O planeta está em colapso total, mas as empresas gostariam que você soubesse que está tudo bem e que elas vão nos salvar.

Na última semana— oficialmente, a Semana do Clima — teve um monte de promessas, planos, compromissos, juramentos sagrados e pactos de sangue de empresas como Walmart, Amazon e Microsoft sobre como reduzirão suas pesadas pegadas de carbono no planeta. Esses anúncios foram precedidos por outros na semana anterior, feitos por Facebook e Google, e uma série de compromissos nos últimos meses das gigantes de petróleo para reduzir as emissões e entrar no jogo das energias renováveis.

O número de empresas e a variedade de promessas e prazos é muito para se acompanhar. Mas os compromissos corporativos tendem a se intensificar à medida que o mundo avança em direção a um futuro mais quente, então entender o que é bom, o que é ruim e o que deve acontecer se torna ainda mais vital.

O primeiro passo para entender os planos climáticos corporativos é que todas as suas razões para ser cético são válidas. As grandes corporações são movidas por um objetivo: tentar separar você do seu dinheiro. E elas têm feito isso tradicionalmente de uma maneira.

“As empresas ganham dinheiro com a exploração do meio ambiente e outras coisas”, disse Jessica Green, cientista política da universidade de Toronto, em conversa por telefone. “É um fato fundamental. A extensão de recursos a serem destinados para as empresas tem uma correlação forte com o quanto você acredita que o capitalismo será capaz de lidar com a crise climática”.

É verdade que usar recursos de forma mais eficiente pode fazer os titãs da indústria economizarem dinheiro, aumentando ainda mais os lucros e o valor da empresa para os acionistas. Mas o uso eficiente de recursos ainda significa recursos sendo usados. E, como Green observou, “a premissa fundamental de todas essas corporações é crescer, e crescer significa extrair mais recursos, fabricar mais coisas e emitir mais CO2”.

Prazos muito longos

Os cronogramas apresentados pelas companhias podem ser outra maneira de determinar o quão sérios eles são. 2030 está próximo o suficiente para que as empresas possam ser responsabilizadas pelo público e pelos acionistas. Além disso, é quando começa a ficar um pouco nebuloso. Por exemplo, a enorme concessionária de energia elétrica Southern Company dos EUA se comprometeu a zerar emissões até 2050.

“Quando você assume essas promessas de longo prazo, em primeiro lugar, elas estão muito longe no futuro”, disse Leah Stokes, especialista em energia da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, em conversa por telefone. “2050 para eletricidade? Não vai rolar”.

Muito uso de crédito de compensação

Um outro sinal que o comprometimento não é tão real quanto parece é o uso intenso de créditos de compensação de carbono. Isso permite que as empresas participem de projetos que sequestram carbono, como, por exemplo, o plantio de árvores enquanto continuam a poluir.

Além de evidências limitadas de que esses projetos realmente reduzem as emissões e o fato de que as florestas estão queimando a uma taxa alarmante em todo mundo, eles também têm sido usados para cometer abusos dos direitos humanos. Então, quando a Amazon, uma empresa multibilionária, depende fortemente da compra de compensações para plantar árvores na floresta amazônica ou apoia uma startup usando inteligência artificial para rastrear compensações, isso geralmente é um sinal de um plano climático pouco sério.

Esforço real por energia renovável

Em alguns casos, porém, há sinais genuínos de progresso. O Google anunciou que seria 100% renovável até 2030 em suas instalações. Seus datacenters consomem uma quantidade de eletricidade sobrenatural para manter pesquisas, vídeos e e-mails disponíveis a toda hora.

Como a maioria das outras empresas de tecnologia que reivindicam a neutralidade de carbono agora ou no futuro, o Google atualmente compra certificados de energia renovável, que têm problemas semelhantes a toda questão dos créditos de compensação, pois eles não descarbonizam a rede tanto quanto investem em energias renováveis. Mas a promessa do Google de 2030 de impulsionar diretamente suas operações é um sinal de um compromisso maior e a queda do preço das energias renováveis aproximam a empresa desta realidade.

“A única empresa que eu acho que é real e está fazendo coisas realmente boas é o Google. É realmente louco, tipo uma promessa do [ex-candidato à presidência nos EUA] Bernie Sanders, mas real”, disse Stokes, referindo-se ao plano de campanha presidencial do senador Bernie Sanders para levar os EUA a uma rede totalmente renovável até 2030. “Eles podem conseguir”.

Sustentáveis, mas queimando combustível fóssil? Não mesmo

Os grande mentirosos no jogo das promessas, porém, são as empresas de petróleo e gás, bem como as empresas de serviços públicos. Talvez não seja surpreendente, uma vez que são empresas que têm modelos de negócios enraizados e quase totalmente dependentes de combustíveis fósseis.

Na última quarta-feira (23), saiu um relatório mostrando que os planos climáticos das principais petrolíferas são em grande parte um jogo de cena. Muitos planos falham em abordar a maior fonte de emissões ou dependem de tecnologias ainda não provadas para captura de carbono, o que significa que as empresas continuarão a extrair petróleo com base em evidências fracas.

As concessionárias também usam estratégias semelhantes de grandes promessas de reduzir as emissões e ações que mostram o contrário (incluindo casos em que rola até corrupção!).

“Veja o exemplo da Southern Company [concessionária de energia elétrica dos EUA], que tem um plano de zerar as emissões em 2050”, diz Stokes. “Quando as subsidiárias deles Alabama Power e Georgia Power — que são empresas sujas — decidirem o que vão construir nos próximos anos, elas continuam propondo usinas de combustível fóssil. Então, quando as pessoas dizem ‘bem, por que empresas subsidiárias não estão trabalhando para cumprir o que a companhia controladora, a Southern Company, apresentou?’ Eles decidem no processo (de permissão) que essas promessas não se aplicam a nós”.

Incoerência

E isso em poucas palavras aponta para a maneira final de decodificar as promessas climáticas. As corporações dominam a arte de dizer que vão fazer o bem, mas o que realmente importa são as ações deles agora. E essas ações estão totalmente em desacordo com as promessas de longo prazo. O Facebook se comprometeu com a neutralidade de carbono até 2030, mas permite que a desinformação climática se espalhe em suas redes.

As empresas petrolíferas se comprometeram a controlar as emissões imediatas, mas se recusam a fazer qualquer coisa a respeito das maiores das maiores emissões derivadas de seus produtos que estão sendo queimados. A Amazon investiu US$ 10 bilhões em um fundo de capital de risco que faria a empresa ganhar muito dinheiro e, ao mesmo tempo, vender serviço de computação na nuvem para grandes petrolíferas.

Por fim, muitas dessas promessas são uma forma de evitar uma regulamentação mais significativa. As companhias estão usando-as para definir regras antidemocráticas que lhes são favoráveis e fazendo-as passar como se estivessem fazendo um grande serviço ao planeta.

“Nossa pesquisa mostra que as regulações na legislação onde é sua sede faz bastante diferença”, disse Green, se referindo ao estudo que ela publicou na última semana.

No cenário infernal da governança dos EUA, onde boa parte das empresas estão localizadas, é vital também olhar para quem as empresas estão dando dinheiro para tentar decifrar seus objetivos e o seus compromissos. E se a divisão de metade das doações corporativas de tecnologia para políticos e a generosidade das gigantes petrolíferas derramada nos republicanos for qualquer indicação, eles estão felizes com as coisas como estão. O que é um mau presságio para o planeta e todos nós que não geramos comunicados de imprensa com promessas.