmente aqueles espectadores que estão dispostos a pagar uma assinatura mensal ou anual exatamente para se livrar de publicidade. Esse cenário cria uma necessidade de inovação e de convencer anunciantes de que um dado serviço é um local em que eles deveriam investir para atingir seu público em vez de qualquer outro serviço ou veículo que também esteja competindo por olhos e ouvidos.

A cada semana surge uma nova forma de engajamento publicitário em diferentes tipos de entretenimento (alô, Spotify), tudo desenvolvido para nos persuadir a falar com, clicar ou escanear um anúncio. Uma patente do Facebook apresentou, no ano passado, um cenário assustador em que o microfone de um celular poderia ser ativado por um anúncio utilizando uma “impressão digital de áudio ambiente ou uma assinatura” não identificável, que seria utilizada para aprimorar a eficácia do anúncio.

Anúncios já são um inferno. Eles estão por toda a parte, competindo constantemente pela nossa atenção em um mar de anúncios. Quando comparado a qualquer terror inimaginável que o Facebook esteja planejando para conquistar uma fortuna no nível do Tio Patinhas, os QR codes parecem até inofensivos. Mesmo assim, os esquemas de compras dentro do mundo do entretenimento não deixam de ser irritantes.