Em julho de 2012, uma onda de calor fez com que quase toda a superfície da camada de gelo da Groenlândia começasse a derreter, um evento inédito desde os registros via satélite. Um novo estudo mostra que esse derretimento em massa não foi apenas uma anomalia se comparado com os últimos 40 anos. Na realidade, algo assim não acontecia há pelo menos 350 anos.

Infelizmente, o estudo também sugere que 2012 pode ser um prenúncio daquilo que pode se tornar “normal”.

Publicado nesta quarta-feira (5) na revista Nature, a pesquisa descobriu que as taxas de derretimento da superfície da Groenlândia disparou nas últimas décadas e agora estão muito fora dos limites do que foi considerado como variabilidade natural durante os últimos séculos.

O rápido aumento no derretimento da superfície durante as últimas duas décadas em particular sugere uma resposta “não-linear” para o aumento das temperaturas. Isso significa que o aquecimento global que faz esse derretimento progredir poderia acelerar muito, contribuindo mais e mais para o aumento do nível dos oceanos.

“A lição de casa aqui é que apenas nas últimas duas décadas vimos esse aumento sem precedentes no escoamento”, disse ao Earther Sarah Das, glaciologista do Instituto Oceanográfico de Woods Hole e coautora do estudo.

Das e sua equipe da Universidade Rowan e de outros locais chegaram à conclusão ao examinar três núcleos de gelo no centro-oeste da Groenlândia e um núcleo de uma calota de gelo na costa que contém um histórico de eventos de derretimento dos últimos 350 anos.

O derretimento na superfície da Groenlândia ocorre quando a temperatura do ar fica acima do ponto de congelamento durante o verão.

Em altitudes mais baixas, a água derretida simplesmente escapa da camada de gelo. Porém, em altitudes mais elevadas, a água percola a neve porosa e compacta chamada firn, antes de se recongelar e formar camadas não muito diferentes das camadas de crescimento que encontramos nas árvores.

A borda aquosa de uma geleira no oeste da Groenlândia. Foto: Matt Osman/Instituto Oceanográfico de Woods Hole

O registro de longo prazo que os pesquisadores construíram a partir desses núcleos de gelo em camadas permitiu a eles encontrar uma ligeira tendência de aumento do derretimento na Groenlândia coincidindo com o início do aquecimento da era moderna, a partir de meados do século 19.

Mas, desde a década de 1990, e particularmente na última década, esse derretimento foi “além do esperado”, segundo Das. Os núcleos do centro-oeste da Groenlândia mostraram um aumento de 575% no derretimento da superfície nos últimos 20 anos em comparação com os tempos pré-industriais, enquanto o núcleo da calota de gelo mostrou um aumento de 275%.

A partir desses números, os pesquisadores estimaram que os níveis de escoamento superficial da camada de gelo aumentaram 50% nos últimos 20 anos em comparação com os tempos pré-industriais.

Esse estudo é apenas o último indicador de que as coisas não vão bem com a segunda maior placa de gelo do mundo. Uma análise de 2016 que utilizou dados de satélite descobriu que a Groenlândia perdeu um trilhão de toneladas de gelo entre 2011 e 2014.

Os enormes pedaços de gelo que saem das margens da Groenlândia costumam receber mais atenção. Porém, o escoamento constante de água de sua superfície é, atualmente, o maior contribuinte para o rápido declínio da região.

Como um próximo passo, Das gostaria de coletar mais núcleos para expandir os registros de derretimento de superfície. Embora os pesquisadores tenham conseguido demonstrar que esse registro de derretimento do núcleo de gelo pode ser aplicado na Groenlândia toda ao correlacionar o histórico recente com registros de satélite e previsões de modelos, a margem sudeste é uma área em que um núcleo independente ajudaria a verificar tendências.

O tempo está se esgotando para coletar dados desses núcleos. Muito em breve, o derretimento da superfície pode se tornar tão intenso que esses registros serão simplesmente perdidos, como está começando a acontecer nas calotas de gelo ao redor das margens da Groenlândia e em outros lugares.

“Já estamos vendo lugares onde o gelo está tão derretido que não conseguimos mais coletar registros”, disse Das.