O jornalista Glenn Greenwald foi denunciado por associação criminosa relacionada a crimes cibernéticos pelo Ministério Público Federal, sem ser investigado ou indiciado.

Greenwald recentemente ajudou a expor diálogos de procuradores e o juiz Sérgio Moro por meio de uma série de reportagens no site The Intercept e veículos parceiros. As mensagens vazadas incluíam dezenas de autoridades envolvidas com a Operação Lava Jato.

Os promotores alegam que Greenwald, um americano que vive no Brasil desde meados dos anos 2000, faz parte de uma “organização criminosa” que invadiu os celulares de funcionários do governo. Outras cinco pessoas foram denunciadas de crimes relacionados a uma “invasão de aparelhos de computador”.

Investigações da Polícia Federal revelaram que um grupo obteve acesso a mensagens de diversas personalidades por meio de uma brecha no sistema do Telegram. Um dos investigados, o hacker Walter Delgatti Neto, afirmou em depoimento que repassou o conteúdo das conversas para Greenwald.

Uma liminar do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedida em 2019, determinou que o jornalista não fosse investigado na Operação Spoofing. O MPF diz, em nota, que “provas coletadas na investigação demonstram que ele auxiliou, incentivou e orientou o grupo durante o período das invasões.”

Ainda segundo o MPF “durante a análise de um MacBook apreendido – com autorização da Justiça – na casa de Walter Delgatti, foi encontrado um áudio de um diálogo entre Luiz Molição [que supostamente invadia ‘terminais informáticos’] e Glenn.” É possível ler o diálogo na íntegra da denúncia, disponível neste link, a partir da página 57.

Como aponta uma reportagem d’O Globo, os diálogos revelados pelo MPF contrariam a tese de que Greenwald teria dado conselhos para Molição:

[…] o jornalista Glenn Greenwald não respondeu ao hacker Luiz Henrique Molição quando este o questionou se deveria invadir o aplicativo Telegram de outras autoridades e sugeriu que ele apagasse as mensagens obtidas por meio da invasão para que a identidade de sua fonte não fosse descoberta.

Greenwald disse ao Gizmodo em um e-mail nesta terça-feira (21) que há apenas dois meses a Polícia Federal no Brasil concluiu que ele não cometeu crime ao publicar as mensagens vazadas, e que Greenwald tinha “exercido extrema cautela como jornalista”.

Greenwald tem tido uma postura combativa com diversas figuras políticas no Brasil, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, que elogiou diversas vezes a ditadura militar brasileira que se estendeu de 1964 a 1985. O secretário da cultura de Bolsonaro foi demitido na semana passada depois de plagiar um discurso do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels.

“Essa denúncia – trazida pelo mesmo promotor que tentou processar criminalmente o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil por criticar o ministro Moro – é uma tentativa óbvia de atacar uma imprensa livre em retaliação às revelações que relatamos sobre o ministro Moro e o governo Bolsonaro”, disse Greenwald ao Gizmodo em um e-mail.

“É também um ataque ao Supremo Tribunal Federal brasileiro, que decidiu em julho que tenho o direito de ter minha liberdade de imprensa protegida em resposta a outros ataques retaliatórios do juiz Moro, e até um ataque às conclusões da Polícia Federal, que concluiu explicitamente após uma investigação abrangente que eu não cometi nenhum crime e agi apenas como jornalista”, continuou Greenwald.

“Não nos deixaremos intimidar por estas tentativas tirânicas de silenciar os jornalistas. Estou trabalhando agora mesmo em novas reportagens e vou continuar a fazê-lo. Muitos brasileiros corajosos sacrificaram sua liberdade e até mesmo a vida pela democracia brasileira e contra a repressão, e eu sinto uma obrigação de continuar seu nobre trabalho”.

Greenwald ficou conhecido em 2013 depois que ele e a cineasta Laura Poitras publicaram diversos artigos sobre os programas de espionagem da Agência Nacional de Segurança dos EUA no Guardian. Esse trabalho foi realizado em grande parte graças ao vazamento de informações do antigo contratado da NSA e da CIA, Edward Snowden, que fugiu dos Estados Unidos e vive atualmente na Rússia.

A denúncia do MPF não significa que as pessoas apontadas pelo MPF sejam culpadas. A Justiça precisará analisar a denúncia e decidir se será aberto um processo. Somente depois disso que os investigados viram réus e, ao final do processo judicial, são absolvidos ou condenados.

Colaborou: Alessandro Feitosa Jr