Não é novidade que a Covid-19 ainda intriga médicos e pesquisadores. Os efeitos colaterais da doença estão sendo descobertos ao longo da pandemia, o que pode dificultar tratamentos e o próprio diagnóstico. Sabe-se que mesmo após receberem alta, algumas pessoas continuam com complicações em diversos órgãos e funções corporais e precisam de acompanhamento contínuo — é a chamada Covid longa.

Porém, uma pesquisa que investiga os efeitos do uso de canabidiol (CBD) medicinal nesses pacientes está prestes a iniciar a fase 3, com testes em voluntários humanos. Segundo o coordenador do estudo, Edimar Bocchi, professor da Pós-Graduação da Faculdade de Medicina (FM) da USP e cardiologista do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas, inicialmente o foco do estudo era pacientes com insuficiência cardíaca. “Com o estudo das propriedades dessa medicação, nós também tivemos interesse em testar em várias outras circunstâncias cardiológicas”, afirma Bocchi ao Jornal da USP.

Assim, o avanço dos testes estão em fase de análise nas comissões de ética. O estudo avaliará a resposta do canabidiol na comparação com placebo em cerca de 300 pacientes ao longo de três meses. “Os pacientes selecionados terão que apresentar um comprometimento importante da qualidade de vida pelos sintomas pós Covid ou um comprometimento da capacidade de exercício.” A previsão é que os essas pessoas sejam selecionadas a partir de novembro.

De acordo com Bocchi, o medicamento já foi testado com sucesso em outras condições que apresentam algumas semelhanças com a infecção, como dor crônica e pós câncer — por isso, as expectativas dos especialistas para a eficácia do tratamento são altas. Os estudos serão realizados em parceria com a empresa canadense Verdemed.

O que é Covid longa?

A Covid longa ocorre quando alguns sintomas persistem 60 dias ou mais após o início da infecção. Eles incluem fraqueza muscular, insônia, dores de cabeça e problemas psiquiátricos, como depressão e ansiedade. Pesquisas mostraram, também, que a fadiga persistente está presente em pelo menos 62% dos pacientes.

Parte disso decorre de uma resposta imunológica exagerada do organismo ao vírus. Essa reação, por sua vez, leva ao desequilíbrio da produção de proteínas do sistema imunológico, as citoquinas.

De acordo com estatísticas internacionais, o problema afeta cerca de 20% dos pacientes. Além disso, um em cada dez pacientes apresenta problemas após oito meses. Em geral, ele aparece em pacientes que tiveram quadros graves da doença. Porém, essa modalidade já foi diagnosticada em quem nunca chegou a ser hospitalizado.

Como funciona o canabidiol?

O canabidiol é um dos princípios ativos da Cannabis sativa. Ele tem sido amplamente estudado pela medicina pois pesquisas já comprovaram sua eficácia contra diversas doenças, como esclerose múltipla, dores crônicas, epilepsia e até depressão.

Além disso, ele age contra quadros inflamatórios graves — e é por isso que a equipe da USP quer aplicá-lo em quem sofre com a Covid longa. “Estudos internacionais já demonstraram o efeito anti-inflamatório do CBD, que pode ajudar a controlar essa ‘tempestade de citoquinas'”, diz Bocchi ao jornal Estado de São Paulo.

Segundo um levantamento da Folha de S. Paulo, 38 países já regularam de alguma forma a Cannabis medicinal, incluindo o Brasil. A Alemanha, a França, o Canadá e os Estados Unidos também estão incluídos na lista.