Mesmo sendo bastante controverso no mundo, o cigarro eletrônico – ou a cultura vaping – surgiu como uma alternativa de auxílio para quem deseja parar de fumar ou como uma forma de minimizar o impacto do tabagismo na saúde. A Public Health England (PHE) – uma agência do Serviço de Saúde do governo da Inglaterra -, realiza anualmente estudos para comparar os efeitos do produto, também conhecido como vaping e tabaco aquecido, com os dos cigarros tradicionais.

Na pesquisa, foram utilizados dois recipientes cheios de algodão. O primeiro foi exposto durante um mês ao fumo do tabaco e, o segundo, ao vapor dos eletrônicos. O pote que recebeu o cigarro de combustão apareceu totalmente impregnado e pegajoso, com uma coloração escura e carregado de alcatrão, enquanto o do eletrônico continha apenas vapor.

De fato, a conclusão inicial fora que esse tipo de produto é menos prejudicial e tem potencial para exercer um importante papel na redução do tabagismo na saúde pública. Mas será que um experimento prático desses diz tudo que precisamos saber sobre o impacto social e psicológico do uso exacerbado de cigarros eletrônicos entre as diferentes faixa etárias?

É o que propomos debater neste texto. Não é uma discussão maniqueísta. Não se trata do preto no branco. Estamos falando de saúde – e nessa questão é importante trazer os diferentes pontos de vista, um histórico sobre o produto e quem está o produzindo. É fato que o cigarro eletrônico é uma alternativa, mas até que ponto ele não pode se tornar um outro tipo de malefício? Afinal, o excesso de qualquer virtude a gente sabe onde vai dar.

Como surgiu o cigarro eletrônico?

O primeiro cigarro eletrônico, como o conhecemos hoje em dia, só foi introduzido em 2003, na China, de onde se espalhou para o resto do mundo nos dois anos seguintes.

No entanto, a herança do vaping tem uma história muito mais rica. Várias culturas desfrutaram do ato de imersão vapores herbais. O primeiro meio usado não era nem de perto um atomizador – era uma pilha muito menos avançada de pedras quentes e fumegantes.

O historiador grego Heródoto, em seu consagrado livro História, tem uma passagem em que menciona o povo nômade Cita, onde diz que “pegavam um pouco dessa semente de cânhamo e a jogavam sobre as pedras incandescentes, a qual imediatamente vaporiza e produz um vapor que não pode exceder o banho de vapor grego; os citas, encantados, gritam de alegria”.

Do século 7 adiante, membros da dinastia Safávida – responsável pelo “renascimento” da Pérsia como uma potência Oriental – usavam o que hoje chamamos de narguilé. Suas variantes são usadas principalmente em países islâmicos, onde há uma forte tradição de inalar o vapor de ervas aromáticas.

Embora essas práticas não sejam utilizadas na composição dos cigarros eletrônicos hoje em dia, podemos dizer que são avós dela. Para chegar aos dispositivos modernos, temos que avançar pelo menos um milênio.

O primeiro protótipo de cigarro eletrônico foi criado em 1927, por um homem chamado Joseph Robinson. Ele apresentou um pedido de patente – que só fora concedida em 1930 – relacionado a um vaporizador elétrico. O documento original dizia: “Minha invenção refere-se a dispositivos de vaporização para manter compostos medicinais que são aquecidos eletricamente para produzir vapores para inalação”.

Patente do cigarro eletrônico idealizado por Joseph RobinsonPatente de Joseph Robinson. Crédito: Google Patents

Seu dispositivo não foi concebido como uma ferramenta à base de nicotina, mas, ainda assim, a semelhança com cigarros eletrônicos de 2ª geração se tornaria evidentemente visível. Até onde sabemos, nem um único protótipo foi produzido e a invenção não foi comercializada na época.

O homem que é de fato creditado como o pai dos cigarros eletrônicos é Herbert A. Gilbert. Ele deu entrada em uma patente em 1965, mas o dispositivo não decolou, principalmente porque as empresas de tabaco não estavam realmente interessadas em substituir os cigarros tradicionais. “Usando a tecnologia disponível em 1963”, ele explicou, “concluí que uma fonte de calor alimentada por bateria faria o trabalho e o primeiro cigarro eletrônico nasceu. Eu construí protótipos e tentei usar vários sabores de água como vapor … e funcionou”.

