Na sexta-feira (27), Donald Trump assinou um decreto determinando a restrição na entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana nos Estados Unidos durante 120 dias, incluindo Síria, Iraque, Irã, Sudão, Somália, Líbia e Iêmen. No caso da Síria, a suspensão tem efeito por tempo indeterminado. O decreto teve impacto imediato no país e causou confusão sobre a entrada de estrangeiros no país, já que tinha efeito até para as pessoas que possuíam vistos e Green Card. No domingo, o chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, anunciou revisão de parte da medida e afirmou que pessoas que possuem o Green Card poderão entrar.

Cientistas, estudantes e veteranos de guerra que cooperaram com o exército dos Estados Unidos no Iraque relataram que foram detidos, questionados ou negados de entrar no país. Uma advogada disse que agentes de fronteira checaram perfis do Facebook para conferir posições políticas de pessoas que aguardavam a liberação. O decreto de Trump dá prioridade para refugiados cristãos, enquanto muçulmanos ficam em segundo plano. Logo depois que o decreto passou a valer, muitos advogados foram para aeroportos prestar ajuda às pessoas retidas.

O decreto já mostra suas consequências. Cientistas, por exemplo, estão preocupados, como aponta essa reportagem do Gizmodo. Uma glaciologista iraniana que participaria de uma pesquisa na Groenlândia em abril não pode se reunir com seu grupo nos Estados Unidos. Enquanto isso, O CEO do Google, Sundar Pichai, pediu para que alguns funcionários retornassem ao país o quanto antes temendo que as restrições fiquem mais severas. 187 funcionários seriam afetados pela decisão de Trump.

Além dos diversos protestos que aconteceram nas cidades americanas, personalidades e líderes de empresas do Vale do Silício de posicionaram sobre o decreto.

Em um comunicado enviado à Bloomberg, o Google disse que “está preocupado com o impacto desse decreto e de quaisquer propostas que possam impor restrições aos seus funcionários e famílias, ou que crie barreiras em trazer grandes talentos para os EUA”. O CEO da companhia, Sundar Pichai, disse num comunicado interno que “é difiícil ver um custo pessoal desse decreto sobre os nossos colegas. Sempre fomos transparentes sobre nossa visão sobre os problemas de imigração e continuaremos a fazer isso”. O co-fundador do Google, Sergey Brin, foi visto num protesto no Aeroporto Internacional de São Francisco – seus pais entraram nos Estados Unidos como refugiados russos.

De acordo com o USA Today, o Google criou uma campanha de fundos de US$ 4 milhões que será destinada a quatro organizações que ajudam imigrantes: American Civil Liberties Union, Immigrant Legal Resource Center, International Rescue Committee, e UNHCR.

O CEO da Apple, Tim Cook, também enviou um memorando interno. Ele está em Washington se encontrando com senadores. “Em minhas conversas com as autoridades aqui em Washington nessa semana, eu deixei claro que a Apple acredita profundamente na importância da imigração – tanto para a nossa companhia quanto para o futuro da nação. A Apple não existiria sem imigração, muito menos prosperaria e inovaria da forma que fazemos”. Os pais biológicos de Steve Jobs eram sírios.

O Facebook, por sua vez, também demonstrou preocupações mas não atacou o decreto com a mesma determinação que outras empresas do Vale do Silício. Em um post no Facebook, Mark Zuckerberg disse que está “preocupado com os impactos dos recentes decretos assinados pelo Presidente Trump, especialmente com aqueles relacionados com a restrição de imigração”. Em um outro trecho ele diz que está “contente em saber que o Presidente Trump disse que irá “fazer alguma coisa” para os Sonhadores – imigrantes que foram trazidos pelo país quando jovens por seus pais”. O Buzzfeed News aponta que no sábado, um porta-voz da rede social adicionou que a empresa está “avaliando o impacto sobre seus funcionários e determinando qual a melhor maneira de proteger nosso pessoal e suas famílias de qualquer efeito adverso”. O posicionamento do Facebook foi um dos primeiros a receber fortes críticas. Um funcionário da empresa que é descendente de refugiados disse que alguns empregados estão preocupados e alguns apontaram desconfiança sobre a aproximação de Peter Thiel, membro do conselho do Facebook, com Donald Trump.

A Microsoft também recebeu críticas depois de fazer um comunicado que expressava “preocupações” e dizia que ajudaria seus funcionários afetados. No domingo, no entanto, eles adicionaram que o decreto é “errado e um passo fundamental para trás”. No LinkedIn, o CEO da companhia, Satya Nadella, deu uma declaração afirmando que “como um imigrante e como CEO, experimentou e viu o impacto positivo dos imigrantes na companhia, no país e no mundo”.

O Uber sofreu grandes protestos de usuários. No sábado, o CEO da empresa, Travis Kalanick, enviou um comunicado para os funcionários e publicou em seu Facebook uma declaração. “Nós estamos trabalhando num processo para identificar esses motoristas e compensá-los durante os próximos três meses para ajudar a mitigar alguns dos estresses financeiros e complicações ajudando suas famílias e colocando comida na mesa”, disse ele. Kalanick foi nomeado recentemente como um dos 19 conselheiros da administração Trump. A imagem da empresa se complicou quando eles retiraram a tarifa dinâmica da região do aeroporto Internacional John F. Kennedy em Nova York, onde taxistas preparam um grande protesto e decidiram parar as corridas.

Muitos viram a atitude como uma tentativa de boicotar o protesto dos taxistas. Rapidamente a campanha #DeleteUber tomou conta do Twitter e muitas pessoas acusaram a empresa de aproveitar a situação para lucrar.

A empresa se retratou e prometeu doar US$ 3 milhões para apoiar motoristas afetados, ajudando-os com questões legais.

Elon Musk, CEO da Tesla e conselheiro da administração Trump, enviou um tweet afirmando que “muitas das pessoas que serão afetadas negativamente por essa política são fortes apoiadores dos Estados Unidos. Elas fizeram certo, não errado e não merecem ser rejeitadas”. Recentemente, Musk apoiou Rex Tillerson, ex-CEO da petroleira ExxonMobil e provavelmente novo Secretário de Estado da administração de Trump.

O CEO do Netflix, Reed Hastings, atacou a decisão de Trump. “As ações de Trump estão prejudicando os funcionários da Netflix em todo o mundo, e são tão anti-americanas que dói a todos”, escreveu no Facebook. Twitter e Airbnb fizeram o mesmo, publicando algumas notas. O Airbnb, inclusive, decidiu oferecer moradia gratuita para refugiados e pessoas que não puderem entrar nos Estados Unidos.

Apesar de muitas das reações exporem preocupações sobre a própria operação das empresas, muitas delas revelam uma apreensão genuína com as mudanças que o decreto pode causar no avanço científico global. A tecnologia sempre se mostrou uma ferramenta poderosa de inclusão social e é importante que os líderes se esforcem em manter essa mensagem clara.

Imagem do topo: AP.