Enormes trechos da Amazônia estão tão secos que podem estar à beira de uma transição para um tipo totalmente diferente de ecossistema, alerta uma nova pesquisa publicada na Nature Communications.

Ecossistemas de floresta tropical são muito sensíveis a mudanças de precipitação, uma vez que sua rica folhagem que sustenta a vida selvagem depende da umidade recebida. Mas, devido às mudanças climáticas, as regiões tropicais do mundo estão se tornando mais secas. Com isso em mente, os pesquisadores queriam ver a resistência das florestas tropicais em todo o mundo a essa mudança de condições.

Para fazer isso, a equipe executou modelos de computador de diferentes condições climáticas, examinando onde as florestas tropicais do mundo poderiam sobreviver ao longo do tempo e quanta cobertura de árvores essas florestas teriam.

Os pesquisadores descobriram que as florestas tropicais da Indonésia e da Malásia são relativamente estáveis porque sua precipitação depende mais dos oceanos que as cercam do que da cobertura de copas de árvores.

A floresta amazônica, no entanto, é particularmente delicada e dependente de autorregulação. Os pesquisadores descobriram que grande parte da floresta já está recebendo tão pouca chuva que poderia iniciar uma transformação potencialmente irreversível.

“Em cerca de 40% da Amazônia, a precipitação está agora em um nível [tão baixo] em que a floresta poderia existir em qualquer estado — floresta tropical ou savana, de acordo com nossas descobertas”, disse em comunicado Arie Staal, autor principal do estudo e cientista ambiental. Staal, até recentemente, era pesquisador de pós-doutorado no Stockholm Resilience Centre e no Copernicus Institute of Utrecht University.

Isso não quer dizer que essas partes da Amazônia já sejam savanas; a mudança ainda levaria décadas para ser completada e envolveria a morte de espécies junto com mudanças fundamentais na cadeia alimentar. Mas a transformação começa com a falta de chuva e, uma vez que isso acontece, pode ser muito difícil reverter.

Recentemente, as estações chuvosas da região ficaram bagunçadas. Secas severas ocorreram três vezes desde 2005. Em algumas partes da Amazônia, a estação seca aumentou em quase um mês nos últimos 50 anos.

As florestas tropicais criam sua própria precipitação porque a umidade de suas plantas evapora e cai. Mas, à medida que as regiões ficam mais secas, a chuva fica mais escassa. Essa seca cria condições propícias para incêndios florestais, o que resulta em menos árvores. Isso cria um ciclo perigoso, porque com melhor folhagem haverá menos precipitação.

Os pesquisadores há muito alertam que, se essa tendência se tornar severa o suficiente, a floresta tropical poderá se tornar em uma savana, e relatórios recentes alertam que isso pode ocorrer durante nossa vida. Mas o novo estudo mostra que esta situação pode ocorrer antes do esperado.

Sem medidas urgentes, a crise climática terá um impacto ainda pior na Amazônia. A equipe fez simulações de computador nas condições climáticas que veremos se as emissões de gases de efeito estufa continuarem aumentando. Eles descobriram que, no geral, à medida que as emissões aumentam, a Amazônia se torna menos resistente a condições secas. As árvores têm menos probabilidade de crescer novamente, e a mudança para se tornar um ecossistema do tipo savana se torna mais provável.

Os pesquisadores se concentraram apenas nas mudanças relacionadas ao clima na Amazônia, mas a floresta tropical também é vulnerável por causa dos incêndios provocados pelo homem. Ultimamente, a Amazônia está queimando em uma taxa recorde, e a maioria das chamas foi feita por grileiros, incorporadores e fazendeiros. Isso agrava as condições que diminuem as chuvas, levando a floresta tropical à beira do colapso. Isso também significa que os cálculos do estudo podem estar subestimados.

Se a floresta tropical se tornar uma savana, estaremos todos em apuros. A Amazônia é uma das regiões de maior biodiversidade da Terra e sustenta várias comunidades indígenas. É também um dos maiores sumidouros de carbono do planeta. Com o tempo, a região se tornará cada vez menos capaz de desempenhar essas funções essenciais, caso não reduzamos nossas emissões de gases de efeito estufa e não protejamos a floresta amazônica.