Outro nome importante na nossa ordem cronológica: Phil Ray. Em 1981, Ray decidiu parar de fumar. Ele inventou um dispositivo que fornecia nicotina sem combustão. Como efeito, o dispositivo tinha um papel encharcado de nicotina e a liberava quando inchado.

Ele fez uma parceria com o Dr. Norman L. Jacobson e eles conseguiram tirar sua empresa do papel, vendendo seu dispositivo por todo o oeste dos Estados Unidos. Infelizmente, seu sistema de entrega era falho – a nicotina tem um baixo ponto de evaporação, então o dispositivo tinha uma vida útil muito curta -, e eles foram forçados a vender sua invenção para outra empresa.

Apesar do fato de que seu dispositivo falhou (e que não era realmente um cigarro eletrônico), eles foram os primeiros a usar os termos “vaping” – e com isso, o jogo mudou.

O cigarro eletrônico moderno

Foi em 2000, que um farmacêutico da China, chamado Hon Lik, adormeceu e sonhou que estava se afogando. De repente, a água virou vapor. Hon Lik era um fumante, como seu pai. Ele assistiu seu pai morrer de câncer induzido pelo fumo, de modo que provavelmente tinha algo a ver com seu sonho profético.

Hon Link, o inventor do cigarro eletrônico modernoHon Lik. Crédito: Reprodução/YouTube/Zamplebox

Em todo caso, ele patenteou seu sonho em 2003. O primeiro cigarro eletrônico usou um elemento emissor de ultrassom piezoelétrico de alta freqüência, que vaporizou o líquido contendo nicotina. Embora parecesse semelhante ao que vemos hoje, o primeiro cigarro eletrônico funcionava com princípios muito diferentes. O cigarro eletrônico de Hon Lik envolvia ultrassom, exigia muitas partes móveis e não era muito fácil de usar ou conveniente.

Hon Lik nomeou sua invenção Ruyan e sua empresa, Golden Dragon Holdings, começou a comercializá-lo na China. Em 2005, apareceu no mercado europeu e, em 2006, começou a progredir lentamente nos Estados Unidos.

O mercado havia aberto os olhos para os cigarros eletrônicos.

Dois empresários britânicos, Ted e Matt Rogers, tornaram tudo mais simples quando inventaram um cartomizador . Essencialmente, um cartomizador combinou uma bobina com o tanque e a invenção foi adotada por várias marcas de cigarros na época.

A partir daí, foram inúmeras as inovações. Basta dizer que, depois de 2008, quando o dispositivo ganhou terreno na Europa e nos EUA, uma comunidade fora criada.

Muito mais do que apenas uma ferramenta para enfrentar o tabagismo, a prática da vaporização hoje em dia se tornou um hobby cheio de peculiaridades das quais seus praticantes não abrem mão.

Cigarro eletrônico e fumaçaCrédito: Pixabay

Hoje em dia, a grande maioria dos cigarros eletrônicos não utiliza mais tecnologia de ultrassom – eles usam apenas um sistema de baterias elétricas. E o calor produzido por meio delas vaporiza um líquido que pode ou não conter nicotina e que é inalado pelo usuário do dispositivo, evitando assim a absorção dos elementos carcinogênicos que são encontrados em grandes quantidades nos cigarros comuns.

Existem quatro gerações de vaporizadores e eles continuam evoluindo em tecnologia e design constantemente.

Quais são as principais categorias de cigarros eletrônicos?

  • Cigarros eletrônicos de primeira geração

    Os primeiros cigarros eletrônicos a chegarem ao mercado tentavam simular a aparência e a forma de um cigarro. Grande parte deles eram dispositivos descartáveis, que contavam com uma parte funcionando como bateria, um atomizador – para transformar o líquido em vapor – e um cartucho que continha as substâncias. Uma vez que tudo era esgotado (bateria e líquido), o aparelho podia ser jogado fora. Alguns poucos podiam ser recarregáveis.

