Primeiro, foi a Amazon. Depois, o Google. Agora, é a vez de a Apple confirmar que seus aparelhos não estão apenas ouvindo você, mas estranhos podem estar revisando as gravações. Graças à Siri, os terceirizados da Apple costumam captar trechos íntimos da vida privada dos usuários, como tráfico de drogas, visitas a médicos e aventuras sexuais. Isso é parte de suas tarefas de controle de qualidade, de acordo com uma matéria publicada pelo jornal inglês The Guardian na sexta-feira (26).

Como parte de seu esforço para melhorar o assistente de voz, “[uma] pequena parte dos pedidos da Siri são analisados ​​para melhorar a assistente e os recursos de ditado”, disse a Apple ao The Guardian. Isso envolve enviar essas gravações sem identificação para sua equipe internacional de terceirizados. Eles avaliam essas interações com base na resposta da Siri, entre outros fatores. A empresa explicou ainda que essas gravações separadas representam menos de 1% das ativações diárias do Siri e que a maioria dura apenas alguns segundos.

Só que não é bem assim, de acordo com um terceirizado anônimo da Apple com quem o jornal conversou. O contratado explicou que, como esses procedimentos de controle de qualidade não eliminam casos em que um usuário acidentalmente acionou a Siri, os contratados acabam ouvindo conversas que os usuários talvez nunca quisessem gravar. Além disso, detalhes que poderiam identificar um usuário, de acordo com a fonte, acompanham a gravação para que os contratados possam verificar se uma solicitação foi tratada com sucesso.

“Houve incontáveis ​​casos de gravações que mostravam discussões privadas entre médicos e pacientes, acordos de negócios, alguns deles aparentemente criminosos, encontros sexuais e assim por diante. Essas gravações são acompanhadas de dados do usuário mostrando a localização, detalhes de contato e dados do aplicativo”, disse o delator ao Guardian.

E é assustadoramente fácil ativar a Siri por acidente. A maioria das coisas que soam remotamente como “Hey Siri” acabam ligando a assistente. Um caso que ficou famoso foi o do Secretário de Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson. No ano passado, a assistente se pronunciou enquanto ele falava ao Parlamento sobre a Síria.

Até o som de um zíper pode ser suficiente para ativar a assistente, segundo o funcionário terceirizado. Ele disse que, dos dispositivos da Apple, o Apple Watch e o alto-falante inteligente HomePod costumam captar mais frequentemente gatilhos acidentais da Siri, e as gravações podem durar até 30 segundos.

Embora a Apple tenha dito ao Guardian que as informações coletadas da Siri não estão conectadas a outros dados que a Apple pode ter sobre um usuário, o terceirizado contou uma história diferente: “Não há muito controle sobre quem trabalha lá, e a quantidade de dados que temos liberdade analisar é bem ampla. Não seria difícil identificar a pessoa que você está ouvindo, especialmente com acionadores acidentais — endereços, nomes e assim por diante. ”

A equipe foi instruída a relatar essas ativações acidentais como problemas técnicos, disse o funcionário ao jornal, mas não havia orientações sobre o que fazer se essas gravações capturassem informações confidenciais.

Tudo isso faz com que as respostas engraçadas da Siri às perguntas dos usuários pareçam muito menos inocentes, particularmente quando você pergunta se ela está sempre ouvindo: “Só ouço quando você está falando comigo”.

Outros gigantes da tecnologia, Amazon e Google, enfrentaram recentemente escândalos de privacidade semelhantes relacionados a gravações de seus aparelhos. Mas, embora essas empresas também tenham funcionários que monitoram o respectivo assistente de voz, os usuários podem revogar permissões para alguns usos dessas gravações. A Apple não oferece essa opção em seus produtos.

[The Guardian]