O surto do novo coronavírus que teve origem em Wuhan, na China, continua sendo assunto ao redor do mundo. Mais de 20 mil casos foram confirmados na Ásia, Europa, América do Norte e Austrália, e o número oficial de mortes já chega a 425, ultrapassando a letalidade do surto da SARS em 2002 e 2003.

A doença tem levado a respostas dramáticas tanto de governos como de empresas privadas, à medida que a emergência se agrava. A Uber suspendeu 240 contas de motoristas no México por preocupações de que eles possam ter contraído o coronavírus, enquanto o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, disse que o surto seria uma chance de atrair empregos para o país norte-americano.

A globalização sem dúvida apresenta um conjunto único de desafios para conter o surto do novo coronavírus, mas há uma história subjacente de racismo e medos xenófobos quando se trata de controle de doenças. E caras como Ross estão tentando capitalizar os medos aos quais até pessoas bem intencionadas podem revelar.

A ideia de enxergar lugares “distantes” povoados por pessoas não-brancas como “selvagens” ou “sujos” remonta a séculos atrás. E isso se estende às percepções em torno da saúde pública e das doenças. A África Ocidental foi já foi chamada pelos colonialistas como “o túmulo do homem branco” devido à taxa de doenças tropicais que exterminaram os colonizadores europeus. A Ásia foi igualmente estigmatizada por doenças que mataram os colonizadores brancos e os comerciantes.

De meados do século 19 a meados do século 20, as autoridades de saúde da Europa estabeleceram uma série de mandatos chamados Convenções Sanitárias Internacionais, que foram criados para responder à peste e à cólera, duas doenças que eles associavam à Ásia. Essas convenções acabaram por se tornar Regulamentos Sanitários Internacionais, um conjunto vinculativo de regras para todos os países em torno de questões de saúde globais. A Organização Mundial de Saúde coordena os regulamentos, o mais recente dos quais saiu em 2005, após os surtos da SARS e da gripe aviária nos anos anteriores.

É claro que tentar conter doenças não é algo inerentemente racista, mas os motivos por trás dos regulamentos podem revelar quem fica preso ao fardo da doença e quem mais se beneficia ao manter a doença sob controle.

“Essas regulamentações se concentraram em doenças provenientes em grande parte das colônias do hemisfério sul com potencial para se espalharem pelos portos europeus e americanos”, disse Alexandre White, sociólogo e historiador de doenças globais, ao Gizmodo, observando em um e-mail que, “por causa do papel essencial que a Índia e a China desempenharam no comércio internacional no século 19 (e anteriormente) os protagonistas imperiais europeus, ao convocarem as Conferências Sanitárias Internacionais, estavam particularmente preocupados em manter o comércio com suas colônias e parceiros comerciais mais lucrativos.”

“Isso levou ao aumento de um escrutínio particular e de preconceitos étnicos contra os asiáticos, especialmente os chineses migrantes e os indianos muçulmanos que viajam pelo mundo”, acrescentou.

Alexandre White apontou os surtos de peste nos anos 1900 em Honolulu como um bom exemplo de resposta xenofóbica à doenças. Em Honolulu, o governo colocou em quarentena os 7 mil residentes de Chinatown (um bairro predominantemente chinês).

Mais uma vez, colocar em quarentena pessoas com uma doença infecciosa mortal não é uma coisa ruim. Colocar as pessoas em quarentena por causa de sua herança hereditária, no entanto, é bastante racista.

E caso houvesse alguma dúvida de como as autoridades no Havaí encaravam seus esforços, eis o que C. B. Wood, um membro da diretoria de saúde do então território do Havaí, disse na época: “A peste vive e procria na imundície e quando chegou a Chinatown, encontrou o seu habitat natural.”

Depois que os casos começaram a se espalhar pela região, as autoridades municipais decretaram que qualquer prédio onde alguém tivesse contraído a peste deveria ser dizimado com fogo. Foram identificados 41 edifícios e todos foram incendiados, mas os ventos fizeram com que chamas e o fogo se espalhasse, destruindo quase todo o bairro de Chinatown. Quatro mil pessoas de ascendência chinesa ficaram desabrigadas e depois foram alojadas em centros de emergência.