  • Cigarros eletrônicos de segunda geração
    Cigarros eletrônicos de segunda geração possuíam bateria recarregável e você podia recolocar o líquido que era vaporizado no tanque do aparelho, apesar de certos modelos ainda adotarem cartuchos não reutilizáveis. Os aparelhos dessa geração normalmente tinham a aparência de uma caneta um pouco mais espessa. Como não eram dispositivos descartáveis, o custo de utilização deles eram mais baixos, apesar de os aparelhos em si custarem um pouco mais.

  • Cigarros eletrônicos de terceira geração
    É aqui que entra a maioria dos cigarros eletrônicos usados hoje em dia. Os mods, que servem como fonte de energia e o “cérebro” do vape, começam a aparecer nessa geração. Eles podem ter controles de voltagem e potência para regular a quantidade de vapor produzida e possuem alguns dispositivos eletrônicos de segurança. São também da terceira geração os tais mods mecânicos, que não utilizam circuitos integrados e geram contato entre as baterias e o aparato de aquecimento de maneira física.

  • Cigarros eletrônicos de quarta geração
    Essa geração comporta cigarros eletrônicos com controle automático de temperatura, capazes de lidar com configurações de resistência bastante baixa em ohms. Sem dúvidas, são os aparelhos mais modernos – e também os mais caros – do mercado.

Tabaco aquecido

Tabacos aquecidos são dispositivos similares aos cigarros eletrônicos, mas que aquecem o tabaco apenas o suficiente para liberar um vapor contendo nicotina, sem queimar o tabaco.

Solução de tabaco aquecido da Philip MorrisIqos é o tabaco aquecido da Philip Morris

Aqui está o ponto principal: o tabaco em um cigarro convencional queima a temperaturas superiores a 600° C, gerando combustão, que contém altos níveis de produtos químicos e nocivos. Mas o tabaco aquecido funciona com temperaturas muito mais baixas, de até 350 °C, sem o fator da combustão. O aquecimento de baixa temperatura libera o verdadeiro sabor do tabaco aquecido e os níveis de produtos químicos nocivos são significativamente reduzidos em comparação ao cigarro convencional, já que ele não é queimado.

Cigarro eletrônico é prejudicial à saúde?

Essa resposta é razoavelmente dúbia e inconclusiva, especialmente porque esse tipo de dispositivo é bastante recente e ainda não foi possível analisar os efeitos em longo prazo.

Outro estudo realizado pelo departamento de Saúde Pública da Inglaterra em agosto de 2015 chegou à conclusão de que cigarros eletrônicos são 95% menos danosos que o consumo de tabaco.

“Os cigarros eletrônicos não são completamente livres de riscos quando comparados aos cigarros comuns, mas evidências mostram que eles carregam uma fração do dano”, diz em um comunicado o professor Kevin Fenton, diretor de Saúde e Bem Estar na Public Health England.

Vaping pixabayCrédito: Pixabay

O estudo mostra que fumar cigarros eletrônicos é comum entre pessoas que já fumam, e que “um pequeno número de não fumantes” o usam. Este contexto geralmente se perde em discussões sobre essa prática, já que algumas comunidades de saúde pública a veem como uma alternativa positiva a fumantes que tentam abandonar o cigarro tradicional.

Essa pesquisa também mostrou que a prática da vaporização pode ajudar na luta contra o tabagismo entre fumantes e que não há evidências de que os vapes estariam agindo como rota de entrada à prática de fumar entre crianças e não fumantes. O estudo foi conduzido pelos professores Ann McNeill, da King’s College London, e Peter Hajek, da Queen Mary University of London.

Mas sem dúvida haverá repercussão negativa da pesquisa, que surgiu praticamente junto com um novo estudo da American Medical Association, que mostra como estudantes do ensino médio norte-americano que usam o cigarro eletrônico são mais propensos a experimentar também os cigarros tradicionais. Apesar de existir uma relação entre os dois, o estudo não conseguiu provar que o cigarro eletrônico é uma porta de entrada para o fumo comum, como muitos acreditam.

“Apenas mostra que [adolescentes] que são atraídos pelos cigarros eletrônicos são as mesmas pessoas que se atraem por cigarros”, diz Peter Hajek, um dos autores do estudo da PEH (Public Health England), ao The Guardian. “Pessoas que bebem vinho branco estão mais propícias a experimentarem vinho tinto do que pessoas que não bebem álcool”.

