Atualizações sobre a pandemia do novo coronavírus surgem a todo momento, a ponto de desenvolvimentos acontecerem minuto a minuto. Mas obter as informações mais atualizadas sobre COVID-19 — e discernir o que é verdadeiro e o que é falso — têm sido dificultado pelo problema da desinformação. Ela se espalha como um incêndio, inclusive ajudada por autoridades que contam mentiras deslavadas sobre a doença e sua disseminação. Um estudo publicado recentemente feito por pesquisadores da Universidade de Stanford mostra como as fake news sobre o coronavírus começaram a se espalhar já no início do ano.

A pesquisa do Centro de Políticas Cibernéticas do Observatório de Internet de Stanford examinou várias acusações infundadas sobre as origens do surto do coronavírus nos últimos meses. Os pesquisadores buscaram plataformas sociais, como Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e Reddit em inglês, chinês e japonês para rastrear os assuntos.

Em particular, os pesquisadores examinaram a propagação e o desenvolvimento de teorias conspiratórias de que o vírus SARS-CoV-2 foi projetado por humanos e que os membros do exército americano que participaram dos jogos mundiais militares em Wuhan, em outubro do ano passado, teriam ajudado na disseminação da doença.

Esta última teoria da conspiração em específico, que não tem nenhum fundamento, foi compartilhada nas redes sociais inclusive por Zhao Lijian, um funcionário do Departamento de Informação do Ministério das Relações Exteriores da China. Semanas antes disso, houve alegações de que o coronavírus seria parte de uma guerra genética, uma conspiração que começou a pintar no início de janeiro, embora os pesquisadores tenham notado que posts anteriores a essa data podem ter sido removidos após as plataformas começarem a tomar ação contra desinformação.

No entanto, o estudo indica que desde o início das teorias da conspiração, elas tinham sido disseminadas — e espalhadas — em várias redes sociais, por mídias estatais e, eventualmente, por um funcionário público.

Os pesquisadores também descobriram que a narrativa sobre as origens do vírus a partir da mídia oficial chinesa mudou drasticamente ao longo de um período de semanas. Mas a disseminação de desinformação sobre o vírus não se limita apenas às autoridades e à mídia chinesa. Os pesquisadores também observaram uma teoria da conspiração do senador dos EUA Tom Cotton sobre a possibilidade de o vírus ter sido criado em um laboratório. Esta teoria sem fundamento foi compartilhada por Cotton na Fox News.

Os pesquisadores observaram que este compartilhamento de informações de fontes oficiais e não oficiais durante um período de extrema incerteza fez com que houvesse uma espécie de tempestade perfeita de fake news sobre a doença.

“Em tempos de incerteza, especulação, jogos de culpa política e vigilância contínua é fundamental o cuidado para avaliar e compartilhar informações — mesmo, ou às vezes especialmente, quando vêm de canais estatais”, escreveram os autores. “As empresas de mídia social precisam manter seus esforços para remover proativamente a especulação e desinformação infundadas em suas próprias plataformas, independentemente de quem as publica. Cidadãos e jornalistas devem questionar as intenções de quem promove conteúdos online podem ter antes de possivelmente amplificar a vozes enganosas.”

O estudo de como essa informação se espalha também é um bom lembrete de que mesmo atores presumivelmente bem intencionados podem compartilhar informações enganosas, presunçosas ou errôneas. Por exemplo, o cofundador da Apple Steve Wozniak tuitou que ele e sua esposa poderiam ter sido o “paciente zero” de COVID-19 nos EUA. Ou, de forma imprudente, funcionários americanos e chineses afirmando publicamente que o vírus é um arma biológica feita em laboratório.

Infelizmente, a realidade é muito mais sombria que os teóricos da conspiração podem imaginar.