Os usuários de cigarros eletrônicos já devem estar ficando acostumado a receber más notícias sobre os elementos químicos encontrados no produto. Um novo estudo adiciona outro risco em potencial para a lista. A pesquisa sugere que muitos refis e líquidos de reabastecimento estão contaminados com toxinas vindas de bactérias e fungos.

A fumaça dos cigarros tradicionais de tabaco também possui diversas toxinas. Algumas dessas toxinas não são criadas pela queima do próprio tabaco, mas aparecem a partir de bactérias e fungos mortos que contaminam os produtos em algum momento durante o processo de produção. Elas incluem endotoxinas, que são encontradas dentro de bactérias gram-negativas, e glucanas, que ajudam a formar as paredes celulares de muitas espécies de fungos.

Problemas respiratórios, como inflamação pulmonar ou crises de asma, têm sido associados à respiração de endotoxinas e glucanos (seja por meio de fumaça do cigarro ou outras exposições, como o trabalho em uma fábrica têxtil). Mas, de acordo com os autores por trás deste estudo, publicado no periódico Environmental Health Perspectives, nunca houve nenhuma pesquisa sobre como essas toxinas microbianas podem ser comuns em produtos de cigarro eletrônico.

Os pesquisadores de Harvard testaram 75 produtos diferentes de 10 marcas líderes na época. Eles compraram todos os produtos online, exceto os de uma marca, que foi adquirido em um loja de conveniência perto do campus. Entre os itens estavam 38 refis (dispositivos de uso único) e 37 e-líquidos, que são usados para recarregar alguns modelos de cigarro eletrônico, em vários sabores, como frutas, tabaco e mentol.

Eles descobriram que 23% dos itens tinham níveis detectáveis de endotoxina, enquanto 81% continham algum glucano. Em média, os refis tinham três vezes mais glucano que os e-líquidos. Os produtos com sabor de tabaco e mentol tinham níveis de glucano que eram em média dez vezes mais altos. Os níveis de endotoxina, entretanto, foram ligeiramente superiores nos produtos com sabor a fruta.

Os resultados, dizem os autores, indicam que “algumas marcas e sabores populares [de cigarros eletrônicos] podem estar contaminados com toxinas microbianas”.

Tudo isso parece assustador, mas há algumas ressalvas às descobertas.

Uma limitação no estudo foi o fato de que os pesquisadores não testaram os níveis de toxinas que realmente acabam no aerossol produzido pelos produtos que os usuários ingerem.

Eles também testaram apenas dispositivos de primeira geração, e deixaram soluções mais novas como canetas, tanques e cápsulas de fora. As cápsulas, em particular, agora fornecem ainda mais nicotina por tragada aos usuários por meio de um modo diferente de entrega em relação dispositivos mais antigos, mas não temos ideia de como isso pode afetar o nível de exposição a essas toxinas. Sabemos que, em geral, as pessoas estão sendo expostas a muito menos toxinas ambientais ao usar cigarros eletrônicos do que fumar um cigarro de tabaco (embora isso não signifique que os cigarros eletrônicos sejam completamente inofensivos).

Como os próprios autores admitem, não há evidência científica apoiando “uma hipótese de que os atuais níveis observados de endotoxina e glucana em [cigarros eletrônicos] aumentam as preocupações com a saúde”.

Ainda assim, a endotoxina suspensa no ar e o glucano em níveis suficientemente altos parecem afetar os pulmões, e eles supostamente desempenham um papel no motivo pelo qual a fumaça do cigarro é tão prejudicial à nossa respiração.

Então, no mínimo, vale a pena estudar com que frequência essas toxinas podem ser encontradas em produtos de cigarro eletrônico e se a exposição crônica por meio do vaping pode representar algum risco para a saúde. Os estudos, inclusive, podem descobrir maneiras de reduzir o risco de contaminação. Os tufos de algodão, por exemplo, são frequentemente usadas em refis de cigarro eletrônico, e as fibras de algodão são rotineiramente contaminadas por ambas as toxinas.

“Pesquisas adicionais são necessárias para confirmar nossas descobertas e avaliar exposições potenciais e efeitos à saúde em usuários de [cigarro eletrônico]”, escreveram os autores.

Ainda que a discussão sobre cigarro eletrônico seja extensa nos Estados Unidos, no Brasil a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não tem regulamentação sobre cigarros eletrônicos. O órgão cita que não há segurança comprovada e que existem riscos para os consumidores.