Resumindo: não existe consenso na comunidade médica internacional em relação aos males que a vaporização pode causar. Há um consenso geral de que usuários de cigarros eletrônicos são expostos a muito menos substâncias tóxicas e carcinogênicas, apesar de o risco do desenvolvimento de dependência à nicotina continuar existindo.

Nenhuma conclusão específica sobre o quão seguro é usar esses produtos em comparação ao fumo pode receber credibilidade científica nesse momento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) produziu um relatório em agosto de 2016 e nele afirma: “não há pesquisas suficientes para quantificar o risco relativo de sistemas eletrônicos de fornecimento de nicotina em relação a produtos que usem combustão. Portanto, nenhuma conclusão específica sobre o quão seguro é usar esses produtos em comparação ao fumo pode receber credibilidade científica nesse momento”.

O contraponto

Em setembro de 2019, oficiais de saúde no condado de Tulare, na Califórnia (EUA), reportaram que um morador morreu após desenvolver lesões nos pulmões relacionadas ao vaping. A morte marca a sétima fatalidade semelhante relatada até agora, entre centenas de casos documentados em metade dos Estados Unidos.

Segundo as autoridades do condado de Tulare, a pessoa morreu após semanas de tratamento médico para a condição, que agora é conhecida como lesão pulmonar associada ao vaping. A identidade da pessoa não foi divulgada, embora se saiba que ela tinha mais de 40 anos e que tinha complicações de saúde subjacentes.

“Com tristeza, relatamos que houve a morte de um morador de Tulare County, suspeito de estar relacionado a lesão pulmonar grave associada a vaping”, disse Karen Haught, oficial de saúde pública do condado de Tulare, em comunicado divulgado na noite de segunda-feira.

Diferentes tipos de cigarro eletrônicoDiferentes tipos de cigarro eletrônico. Crédito: sarahjohnson1/Pixabay

O condado já documentou três casos locais de VAPI (como ficou conhecida a doença nos EUA), embora a Califórnia, ao todo, tenha reportado 73 casos suspeitos, segundo o Departamento de Saúde da Califórnia. Recentemente, o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA, órgão análogo à ANVISA no Brasil) disse que houve 380 casos de VAPI registrados nacionalmente em 36 estados e um território (uma estimativa anterior mais alta incluía possíveis casos que estavam sob investigação). Kansas, Illinois, Indiana, Minnesota e Oregon também relataram mortes, mas a Califórnia é o primeiro estado com mais de uma morte.

Pessoas com VAPI apresentaram sintomas como tosse, falta de ar e dor no peito, além de sintomas menos comuns, como náusea e vômito. Todos tinha um histórico recente de vaping. A maioria afirmou ter usado produtos que contenham THC ou maconha, como ceras e óleos ricos em THC, frequentemente adquiridos no mercado paralelo.

Apesar desse vínculo comum entre muitas vítimas, as autoridades de saúde relutam em atribuir a culpa a uma causa específica. Na declaração de Haught sobre a morte da pessoa em Tulare, por exemplo, ela alertou que “qualquer uso de cigarros eletrônicos representa um possível risco para a saúde dos pulmões e pode potencialmente causar graves lesões pulmonares que podem até levar à morte”.

Parte desse ceticismo talvez seja justificado. Muitas das vítimas relataram usar produtos de nicotina e THC, enquanto cerca de um quinto relatou usar apenas nicotina. E, embora alguns estados tenham vinculado o uso de uma substância em particular — uma forma sintética e gordurosa de vitamina E, provavelmente capaz de causar pneumonia quando inalada — a quase todos os casos em sua área, não há nenhum vínculo consistente com qualquer produto químico ou produto produzido nos EUA, segundo o CDC. Em uma morte que ocorreu no Oregon, acredita-se que a vítima tenha usado óleo de THC comprado em um loja de cigarros legalizado, e não em uma loja com produtos paralelos.