White observou que San Francisco tomou uma atitude semelhante para enfrentar a peste, colocando fogo em sua Chinatown durante uma epidemia entre 1900-1904.

Mais recentemente, a comoção pública em torno do surto de ebola na África Ocidental, em 2014, também chama a atenção. Embora comunidades africanas não tenham sido queimadas nas cidades americanas, o pânico por causa de uma doença que infectou nove pessoas nos EUA foi maior do que o seu impacto real.

Uma parte do pânico acabou sendo bastante racista, como a hashtag #obola que ligava o então presidente Barack Obama à doença infecciosa, que ganhou tração a partir de teorias conspiratórias sobre a cidadania de Obama. Tivemos ainda relatos de discriminação em um bairro de Dallas no qual uma das vítimas do ebola havia visitado. A faculdade Navarro College chegou a enviar cartas de rejeição a candidatos nigerianos após o início do surto e até mesmo muito depois do último caso de ebola relatado no país.

“O pânico público aumenta quando as doenças são associadas ao ‘outro racial'”, disse Charles Adeyanju, sociólogo da Universidade da Ilha do Príncipe Eduardo, que escreveu sobre percepções de doenças, em um e-mail para o Gizmodo. “Isso não está relacionado com noções pré-existentes de diferença racial.”

A resposta ao coronavírus revela xenofobia em várias frentes. Placas que impedem pessoas de ascendência chinesa de entrar em estabelecimentos têm surgido no Japão e na Coreia do Sul. Até mesmo em cidades diversas como Los Angeles e Toronto, há relatos bullying em sala de aula e respostas racistas a uma avaliação na internet de um restaurante chinês. Em um post no Instagram que já foi excluido, a ala de saúde Universidade da Califórnia em Berkeley chegou até mesmo a normalizar literalmente a xenofobia, incluindo o termo em uma lista de “reações normais” ao surto do coronavírus.

No Brasil, uma estudante foi chamada de ‘chinesa porca’ por idosa no metrô do Rio. A mulher teria dito que a vítima, que é descendente de japoneses, ‘fica passando doença para todo mundo’. O caso foi registrado na Delegacia de Combate a Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) três dias após o episódio.

Os medos históricos em torno de doenças estrangeiras só se tornaram mais intensos em nosso ambiente político e informativo atual. Apesar disso, as redes sociais têm trabalhado para conter a desinformação. O Twitter, por exemplo, baniu uma conta com muitos seguidores depois de ter identificado conspirações sobre a origem do coronavírus – essa conta chegou a expor informações pessoais um cientista chinês e sugeriu que a China estaria desenvolvendo uma “arma biológica”. Conspirações subsequentes começaram a traçar ligações a espiões chineses, o que pode causar um forte sentimento anti-China entre as pessoas.

A ansiedade causada pela percepção da China como um poder rival à América do Norte e à Europa também colabora com esse sentimento.

“A partir da segunda metade do século 20, os chineses tornaram-se os ‘imigrantes modelo’ da América do Norte devido ao seu sucesso econômico”, disse Adeyanju. “Contudo, a sua ‘ascensão’ constituiu uma ameaça psicológica e econômica para as populações que outrora os ridicularizaram como menos do que humanos”.

Tudo isso para dizer que, embora o coronavírus represente uma séria ameaça e seja necessário fazer todos os esforços para contê-lo, não há razão para ceder às tendências racistas.

Se você estiver em um país como os EUA ou o Brasil, é mais provável que contraia uma forte gripe comum do que o coronavírus, e é mais provável que contraia qualquer doença dos seus próprios amigos e família do que de um imigrante ou turista.

Tomar precauções para a prevenção de doenças é muito mais útil para mantê-lo saudável do que evitar pessoas de ascendência asiática.