Poucas horas após a revelação de um pacote tudo-em-um de seus principais serviços, e a Apple já recebeu críticas por favorecer os próprios aplicativos. O que aconteceu é que muitas empresas, entre elas o Spotify, não gostaram nada em ter que competir com o Apple One, que traz vários serviços em um lugar só e por um preço menor.

Esse investimento da Apple na promoção de seus serviços não é nenhuma surpresa por uma série de razões. A primeira delas é que alguns dos serviços da companhia têm sido mais bem-sucedidos do que outros – com exceção, digamos, do Apple TV+ -, e os pacotes que juntam todos eles permitem que a Apple atraia alguns clientes pagantes que, de outra forma, poderiam ignorar um ou outro serviço da empresa.

Outro motivo é que atrair usuários que estão usando um aplicativo da Apple por conveniência, e não por ser o melhor aplicativo em sua categoria, obviamente beneficia a companhia. Um usuário que já é assinante do Apple Fitness+ ou Apple Music como parte do Apple One pode estar menos inclinado a pagar pelo Fitbit Coach ou Tidal, por exemplo. Afinal, ele não precisaria assinar por um produto que custaria quase o mesmo valor sozinho.

E é justamente isso que não foi esquecido por empresas que hospedam seus serviços na App Store. O Spotify, que há anos briga com a Apple por causa das altas taxas cobradas na loja de aplicativos, aproveitou a oportunidade para levantar questões antitruste da Apple. O apresentador do Recode Media, Peter Kafka, obteve uma declaração de um porta-voz do Spotify afirmando que a Apple estava “usando sua posição dominante e práticas injustas para prejudicar os concorrentes e privar os consumidores, favorecendo os próprios serviços”. A declaração ainda chamou as ações da Apple de “anticoncorrenciais” e implorou para que autoridades antitruste interviessem no caso.

Enquanto isso, o CEO da Peloton (companhia de equipamentos de ginástica com um serviço de assinatura), John Foley, revelou durante uma reunião de investidores nesta terça-feira (15) que sua empresa estava “digerindo o anúncio”. Enquanto elogiava o compromisso da Apple com a categoria fitness, ele também parecia insinuar que, sem aparelhos de treino dedicado, a Peloton ainda tinha uma vantagem sobre o Fitness+.

“Eles (a Apple) serão apenas o conteúdo. E achamos que o toque especial, a magia, são nossas plataformas conectadas. E para se exercitar em casa, você precisa de uma bicicleta ergométrica se for andar de bicicleta, ou de uma esteira se for correr”, disse Foley.

Deixando de lado por um momento o fato de que ninguém realmente precisa de uma esteira para correr ou mesmo de equipamentos para se exercitar, a Peloton parece ter se esquecido que estará competindo com o Fitness+ não pelos conteúdos, mas pelos assinantes.

Particularmente, se o Fitness+ for tão bom quanto muitos de nós provavelmente imaginamos que será, não há razão para acreditar que um possível usuário do aplicativo da Peloton não abriria mão do equipamento caro da empresa para se concentrar em um app dentro de um pacote de serviços que ele já paga, como será o caso do Apple One. Além disso, não sabemos exatamente tudo o que está incluso no Fitness+, mas os materiais promocionais durante o evento da Apple pareciam indicar que haverá uma modalidade para ciclismo indoor. O que impede alguém de comprar uma bicicleta ergométrica – presumivelmente muito mais acessível – e recorrer aos instrutores da Apple?

A Apple veio com tudo em preços competitivos, desenvolvimento de qualidade e usabilidade por meio de seu ecossistema entre serviços. Se as desenvolvedoras de aplicativos ainda não estão apavoradas, eu digo: elas deveriam estar.