Mas críticos apontaram que as vítimas cujos sintomas foram associados apenas à nicotina podem relutar em admitir o uso de THC, principalmente se forem menores de idade ou moraram em estados onde a maconha recreativa ainda é ilegal. Alguns especialistas em saúde pública também criticaram o CDC e outras agências de saúde por assustar desnecessariamente os usuários de cigarros eletrônicos, por não serem mais claros sobre a ligação entre produtos ilegais de THC e a VAPI. Curiosamente, alguns usuários disseram que estão voltando ao cigarro de tabaco — uma opção quase certamente pior para manter a saúde dos pulmões a longo prazo.

Em resposta a esses casos, além de taxas crescentes de adolescentes usando cigarros eletrônicos ou vaporizadores, o presidente dos EUA, Donald Trump, recentemente propôs uma proibição de cigarros eletrônicos com sabor que são vendidos legalmente, seguindo propostas de vários estados e cidades que consideram estabelecer restrições locais. Alguns especialistas e médicos também criticaram a proposta como inútil para prevenir futuros casos de VAPI, dizendo que é mais provável que os usuários comprem produtos de cigarro eletrônico no mercado paralelo — exatamente os produtos considerados mais perigosos.

Do que o vapor dos cigarros eletrônicos é feito?

O líquido (juice, e-juice, e-liquid) utilizado nesses aparelhos é composto por duas substâncias: a glicerina vegetal (VG) e o propilenoglicol (PG). A elas podem se somar os aromatizantes, essências que dão sabor e aroma ao vapor e a nicotina, que não é obrigatoriamente utilizada.

A glicerina vegetal é um composto orgânico. É uma substância sem cor, sem cheiro, viscosa e de sabor adocicado. É considerada segura para o consumo e é utilizada em diversos produtos alimentícios e medicamentos. Seu aquecimento produz o vapor denso e branco gerado pelos cigarros eletrônicos.

O propilenoglicol é um composto orgânico sintético, cuja função nos líquidos para cigarros eletrônicos é realçar o sabor dos aromatizantes. Ele é usado na produção de polímeros e na indústria alimentícia, em produtos como sorvete, alguns laticínios e refrigerante. Apesar de a toxicidade do propilenoglicol ser muito baixa, a substância pode causar irritação nas mucosas dos olhos e das vias aéreas superiores, gerando eventualmente quadros de bronquite e asma.

Cigarros eletrônicos são legalizados no Brasil?

No Brasil, dispositivos eletrônicos para fumar são proibidos desde 2009. De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada da Anvisa (RDC) nº 46/09:

“Fica proibida a comercialização, a importação e a propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como cigarros eletrônicos, e-cigaretes, e-ciggy, ecigar, entre outros, especialmente os que aleguem substituição de cigarro, cigarrilha, charuto, cachimbo e similares no hábito de fumar ou objetivem alternativa ao tratamento do tabagismo. Estão incluídos na proibição que trata o caput deste artigo quaisquer acessórios e refis destinados ao uso em qualquer dispositivo eletrônico para fumar”.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que está discutindo uma atualização a partir de novas pesquisas e que o assunto está na Agenda Regulatória 2017-2020, no item “Novos tipos de produtos fumígenos”. Desde 2016, a agência vem se atualizando sobre o tema. No mesmo ano, fez o que chamou de uma revisão técnica em “Cigarros eletrônicos: o que sabemos?”.

Infrações implicam sanções previstas na Lei 6.437, de 20 de agosto de 1977, que obriga advertência, multa, apreensão, inutilização, interdição de produto e proibição de propaganda. Certamente, porém, você já o viu à venda em marketplaces da internet.

A Anvisa informa que possui uma equipe de fiscalização que monitora a internet regularmente. Entre os anos de 2017 e 2019, foram retirados cerca de 727 anúncios de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF), incluindo os cigarros eletrônicos.

Quando os estabelecimentos têm lojas físicas, são visitados pelas vigilâncias sanitárias estaduais e municipais. A agência também atua com os órgãos policiais e com a Receita Federal para identificar produtos ilegais e adotar medidas de combate à venda ilícita.

O mercado e as principais empresas de cigarros eletrônicos no mundo

O mercado global de cigarros eletrônicos deve ter uma taxa de crescimento anual de 24,9%, de acordo com um novo estudo da Grand View Research. A crescente popularidade desses produtos deverá impulsionar o crescimento do mercado nos próximos seis anos.

