As chamadas cadeiras gamer não são uma novidade para streamers que passam horas jogando. Agora com a pandemia de coronavírus, esse item passou a chamar atenção de outras pessoas que procuram pelo bem-estar no home office, uma vez que temos passado mais tempo em casa, seja trabalhando ou na frente do computador. Portanto, é sábio dizer que cadeira não é tudo igual e sua escolha pode influenciar muito na sua saúde.

Só que você precisa pensar duas vezes antes de investir nesse tipo de produto. Será que usar essa cadeira por várias horas é realmente vantajoso para a sua coluna/lombar? É mais confortável mesmo ou tudo não passa de marketing por parte das empresas? E claro, não vamos esquecer do fator preço, pois, se uma cadeira normal de escritório já não é muito barata, uma cadeira gamer pode te custar uma pequena fortuna.

Para responder essas e outras perguntas, eu conversei com Alexandre Fogaça, ortopedista e presidente eleito em 2021 para a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; Luciano Miller, ortopedista e cirurgião de coluna vertebral do Hospital Israelita Albert Einstein; Carla Barbosa, diretora de marketing da Herman Miller para América Latina e Caribe; e com alguns consumidores na Santa Ifigênia, bairro de comércio popular na região central de São Paulo.

Direto ao ponto: cadeira gamer não faz milagres

A primeira coisa que preciso destacar é essa: uma cadeira gamer – e na verdade qualquer cadeira, por mais cara ou cheia de promessas que ela seja – não vai alinhar sua coluna ou lombar como em um passe de mágica. Quantas vezes você já ouviu falar que nunca é uma coisa só, mas sim o conjunto de vários fatores? Pois é.

 

Para quem trabalha várias horas sentados, o conceito é exatamente o mesmo: não basta gastar centenas de reais em uma cadeira sem adaptar o resto do ambiente, pois os benefícios não são entregues em sua totalidade. É por este motivo que às vezes se torna impossível trabalhar 100% do tempo mantendo uma postura mais alinhada.

“Estávamos em uma rotina de trabalho em escritórios muitos bem adaptados ao longo de muitos anos, com cadeiras, mesas e telas de computador adequadas. Com a pandemia e o home office, temos visto cadeiras sem apoio para as costas, e mesas e telas de computador em alturas inadequadas. Por isso é difícil manter a postura em casa”, explica Luciano Miller, ortopedista e cirurgião de coluna vertebral do Hospital Israelita Albert Einstein, ao Gizmodo Brasil.

Imagem: Ella Don (Unsplash)

Imagem: Ella Don (Unsplash)

Miller afirma que o principal objetivo desse tipo de cadeira é justamente evitar a fadiga muscular na região das costas e lombar. E o mesmo diz Alexandre Fogaça, ortopedista e presidente eleito em 2021 para a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), em entrevista ao Gizmodo Brasil.

“Para o home office, é muito importante tornar o ambiente tão ergonômico quanto na empresa onde você trabalha. O ideal é o computador fique na altura dos olhos e o teclado na altura do cotovelo dobrado e apoiado sobre os braços da cadeira, que também precisa ter um encosto e o pé apoiado no chão ou algum suporte, caso ela seja mais alta”, diz.

Segundo Fogaça, não tem uma diferença explicitamente clara entre uma boa cadeira de escritório e uma cadeira gamer. O que muda é o conforto de cada peça. A gamer costuma ter esse apelo de marketing porque atende boa parte dos requisitos: tem um encosto para deixar a coluna a 90 graus, oferece regulagem de altura e é feita de materiais para tornar o uso mais confortável. “Não é necessário investir em uma cadeira gamer, mas sim adaptar [o ambiente] e adotar condições minimamente econômicas que não prejudiquem a coluna”, completa.

Cadeira gamer tá com tudo na pandemia

Com mais pessoas trabalhando dentro de casa, era de se esperar que o investimento nesse tipo de cadeira disparasse nos meses de isolamento social. E foi o que aconteceu.

Durante uma passagem pela região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, notei o quanto foi difícil encontrar as tais cadeiras gamer. Conversando com o gerente de uma loja na esquina com a Rua Aurora, que preferiu não se identificar, ele me contou que as vendas das cadeiras subiram mais de 200% de março a outubro deste ano. “Principalmente depois que investimos mais no nosso e-commerce, vimos um salto em comparação com o total de vendas do ano passado. Aqui na loja o movimento também é alto. Durante a semana, saem pelo menos cinco cadeiras por dia, mas esse número chega a quase 15 nos fins de semana. Tem sido difícil repor o estoque com tanta frequência”, disse.

Na mesma loja, encontrei a farmacêutica Ana Beatriz Ferreira, de 47 anos, acompanhada do filho Lucas, de 13. “Ele já estava querendo uma cadeira dessas. E como eu tenho trabalhado mais tempo dentro de casa, pensei da gente dividir o uso: ele com os jogos dele, eu com minhas planilhas no computador. É um produto caro, talvez nem todo mundo tenha dinheiro para comprar, mas acho que a longo prazo deve ajudar na postura”, contou.

De fato, as pessoas parecem estar mais preocupadas com a saúde. Segundo o ortopedista Luciano Miller, cerca de 70% das pessoas terá algum tipo de dor nas costas ao longo da vida devido a diversos fatores: sedentarismo, ganho de peso corporal, permanecer muitas horas sentado, entre outros motivos. As principais reclamações dos pacientes são dores na coluna cervical, coluna lombar, torcicolos e formigamento em braços ou pernas.

