No início deste mês, a Amazon disse aos funcionários que parassem de falar publicamente sobre seu plano climático inadequado ou corriam o risco de perder o emprego. Como resposta, 350 funcionários acessaram a página no Medium da Amazon Employees for Climate Justice (AECJ) na noite de domingo (26) para explicar por que a Amazon deveria reforçar seu plano climático, no que provavelmente pode ser classificado como um ato de desobediência em massa.

Os comentários sobre a AECJ são todos atribuídos publicamente a funcionários individuais preocupados com a crise climática e com o papel da empresa em causá-la. A iniciativa foi um ato de coragem e traz um risco real. Os funcionários desafiaram diretamente a ordem de uma empresa, colocando-os em risco de repreensão ou mesmo demissão. Mas a crise climática é um problema sem precedentes que requer ações sem precedentes (como por exemplo: greves em escolas, passeatas e até campanhas para angariar fundos com fotos de nudez). E isso certamente é inédito na indústria de tecnologia.

Em uma declaração fornecida ao Gizmodo pela AECJ, Mark Hiew, gerente sênior de marketing, explicou por que ele se juntou a seus funcionários para se manifestar, apesar do risco de represália:

“Os funcionários da Amazon querem manter uma cultura na qual as pessoas possam abordar livremente tópicos críticos como a crise climática global e discutir o papel e a responsabilidade de nossa empresa. Políticas que nos impedem de falar não funcionam para nós. Uma cultura compartilhada de respeito e confiança entre funcionários e empregador é o que é necessário para o nosso grupo atingir nossos objetivos e para a Amazon continuar inovando e prosperando no futuro. Temos medo da crise climática. Sentimos que há riscos potencialmente catastróficos se não falarmos sobre o que está acontecendo. Essas questões ameaçam a vida de milhões e precisamos nos manifestar”.

Vários funcionários citados no post da AECJ no Medium estão apresentando um argumento que vem sendo reforçado repetidamente. A Amazon desempenha um papel enorme na economia global e, consequentemente, na crise climática. E a empresa também se posicionou para ajudar o mundo a fazer grandes progressos para resolver o problema.

“O princípio fundamental da Amazon é Customer Obsession (“obcecado pelo consumidor”), agora é hora de ampliá-lo e nos tornarmos obcecados pela humanidade”, escreveu Mila Rahman, líder de pagamentos das parcerias de serviços de entrega da empresa, no post no Medium. “Com grande poder, vem uma grande responsabilidade – a Amazon deve fazer mudanças drásticas na maneira como opera, mudar as metas e os valores da empresa para ser um exemplo para outras companhias”.

Enquanto muitas empresas, incluindo Amazon, Microsoft e Google, têm discutido muito sobre ações climática, elas ativamente puxam alavancas que aceleram a crise climática, financiando discursos de negação e vendendo contratos para a indústria de combustíveis fósseis para permitir extrações mais prejudiciais. E as medidas que eles ofereceram para enfrentar a crise climática não são suficientes enquanto esses contratos de petróleo e gás continuarem.

Isso é particularmente verdadeiro para a Amazon, que estabeleceu uma meta de neutralidade de carbono em 2040. Compare isso com a Microsoft – que anunciou que teria uma taxa de carbono negativa em 2030 e eliminaria toda a poluição de carbono que a empresa já emitiu da atmosfera em 2050 – e o compromisso da Amazon é ridiculamente fraco (para ser franco, o plano da Microsoft também inclui trabalhar com empresas de petróleo e gás, por isso há muito trabalho a fazer). Alguns funcionários lamentaram isso, sugerindo que Bezos e a Amazon competissem com a Microsoft em um jogo de tentar não acabar completamente a Terra.

“Vamos nos comprometer a consertar nossa bagunça. Se a Microsoft pode fazer isso (se tornar negativo em carbono), por que não podemos?”, escreveu Austin Dworaczyk Wiltshire, engenheiro sênior de desenvolvimento de software.

A AECJ pressionou Bezos a ouvi-los sobre as mudanças climáticas na reunião de acionistas da primavera passada (ele nem sequer subiu ao palco) e organizou uma passeata em solidariedade aos jovens grevistas do clima em setembro. O grupo continuou se manifestando e a Amazon aparentemente não ficou muito feliz com isso. Mas as novas declarações  representam um outro nível de escalada, pois colocam os funcionários contra uma política da qual claramente discordam.

Os mais de 350 funcionários citados no post do Medium parecem violar diretamente essa política. O que é claro ao ler muitas das respostas é que os funcionários adoram trabalhar lá e estão profundamente comprometidos com a Amazon, dadas as muitas referências a Bezos e aos valores da empresa.

Mas muitos também veem corretamente a empresa na linha de frente do atraso climático que deixará o mundo em estado de ruína. A AECJ é um dos poucos grupos de funcionários de empresas de tecnologia que procuram pressionar grandes companhias, como Amazon, Microsoft, Google e outras, a mudar de rumo, não apenas em relação ao clima, mas também a vários outros perigos relacionados à tecnologia, como o aumento da desigualdade e de uma polícia estatal com mais poder e vigilância total. Essas empresas detêm controle maciço sobre as alavancas de poder que moldam a sociedade, o governo e o clima. E agora os funcionários dessas companhias estão usando as alavancas que podem para garantir que empresas como a Amazon não nos deixem viver em um cenário infernal de um estado de vigilância. Todos nós poderíamos aprender uma lição com eles.

O Gizmodo entrou em contato com a Amazon e atualizará este post se recebermos resposta.