A Magic Leap finalmente nos mostrou alguma coisa. Depois de US$ 2 bilhões de financiamento e alguns anos de vazamentos, vídeos provocativos e dicas do que viria por aí, a companhia tem algo concreto. Um produto verdadeiro que alguém conseguiu tocar com as próprias mãos.

• O Magic Leap está muito atrás de concorrentes, como o HoloLens da Microsoft

A empresa anunciou o Magic Leap One Creator Edition nesta quarta-feira (20), e o pessoal da Rolling Stone descreveu como é utilizar o dispositivo. É um texto longo, mas que revela exatamente o porquê de a empresa ter conseguido tanta grana ao longo desse tempo.

É um dispositivo de realidade aumentada que realmente é capaz de interagir com o ambiente no qual você está inserido – o produto tenta vender toda uma nova maneira de perceber objetos virtuais 3D e exige que você use uns óculos estranhos.

A empresa diz que planeja começar o envio do produto para os desenvolvedores em algum momento de 2018, sem nenhuma previsão exata. Ele exige, além do headset, um pequeno e simples dispositivo que pode ser colocado na cintura. E tem um controle também.

O que pega mesmo são esses óculos (da foto acima, em toda a sua glória e feiura). Eu digo isso porque a tecnologia que a Rolling Stone descreveu é legal pra caramba. Até agora, a realidade aumentada tem sido um tipo de holograma mal feito sobre o mundo real. Vamos usar como exemplo o joguinho Jedi Challenges AR, lançado neste ano. Ele já está disponível, e assim como o Magic Leap One, utiliza um óculos para proporcionar a experiência. Aqui está o Kylo Ren nesta experiência.

Imagem: Disney/Lenovo

É bem óbvio que o Kylo Ren não está, de fato, no ambiente. Se você ficasse em pé entre mim e o personagem, ele não iria desaparecer. Ele ainda estaria lá, você ainda estaria na minha frente, e eu ficaria muito consciente de que Kylo Ren é uma falsificação total.

Mas de acordo com a reportagem da Rolling Stone, a experiência seria diferente se estivéssemos usando um Magic Leap One. O repórter Brian Crecente descreve uma experiência envolvendo um robô virtual em realidade aumentada:

O robô delicadamente apareceu no ambiente, flutuando ao lado de Miller. Miller, então, entrou no mesmo espaço em que o robô estava e desapareceu. Bem, a maior parte de Miller desapareceu, eu ainda podia ver suas pernas por trás da silhueta do robô.

Minha primeira reação foi, “é claro que isto acontece”. Mas aí eu percebi que estava vendo uma coisa ficcional, criada pela tecnologia da Magic Leap, escondendo quase que completamente um ser humano no mundo real. Meus olhos estavam vendo duas coisas existindo no mesmo lugar e decidiram que a criação, e não o engenheiro, era o real, e eu simplesmente ignorei Miller. Pelo menos foi assim que Abovitz me explicou depois.

Esse nível de interação entre o mundo real e os objetos virtuais em realidade aumentada é extremamente difícil de se alcançar. É algo bem importante.

Tão importante quanto, porém mais difícil de capitalizar, é o tipo de tecnologia que a Magic Leap usa no dispositivo para realizar a visualização de toda realidade aumentada. De acordo com a companhia, a tecnologia manipula o campo de luz que nos faz perceber o mundo.

Parece ficção científica. Não é. Cunhado pela primeira vez em 1936, o termo “campo de luz” lembra do campo magnético. Basicamente, é uma expressão que se usa para se referir a toda a luz que reflete os objetos. Câmeras e telas modernas interpretam uma pequena fração desse campo, e é por isso que as imagens capturadas pelas câmeras ou retratadas em displays são retas. O olho humano consegue interpretar muito mais do campo de luz, e campos artificiais geralmente esbarram em um problema ao criar mais dados do que conseguimos processar. Isso acontece porque os humanos, naturalmente, sabem que aquilo não é real.

Como a Rolling Stone explica, o fundador da Magic Leap, Rony Abovitz, postulou que, se você pudesse isolar a parte do campo de luz que o olho humano está acostumado a analisar, seria possível criar um campo de luz artificial focado.

Desta forma, as imagens geradas por computador, como as imagens virtuais bidimensionais que você vê ao usar um dispositivo de realidade aumentada, seriam tridimensionais. Isso seria muito mais realista do que aquela tecnologia de visualização 3D estereoscópica encontrada em TVs, jogos e cinemas de hoje em dia. Abovitz disse à Rolling Stone: “Eu chamo essa tecnologia estereoscópica de barata da indústria, porque simplesmente ela nunca morre e simplesmente precisa parar”.

Conforme a reportagem comenta, a tecnologia 3D estereoscópica existe há mais de 100 anos. As pessoas assistiam imagens saltitantes em shows de circo no final dos anos 1800 e início dos anos 1900. A mesma tecnologia apareceu nos óculos azuis e vermelhos dos anos 1960 e nos óculos cinzas dos anos 2000. Até mesmo os dispositivos de realidade virtual atuais utilizam uma variação da tecnologia 3D estereoscópica, que mostra para você a mesma imagem em ambos os olhos, mas com o eixo ligeiramente diferente, enganando seu cérebro e o fazendo perceber objetos 2D como objetos 3D.

A Magic Leap jogaria tudo isso no lixo (junto com a dor de cabeça que você pode ter ao visualizar conteúdo 3D por muito tempo). Pelo menos na teoria. E esperamos que isso aconteça mesmo, porque a maioria das pessoas precisarão de uma tecnologia realmente surpreendente para comprar um dispositivo desses. Lembra como a maioria das pessoas não ligavam muito para fones de ouvido Bluetooth até eles se tornarem dispositivos discretos? Esse é o tipo de coisa que a tecnologia precisará alcançar antes que as pessoas pensem em colocar um negócio estranho na cara.

Tipo, olha pra isso aqui.

Imagem: Magic Leap

Claro, é melhor do que aquela mochila esquisita que vazou no ano passado.

E não é tão ruim quanto os modelos de desenvolvedores de outros produtos de realidade mista, como o Oculus Rift original ou até mesmo o Microsoft HoloLens. Se formos comparar diretamente, os óculos Magic Leap One são legais e quase que elegantes. Para um desenvolvedor ansioso a mergulhar na mais doce experiência de realidade mista, a aparência do headset não prejudicará nada.

Mas, ainda assim, o que uma pessoa normal acha disso?

Imagem: Magic Leap

O carinha da foto é bem atraente, para falar a verdade. Mas com esses óculos, ele fica parecendo um bobão.

O cara basicamente está com um dispositivo que dá o primeiro passo em direção a um ambiente holodeck totalmente futurístico, e tudo o que eu tenho vontade de fazer é chamá-lo de nerd e zombar das escolhas que fez na vida.

O maior obstáculo que a Magic Leap enfrenta não é explicar a tecnologia de campo de luz artificial para as massas, mas superar o fato de que os usuários não vão querer se parecer a pessoa mais nerd no mundo só para ter experiência de realidade aumentada no nível da ficção científica. As pessoas não querem parecer nerds quando estão lidando com a tecnologia.

E a Magic Leap precisa saber disso. O Google Glass ainda está muito fresco na memória das pessoas. O que significa que a companhia tem confiança o suficiente de que pode entregar uma experiência tão incrível que a aparência passa a não importar. Os investidores também estão confiantes, ou eles não estariam colocando tanta grana nisso. O Magic Leap One parece ser muito legal, e eu espero que ele sobreviva a toda essa euforia inicial. Estou pronta para o futuro em realidade aumentada, mano.

Imagem do topo: Magic Leap