O ortopedista Alexandre Fogaça afirma ainda que as pessoas têm buscado se informar mais sobre alguns dos problemas mais comuns ligados à saúde da coluna. O especialista diz que muitos pacientes têm pesquisado mais sobre lombalgia, uma dor ou desconforto na região na lombar e próxima aos glúteos, e cervicalgia, que provoca dores no início da coluna vertebral a partir da cabeça.

A Embody Gaming da Herman Miller, em parceria com a Logitech G, é um dos modelos mais ergonômicos (e caros) no mercado de cadeiras. Imagem: Divulgação

Por falar em pesquisas na internet, em um dado fornecido pelo Google a pedido do Gizmodo Brasil, a empresa de buscas revelou que, entre os dias 25 a 31 de outubro deste ano – um mês antes da Black Friday -, houve um aumento de 234% nas pesquisas pelo termo “cadeira gamer”, em comparação com o mesmo período de 2019.

Esse aumento expressivo também foi visto pela Herman Miller, fabricante de móveis e equipamentos para casas e escritórios. De acordo com Carla Barbosa, diretora de marketing para América Latina e Caribe da marca, só no período de Black Friday, houve um crescimento de 50% no volume de vendas ante a mesma data no ano passado. Na loja online da companhia, o aumento foi ainda maior: 400% de abril a novembro, em comparação com os mesmos meses em 2019.

“Eu acho que as pessoas, dentro da sua realidade, estão valorizando mais o bem estar. Como você está mais tempo dentro de casa, é natural querer valorizar seu espaço, seja o tamanho que for. Também acredito que as pessoas, de uma certa forma, tiveram uma economia de recursos: a grande maioria não tirou férias, não teve grandes investimentos na economia. Por isso, e por ter esse olhar mais para si mesmo e para onde você passa a maior parte do tempo do seu dia, foi um movimento natural e super favorável para a compra de uma cadeira”, diz Barbosa em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Como escolher sua cadeira gamer

As cadeiras podem variar de modelo e de categoria, como é o caso das cadeiras gamer. Mas entre especialistas de saúde e executivos do setor, é fundamental que todas atendam a alguns requisitos de ergonomia. Os três principais são: um encosto firme na parte traseira, um encosto para posicionar os cotovelos e regulagem de altura. O material também é importante, podendo ser um estofado acochado ou uma fibra mais leve para aumentar a circulação de ar e evitar aquecimento e transpiração, mas isso não chega a ser um consenso.

E sabe aquela cruzadinha de perna que eu tenho certeza que você, assim como eu, costuma fazer de tempos em tempos enquanto fica sentado? Pode esquecer, pois isso contribui bastante para dores na coluna.

“Os erros mais comuns [na hora de sentar] são: não apoiar as costas na cadeira, não apoiar os pés no chão porque a cadeira é muito alta, não apoiar o antebraço para digitar e flexionar muito a cervical. Tudo isso pode gerar dor nas costas. Cruzar as pernas leva a um desequilíbrio no quadril, podendo causar dores na coluna devido a alterações do disco. [Em alguns casos] pode evoluir para uma hérnia de disco”, alerta o ortopedista Luciano Miller.

Muitas vezes, a saúde acaba em segundo plano devido a uma barreira: o preço. Em uma busca rápida na internet, o valor médio que encontrei para “cadeira de escritório” foi de R$ 700. Para “cadeira gamer”, o preço varia bastante; há opções básicas de R$ 600, mas versões mais tradicionais da categoria – aquelas maiores, com encosto para a lombar e regulagem de altura e ângulo – não saem por menos de R$ 1.200. Felizmente, esse é um produto que foi feito para durar bastante tempo. A Embody Gaming da Herman Miller em parceria com a Logitech G, por exemplo, tem uma garantia de 12 anos.

Cadeira gamer. Imagem: Caio Carvalho (Gizmodo Brasil)

A maioria das cadeiras gamer possui encosto para cotovelos e alavancas para regular altura e o ângulo do encosto para as costas. Imagem: Caio Carvalho (Gizmodo Brasil)

Comprada sua cadeira, também é muito importante se atentar aos seguintes detalhes:

  • Encoste sua coluna por completo no encosto traseiro;
  • O quadril também deve ficar colado no fundo da cadeira;
  • Evite apoiar o corpo para a frente ou sentar na ponta da cadeira;
  • Joelhos devem ficar dobrados a um ângulo de 90 graus, na mesma altura do quadril;
  • Pés apoiados no chão ou em alguma superfície firme, caso a cadeira seja alta;
  • Cotovelos apoiados no encosto, na altura do teclado;
  • Deixe o monitor na altura dos olhos. Se for um notebook, coloque um apoio ou livros embaixo do aparelho até que ele fique na mesma altura da sua visão.

E de novo: não espere por milagres

Os especialistas reforçam que, para manter a saúde da sua coluna, não basta uma boa cadeira, seja ela normal ou gamer. Tudo é uma questão do conjunto de elementos que complementam a experiência. E nesse bolo aí também entra a atividade física e movimentação corporal.

“A cadeira faz parte de um conjunto de alterações que a pessoa tem que buscar em casa para tornar o home office minimamente ergonômico. Mas é igualmente importante que, a cada 1h30 ou 2h00, a pessoa se movimente um pouco fora do cômodo de trabalho. Levante, faça um pouco de alongamento e, na medida do possível, pratique uma atividade física de duas a três vezes por semana. Também é importante controlar a ansiedade e aquilo que você come para evitar sobrepeso”, diz o presidente eleito da SBOT, Alexandre Fogaça.

“Uma dica é praticar exercício físico que misture alongamento com fortalecimento muscular. Outra recomendação é manter a boa postura no trabalho ou durante o tempo que permanecer sentado. Também fazer pausas no trabalho ou durante o jogo a cada 30 minutos, para alongamento e andar um pouco. E manter um peso adequado”, afirma Miller.