Centenas de milhares de anos atrás, uma geleira avançou sobre o Noroeste Pacífico. Seu gelo formou uma barreira natural que dividiu os corvos em duas populações. Essas populações começaram a divergir em duas espécies distintas, que os ornitólogos determinaram serem distinguíveis por pequenas diferenças nas medidas corporais e nos sons que emitiam. Pelo menos, era isso o que eles pensavam.

Parece que hoje, depois de passar pelo processo de especiação por centenas de milhares de anos, essas duas espécies de corvos, o corvo do noroeste e o corvo americano, começaram a se unir novamente, de acordo com novas evidências genéticas. Os pássaros estão hibridizando ao longo de uma faixa de 900 quilômetros de extensão no Noroeste Pacífico, região da América do Norte situada entre o Oceano Pacífico e as Montanhas Rochosas também conhecida como Cascadia. O estudo mostra uma imagem mais complexa do que constitui uma “nova” espécie.

“Isso significa que a especiação não é um processo unidirecional”, disse Dave Slager, primeiro autor do estudo e doutorando em biologia na Universidade de Washington, ao Gizmodo. “Pode até ir ao contrário, às vezes.”

Os cientistas consideram que existem essas duas espécies distintas de corvos desde 1858. O corvo do noroeste é um pássaro das praias e mangues do Noroeste Pacífico. Ele é um pouco menor que o onipresente corvo americano e tem uma voz mais rouca, segundo ornitólogos e observadores de aves.

A extrema dificuldade em diferenciar esses pássaros tornou difícil para os cientistas saber se eles hibridizam e, se sim, com que frequência e com que abrangência. A informação genética recentemente analisada revelou uma resposta surpreendente a essa pergunta.

A equipe de cientistas da Universidade de Washington, do Museu Burke de História Natural e Cultura e o US Geological Survey coletaram amostras de corvos de ambas as espécies, incluindo 218 amostras de tecido congelado, 35 amostras de sangue e seis amostras de penas, além de amostras de tecido do corvo europeu para comparação. Eles analisaram o DNA dos núcleos celulares e mitocôndrias das aves e compararam dados das bibliotecas genéticas que geraram para determinar se os genomas dos corvos sugeriam histórias evolutivas separadas para as duas populações, bem como a frequência com que as aves hibridizavam.

Os corvos do noroeste e os americanos representam de fato duas populações separadas com histórias evolutivas separadas, de acordo com o artigo publicado na Molecular Ecology.

O DNA mitocondrial, um tipo que os animais herdam de suas mães, sugeriu que os pássaros começaram a se separar em diferentes espécies há cerca de 443 mil anos atrás, quando as geleiras estavam avançando e recuando pela América do Norte em ciclos de 100 mil anos. Uma dessas camadas de gelo teria dividido as populações e formado uma barreira através da qual a especiação poderia ter começado.

Mas os pássaros não deixaram que suas diferenças os impedissem de se misturar e cruzarem: eles hibridizam em uma zona de 900 quilômetros de extensão no oeste do estado de Washington, nos EUA, e na Colúmbia Britânica, no Canadá — uma área sete vezes maior que a média das zonas híbridas entre pares de espécies, de acordo com o estudo.

Talvez com o derretimento das geleiras, os pássaros oportunistas expandiram seu alcance, entrando em contato e hibridizando. Embora espécies separadas tipicamente hibridizem em apenas uma área limitada, e embora os híbridos sejam tipicamente menos favorecidos por meio da seleção natural, esse não foi o caso aqui. Os dados genéticos mostraram que os híbridos de corvo faziam parte de linhagens híbridas que datam de várias gerações.

Um pesquisador não envolvido no estudo, Martin Stervander, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Oregon, disse ao Gizmodo que essa era uma pesquisa interessante.

“Ao longo dos anos, muitos alegaram ter observado diferenças consistentes entre corvos americanos e do noroeste, mas análises mais detalhadas revelaram que isso se devia em parte ao fato de as pessoas talvez desejarem encontrar padrões consistentes”, escreveu ele em uma mensagem no Twitter. Mas ele também apontou que seria valioso estudar a aparência dessas aves em conjunto com sua genética, a fim de estabelecer quais características cada linhagem estava contribuindo para os híbridos.

Slager não quis dizer explicitamente se ele achava que as duas populações deveriam ser fundidas em uma espécie ou permanecer espécies separadas, já que isso depende da Sociedade Ornitológica Americana. Mas ele apontou novamente para os dados, que mostram que nessa vasta faixa entre o Estado de Washington e a costa da Colúmbia Britânica, você não pode distinguir as duas espécies porque provavelmente não há corvos americanos ou do noroeste do país.

Outros pares de espécies, como a Setophaga coronata e a Setophaga auduboni (agora chamada apenas de Setophaga coronata), e a Larus thayeri e a Larus glaucoides (agora denominada apenas Larus glaucoides) foram fundidos pela Sociedade Ornitológica Americana por motivos aparentemente mais fracos que este.

O estudo mostra que as espécies não precisam ter limites nítidos, disse Claire Curry, bibliotecária de ciências da Universidade de Oklahoma, com doutorado em biologia evolutiva, em um e-mail ao Gizmodo. “A seleção natural e a dispersão estão em andamento, não congeladas em algum momento no passado, e é ótimo ter populações como os corvos para examinar a dinâmica.”

Os animais continuam mostrando que nosso conceito inventado de espécie é defeituoso e nem sempre está alinhado com o que acontece na natureza. Talvez, concluam os autores do artigo, existam outras zonas híbridas ocultas escondidas entre pares de outras espécies morfologicamente semelhantes.