Na terça-feira, o Facebook anunciou o banimento de oito páginas, 17 perfis e sete contas no Instagram nos EUA. Eles estavam envolvidos no que a rede descreveu como uma atividade política online “inautêntica” e um “abuso” da plataforma. A atividade não foi atribuída a ninguém em específico. No entanto, a insinuação foi clara. Em diversos pontos, a empresa fez comparações com uma organização russa acusada pelas autoridades dos EUA de tentar influenciar os eleitores do país durante as eleições de 2016.

Porém, ao menos uma das páginas deletadas esta semana era administrada por um grupo de americanos reais. Eles dizem estar sendo alvo do Facebook injustamente. Também alegam que estão sendo falsamente acusados de terem sido “involuntariamente” enganados ao ajudar a planejar um protesto. A manifestação está programada para acontecer em Washington, D.C., daqui a duas semanas.

A treta do Facebook com o MBL mostra mais uma vez que rede precisa de transparência

O Facebook, por sua vez, diz que a página que estava anunciando o evento foi fundada por um grupo que inclui pessoas sinalizadas como ameaças potenciais. Eles dizem que são indivíduos que estão provavelmente tentando influenciar a política americana a partir de fora do país, como fizeram os trolls russos há dois anos. Os ativistas reais, entretanto, dizem que o Facebook, neste caso, passou do ponto. A rede social teria pecado pelo excesso de zelo, talvez em uma tentativa de acalmar os ânimos de um Congresso hostil. Tudo isso acontece, vale lembrar, em meio de uma semana de péssimos resultados financeiros.

Apesar das diferentes narrativas, está claro que o Facebook está operando em um território que lhe é pouco familiar, sem muito critério. Os americanos caminham para outra eleição já cercada por ameaças de interferência externa. O Facebook, por sua vez, também não tem como evitar o medo de mais uma temporada de audiências em um Congresso irado, que invariavelmente vai acompanhar de perto e pegar qualquer passo em falso da empresa nas semanas e nos meses que virão.

A questão levantada pelos ativistas, cuja iniciativa de organizar um protesto foi prejudicada como um efeito colateral das derrubadas de terça, é esta: quem vai pagar o maior preço pela hipervigilância do Facebook? Atores estrangeiros obscuros que trabalham para confundir eleitores americanos? Ou cidadãos politicamente engajados que dependem em grande medida da rede social aproveitadora de dados para coordenar seus protestos legítimos?

“Nós não somos robôs. Não somos influenciados pelos russos. Nós somos organizadores locais”, diz Andrew Batcher, organizador ligado ao Shut It Down DC, um grupo mobilizado contra supremacistas brancos na capital nacional. “É ridículo saber quem você é e o que está fazendo e ainda assim ser acusado de ser uma marionete russa.”

Batcher também é um administrador da página anti-fascista Smash Racism DC, que era uma das seis páginas organizadoras do evento que foi apagado pelo Facebook na terça. Batcher e outros ativistas locais controlavam o evento “No Unite the Right 2”, um contra-protesto marcado para acontecer entre os dias 10 e 12 de agosto.

As datas coincidem com uma marcha neo-nazi planejada para Washington, D.C. Este último evento, segundo fontes, está sendo organizado por Jason Kessler, um dos principais nomes por trás da marcha supremacista branca “Unite the Right”, que aconteceu no ano passado em Charlottesville, Virginia.

Se acontecerem, os dois eventos marcarão o aniversário dos acontecimentos do ano passado naquela cidade. Na ocasião, Heater Heyer, de 32 anos, foi fatalmente ferida em um ataque de carro. O homem que dirigia o veículo que matou Heyer e feriu outras 19 pessoas tinha protestado um dia antes ao lado de membros do grupo supremacista branco conhecido como Vanguard America.

Durante uma conferência na terça, a diretora de operações Sheryl Sandberg, do Facebook, identificou o contra-protesto aos supremacistas brancos como o motivo de o Facebook vir a público.

(tradução: “Ontem, o Facebook deletou um evento de um protesto que eu e outros ativistas de D.C. estávamos organizando em resposta aos supremacistas brancos que estão vindo para a nossa cidade. O Facebook apagou todo o trabalho real de anti-racistas”)

O que diz a rede social

Segundo a rede social, “administradores não autênticos” de uma página chamada “The Resisters” se juntaram a outras cinco outras “páginas legítimas” para criar o evento que acabou deletado. Em um post na terça, o chefe de políticas de cibersegurança do Facebook, Nathaniel Gleicher, escreveu que as “páginas legítimas inadvertidamente ajudaram a gerar interesse pelo evento ‘No Unite the Right 2 – DC’ e postaram informações sobre transporte, materiais e locais para que as pessoas pudessem ir aos protestos”.

Só que os ativistas por trás dessas “páginas legítimas”, incluindo a comandada por Batcher, dizem que não eram participantes involuntários. Eles também alegam que o contra-protesto destinado a combater os extremistas brancos que querem reproduzir Charlottesville 2.0 não era o resultado de um agente malicioso estrangeiro. Eles dizem que, ao contrário, o Facebook conscientemente sabotou o trabalho de ativistas americanos que, por sua própria vontade, passaram semanas planejando se reunir em Washington e participar deliberadamente de uma manifestação.

“Foi um truque baixo para satisfazer os legisladores, evitar ações regulatórias e proteger a riqueza dos acionistas do Facebook”, diz um organizador do evento que pediu para não ser identificado. Ele nota que tanto Democratas quanto Republicanos aprovaram a ação da rede.