Os principais players do mercado de cigarros eletrônicos e vape incluem Altria Group; British American Tobacco; Imperial Brands; International Vapor Group; Japan Tobacco; NicQuid; JUUL Labs; PMI (Philip Morris International); R.J. Reynolds Vapor Company; Shenzhen IVPS Technology; e Shenzhen KangerTech Technology.

A marca de cigarro eletrônico mais conhecida no mundo é a Juul, que detinha três quartos do mercado norte-americano no final de 2018. Em dezembro daquele ano, a empresa de cigarros Altria – empresa matriz da Philip Morris EUA – comprou uma participação de 35% da Juul. As vendas da fabricante dispararam nos últimos anos, passando de 2,2 milhões de dispositivos vendidos em 2016 para 16,2 milhões em 2017.

Cigarro eletrônico/vape da marca JuulCrédito: Pixabay

A Altria Group ocupa uma posição de destaque na lista das principais marcas de cigarros eletrônicos do mundo. A receita anual do grupo é estimada em cerca de US$ 25 bilhões e mais de 8.300 profissionais são empregados neste ramo.

A British American Tobacco foi fundada em 1902 como uma joint venture entre a Imperial Tobacco Company e a American Tobacco Company. A sede da British American Tobacco, uma das principais marcas de cigarros eletrônicos do mundo, está localizada em Londres, Reino Unido e é líder de mercado em mais de 50 países. A receita anual da British American Tobacco registrou cerca de US$ 28 bilhões no final de 2017.

A Imperial Brands é outra das principais marcas de cigarros eletrônicos do mundo e foi criada no ano de 1901 pela fusão de 13 empresas britânicas de fabricação de tabaco. A Imperial Brands possui uma receita anual de cerca de US$ 32 bilhões e emprega mais de 34 mil profissionais em todo o mundo. A sede da Imperial Brands é Bristol, no Reino Unido.

A Japan Tobacco foi fundada em 1949 pelo Ministério das Finanças do Japão. A receita anual da Japan Tobacco é estimada em cerca de US$ 20 bilhões e possui mais de 48 mil funcionários em todo o mundo.

A NJOY está entre as principais marcas de cigarros eletrônicos do mundo e foi criada em 2006 por Mark Weiss. A NJOY está presente em todos os 50 estados dos EUA e em vários países da Europa. A receita anual da empresa é de cerca de US$ 15 milhões.

Cigarros eletrônicos: uma alternativa ao tabagismo ou mais uma opção para alimentar o vício?

A questão é válida, principalmente depois de todos os pontos levantados. Aproveito o espaço final para reafirmar alguns últimos tópicos.

  • Cigarro eletrônico é prejudicial ou não à saúde? Resposta razoavelmente dúbia e inconclusiva, especialmente porque esse tipo de dispositivo é bastante recente e ainda não foi possível analisar os efeitos em longo prazo.
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) produziu um relatório em agosto de 2016 e nele afirma: “não há pesquisas suficientes para quantificar o risco relativo de sistemas eletrônicos de fornecimento de nicotina em relação a produtos que usem combustão. Portanto, nenhuma conclusão específica sobre o quão seguro é usar esses produtos em comparação ao fumo pode receber credibilidade científica nesse momento”.
  • Há um consenso geral de que usuários de cigarros eletrônicos são expostos a muito menos substâncias tóxicas e carcinogênicas, apesar de o risco do desenvolvimento de dependência à nicotina continuar existindo.
  • Apesar de a toxicidade do propilenoglicol ser muito baixa, a substância pode causar irritação nas mucosas dos olhos e das vias aéreas superiores, gerando eventualmente quadros de bronquite e asma.

Nenhuma conclusão específica sobre o quão seguro é usar esses produtos em comparação ao fumo pode receber credibilidade científica nesse momento, mas uma coisa é certa: quando utilizados com responsabilidade, os cigarros eletrônicos podem sim ajudar uma pessoa a enfrentar o tabagismo.

Sem responsabilidade, outra coisa é óbvia e também igualmente certa: é mais uma opção para alimentar o vício entre fumantes e aqueles que estão começando a se aventurar na cultura do tabagismo e dos cigarros eletrônicos.