Em uma reunião no Canadá realizada em julho de 2018, chefes de espionagem da Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA – todos signatários de um tratado sobre inteligência, e popularmente conhecidos como “Five Eyes” ou Aliança Cinco Olhos – concordaram tomar ações para conter o crescimento global da Huawei, conforme aponta uma reportagem do Wall Street Journal publicada na última sexta-feira (14).

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De acordo com a reportagem, os membros do Five Eyes vêem a Huawei de formas diferentes – o Reino Unido é um grande comprador dos equipamentos de telecomunicações da companhia, por exemplo – mas todos concordaram que a empresa representa um risco de segurança com o argumento de que ela poderia espionar em nome do governo chinês:

As discussões tocaram nas preocupações sobre a capacidade de espionagem cibernética da China e a crescente expansão militar, segundo pessoas familiarizadas com a reunião. Um foco foi como proteger as redes de telecomunicações de interferências externas, segundo fontes.

Os membros do Five Eyes há muito tempo têm diferentes níveis de preocupação com a Huawei e outras fabricantes chinesas de equipamentos de telecomunicações. Os países diferiram acentuadamente a respeito da tolerância para com a Huawei, em particular, como fornecedora de suas operadoras nacionais de telecomunicações. Os EUA praticamente proibiram equipamentos da empresa, enquanto as operadoras do Reino Unido são grandes clientes. Refletindo essa divisão, uma pessoa familiarizada com a reunião disse que os participantes concordaram que uma proibição total em muitos países era impraticável.

… Após a reunião no Canadá, relatada pela primeira vez pelo The Australian Financial Review, alguns dos oficiais de inteligência que estiveram lá começaram a fazer comentários públicos incomuns sobre o que eles viam como uma ameaça crescente representada pela Huawei.

Oficiais de inteligência dos países envolvidos têm, nas últimas semanas e meses, levantado publicamente preocupações sobre a Huawei, sem entrar em muitos detalhes sobre as especificidades.

O diretor-geral da Diretoria de Sinais da Austrália, Mike Burgess, alertou que todas as redes de transporte e serviços públicos do país estavam em risco se as redes 5G estivessem abertas a ataques, por exemplo.

Já o chefe do Serviço Secreto de Inteligência Britânico, Alex Younger, disse que o Reino Unido precisa avaliar cuidadosamente se confia na Huawei com a expansão do 5G.

O chefe do Serviço Canadense de Inteligência de Segurança, David Vigneault, também levantou preocupações em geral sobre “o aumento da espionagem patrocinada por estados em áreas como o 5G”, mas não entrou em detalhes.

As autoridades de inteligência dos EUA têm sido alarmistas sobre a Huawei desde bem antes da reunião, e têm pedido aos aliados que sigam sua liderança e excluam a empresa na expansão de redes 5G. O WSJ escreveu que as autoridades alemãs, em particular, estavam céticas, sempre citando a falta de provas para essas medidas:

Os EUA têm pressionado as autoridades alemãs há meses para derrubar a Huawei, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto, mas os alemães pediram evidências mais específicas que demonstrem a ameaça à segurança.

De acordo com uma fonte, as autoridades alemãs e os executivos de telecomunicações ainda não encontraram qualquer evidência de problemas de segurança com os vendedores de equipamentos chineses.

No entanto, o WSJ também acrescentou que a Deutsche Telekom AG, a maior empresa de telecomunicações da Alemanha, estava revendo sua estratégia de compras devido às preocupações globais sobre a “segurança dos elementos de rede dos fabricantes chineses”.

A Associated Press informou no domingo (16), que as medidas dos países do chamado Five Eyes e seus aliados diminuíram significativamente a expansão global da Huawei, apesar da companhia negar que qualquer coisa esteja acontecendo:

A Austrália e a Nova Zelândia barraram a Huawei Technologies Ltd. como fornecedora de equipamentos para redes 5G. Eles se juntaram aos Estados Unidos e Taiwan, o que limita o uso de tecnologia da maior fornecedora global de equipamentos de comutação de rede. Na semana passada, a agência de segurança cibernética do Japão disse que a Huawei e outros fornecedores considerados de risco serão proibidas para compras governamentais.

Há algum ceticismo sobre a possibilidade de a Huawei realmente ser uma ameaça de espionagem (a empresa nega repetidamente) ou se as suspeitas são um pretexto para tentar impedir o crescimento da concorrência chinesa com empresas ocidentais.

“Nunca houve nenhuma prova real”, disse Andrew Kitson, chefe de pesquisa da indústria de tecnologia da Fitch Solutions, à AP. “Eles só precisam fazer algumas insinuações para que outros governos se levantem e pensem, ‘espere, mesmo que não haja provas, é um risco muito grande'”.

A empresa é líder mundial em equipamentos de redes móveis, e tem muita força particularmente na Ásia, África e Europa, representando 28% do mercado que gerou US$ 32 bilhões em vendas globais em 2017.

De acordo com a AP, há preocupações de que a exclusão da Huawei possa aumentar os preços e retardar a inovação, já que os países que impeçam a empresa de fazer parte dos planos de expansão podem ser forçados a contar com apenas duas grandes empresas: Ericsson (27%) e Nokia (23%).

Outras empresas no mercado incluem a fabricante chinesa ZTE e a sul-coreana Samsung Electronics Corp. A ZTE, no entanto, enfrenta muitas das mesmas restrições que a Huawei.

A Huawei também esteve nas manchetes recentemente devido a prisão de Meng Wanzhou, sua diretora financeira e filha do fundador da Huawei, Ren Zhengfei.

As autoridades canadenses recentemente detiveram Meng a pedido das autoridades dos EUA, pedindo sua extradição sob acusações de que ela teria enganado instituições financeiras ocidentais a fim de processar transações relacionadas a vendas de equipamentos de telecomunicações, o que infringiria um embargo com o Irã.

Como os EUA e a China também estão em meio a uma guerra comercial que só agora tem dado sinais de trégua, a detenção aumentou as tensões entre os dois países. A China advertiu sobre “graves conseqüências” se Meng não for libertada, enquanto rumores surgiram apontando que alguns funcionários da Casa Branca planejavam usá-la como uma espécie de moeda de troca durante as negociações.

“Isto é algo que definitivamente diz respeito à Huawei nesta fase, porque há um ângulo político e um ângulo de negócios”, disse à AP Nikhil Bhatra, pesquisador sênior da International Data Corporation.

[Wall Street Journal]