Outros organizadores, que o Facebook diz terem sido enganados para ajudar a organizar o protesto anti-fascista, começaram uma nova página no Facebook promovendo exatamente o mesmo evento. Só que, no momento em que este artigo está sendo escrito, ele tem dois mil participantes a menos.

Em um comunicado, os organizadores chamaram a remoção de seu evento de uma “censura” destinada a dificultar um “movimento real contra o fascismo e a supremacia branca”. Os organizadores acrescentaram que a única evidência de que um “mau indivíduo” estava envolvido era um único administrador da página “The Resisters” que, dizem, não fez nada para colocar o protesto de agosto para andar.

“Especificamente, organizadores locais colocam suas próprias mensagens, imagens e vídeos na página”, dizem. “Nós não promovemos nenhuma visão que não seja a nossa própria. A página The Resisters não tinha voz nisso. Nem qualquer tipo de ‘agente russo’.”

(tradução: “Há muitos organizadores de D.C. incríveis (e REAIS) trabalhando muito para rechaçar e abafar o ódio que virá em 12 de agosto para a cidade no Unite the Right 2. O Facebook parece ter confundido alguns de nós com agentes russos e deletou um evento legítimo.”)

Em uma thread no Twitter postada na terça, Brendan Orsinger, ativista de D.C. que tinha acesso de administrador a página “The Resisters”, escreveu que o Facebook “parece ter confundido alguns de nós com agentes russos e deletado um evento legítimo”.

Nem Orsinger nem nenhum dos ativistas que falaram com o Gizmodo parecem saber quem foi o responsável por criar a página. Mas eles também não se importam. Eles dizem que era uma ferramenta vital, que os permitia alcançar milhares de pessoas reais. E, em última análise, quem quer que tenha criado “The Resisters” não fez nada para organizar eventos reais, como o que foi derrubado pelo Facebook.

Outra ativista e estudante universitária, que trabalhava para uma organização educacional sem fins lucrativos e está atualmente organizando os protestos de D.C., disse que a decisão do Facebook a deixou genuinamente preocupada com sua segurança.

Ela conta estar com medo de se tornar o foco de alguma estranha teoria da conspiração da extrema-direita por ter seu nome ligado ao evento deletado. “Isso pode ter repercussões reais e perigosas”, diz. “É como se o Qanon ou o Pizzagate fosse publicado na primeira página do New York Times como sendo verdadeiro, mas combinado com a realidade de Charlottesville 2.0.”

Em meio a incidentes de violência cada vez mais comuns, além do próprio assassinato do ano passado em Charlottesville, a organizadora apontou um evento que aconteceu esta semana em San Antonio.

Lá, supremacistas brancos vestindo máscaras atacaram manifestantes que estavam acampados fora de uma unidade do Departamento de Imigração e Alfândegas, roubando e destruindo seus bens pessoais. Os agressores cantavam “Strong borders, strong nation” (em tradução livre, “fronteiras mais fortes, nação mais forte”).

Outros ainda externaram preocupações com os termos usados no blog do Facebook, que citavam a colaboração próxima com autoridades legais norte-americanas. Eles se mostraram inquietos sobre a possibilidade de ter suas informações pessoais compartilhadas com o FBI. O Facebook diz não ter passado nenhuma informação do tipo sobre os usuários legítimos. Os ativistas, porém, receberam a negativa com ceticismo.

De maneira semelhante, o Facebook fez observações sobre “agentes mal-intencionados” trabalhando de diversas formas para esconder suas identidades. A companhia disse que eles foram mais longe “que a Internet Research Agency (IRA) russa foi no passado”. Isso deixou os ativistas alarmados.

Muitos deles, particularmente os de D.C., usam ferramentas como o Tor Browser e redes virtuais privadas (VPNs) para se organizarem na rede. Esta mudança no comportamento foi causada pelas medidas tomadas anteriormente pelo Departamento de Justiça para conseguir os endereços de IP de milhares de visitantes de um site que promovia um protesto no dia da posse de Donald Trump.

O Facebook confirmou ao Gizmodo que o uso de ferramentas de privacidade não foi a única coisa que fez a empresa acreditar que as contas eram “sujeitos maliciosos”. Mesmo assim, a rede social se recusou a identificar outros comportamentos que levantaram suspeitas.

A derrubada calculada de uma página que promovia um protesto legítimo revela que a reação do Facebook à tumultuada eleição de 2016 pode ser tão disruptiva ao discurso político de americanos reais quanto o prejuízo trazido pela fábrica russa de trolls a 4 mil milhas de distância.

Também mostra que a rede pode vigiar sua própria plataforma de maneira insuficiente, ou ao menos precipitadamente, e, mesmo assim, ainda receber aprovação dos mesmos legisladores que passaram o ano passado inteiro ouvindo e interrogando executivos da empresa.

Além disso, parece improvável que o Facebook encontre em breve o equilíbrio buscado. Essa pode ser apenas a primeira de várias trapalhadas futuras.

“Não há nada mais perigoso para a liberdade de expressão online que políticos tecnologicamente iletrados gritando para as plataformas ‘fazerem alguma coisa’ em relação a um problema que é difícil de resolver”, disse Evan Greer, organizadora política de longa data e membro da Fight for the Future.

“Parece claro que, na pressa para fazer alguma coisa dar aos parlamentares o que eles queriam, acabaram silenciando um discurso político perfeitamente legítimo. Não poderia haver exemplo melhor para mostrar que este tipo de censura excessivamente zelosa não é a solução para os desafios reais que a democracia e os direitos humanos encaram na era digital.”

Imagem do topo: Getty Images