UTQIAĠVIK, ALASKA – Em uma pilha de lixo de mil anos de idade, com vista para um mar cor de chumbo, Anne Jensen balança a cabeça em desaprovação. Uma rajada de ar ártico chicoteia seu cabelo ao redor de seu rosto enquanto ela examina a casa bege dezoito metros acima de nós, em cima de um sítio arqueológico Iñupiat que está rapidamente erodindo em direção ao oceano.

“Nós temos enterrada no chão uma biblioteca de Alexandria. E a biblioteca está queimando.”

“Não é de admirar que eles queriam que eu viesse para cá’, resmunga Jensen. Ela começa subindo a pilha confusa de gelo permanente descongelado e entulho antigo para obter uma melhor visão.

“Eles precisam mudar aquela casa”, diz. “Isso não pode continuar.”

Nós estamos de pé sobre o banco de Ukkuqsi, um sítio a que Jensen, arqueóloga residente da Utqiaġvik, tem vindo acompanhar desde 1994, desde que o corpo congelado de uma menina que morreu há 800 anos emergiu. O povo Iñupiat viveu em e ao redor de Utqiaġvik (anteriormente Barrow) por mais de mil anos. Sua história tem acumulado no solo sob seus pés, preservada nos mesmos solos de gelo permanente que fundamentam a maioria de North Slope, no Alasca.

Mas, hoje, a mudança climática está fazendo essa história desaparecer.

As temperaturas ao longo do Ártico estão aumentando a duas vezes a velocidade média global, fazendo com que o gelo marinho recue rapidamente. Com menos gelo ao redor para amortecer sua energia, as ondas estão ficando mais poderosas e batendo na costa por mais tempo. Sítios arqueológicos da costa, como Ukkuqsi, estão sendo mastigados.

UTQIAGVIK, ALASKA – segunda-feira, 21 de setembro de 2017: Anne Jensen, antropóloga ártica e arqueóloga da UIC Sciences em Utqiaġvik, examina uma casa em cima do morro Ukkuqsi, um sítio arqueológico Iñupiat em rápida erosão localizado em Utqiaġvik. Fotografia: Ash Adams/Gizmodo

Além da erosão, a atmosfera mais quente está fazendo o gelo permanente do Alasca descongelar. Conforme isso acontece, resquícios incrivelmente preservados – roupas, casas de turfa, restos de comida e corpos humanos – começam a apodrecer.

“É como tirar alguma coisa do freezer”, explica Jensen.

É uma história que está acontecendo em todo o mundo, das geleiras nas montanhas até as ilhas do Caribe. Ao longo das últimas décadas, os arqueólogos têm observado alarmados conforme a história e o patrimônio são apagados com a elevação dos mares, o derretimento do gelo e a piora das tempestades. Os pesquisadores comparam os restos que somem a livros que contêm conhecimentos de valor inestimável sobre culturas, ecossistemas e climas passados.

“Temos enterrada no chão de uma biblioteca de Alexandria,” Thomas McGovern, arqueólogo da Hunter College que estava envolvido em escavações em todo o Atlântico Norte, diz. “E a biblioteca está queimando.”

À medida que caminhamos ao longo da falésia, Jensen vai tirando lixo do solo enegrecido. Pedaços de osso e barbatanas, pedaços de couro, estilhaços do que são, talvez, antigas ferramentas de pedra. “Foi uma grande, grande aldeia”, diz ela, virando um fragmento de um crânio de baleia. Eles eram frequentemente utilizados como um primeiro degrau para um túnel que levava a uma casa de inverno subterrânea. “Um lugar realmente ativo.”

Ela acrescenta, com um pouco de pesar, que todo o descongelamento, desmoronamento e erosão fez os materiais expostos perderem seu contexto arqueológico e sua relação com outros objetos, no espaço e no tempo, que permite aos pesquisadores aprenderem alguma coisa com eles. “Você pode encontrar algumas coisas interessantes, mas não há muita coisa que você possa fazer com elas”, diz.

Depois de mais alguns minutos contemplando a casa condenada no alto do monte, descemos nosso caminho até a praia, passando por sacos de areia preta pesados postos pelo governo local para manter a erosão controlada. É difícil dizer se eles estão tendo algum efeito. A falésia recuou cerca de seis metros nos últimos dez anos; muitos mais metros nas vidas de alguns dos anciãos de Utqiaġvik. Toda vez que há uma tempestade de outono, ela recua ainda mais, com ou sem os sacos de areia.

De volta ao seu laboratório, no Barrow Arctic Science Observatory, algumas milhas ao norte da cidade, Jensen me mostra artefatos de Walakpa, um importante sítio arqueológico costeiro cerca de 24 quilômetros ao sudoeste de Utqiaġvik que foi provavelmente ocupado e desocupado por cerca de três mil  anos. O sítio, que contém um extenso registro de culturas Birnik e Esquimó Thule, começou a erodir cerca de cinco anos atrás. As camadas mais antigas, mais profundas, que ficam à direita ao longo da costa, estão indo embora rápido.

“Você pode ver casas inteiras prontas para erodirem”, Anna Prentiss, arqueóloga da Universidade de Montana, me disse. “Casas em cima de casas. Este registro impressionante está prestes a ser levado embora.”

Com fundos do Ukpeavik Iñupiat Corporation e da National Science Foundation, Jensen liderou grandes escavações de resgate em Walakpa nos verões de 2016 e 2017. A escavação, que envolveu mais de três dezenas de voluntários no laboratório e no campo, descobriu plataformas de tenda, poços de armazenamento e sambaquis incrivelmente estratificados, pilhas de lixo que funcionam como uma fotografia da época. Jensen está esperando por pelo menos mais um verão de trabalho de campo para que possa terminar de escavar o fundo de uma casa que fica à direita na face que está erodindo. Um canto dessa casa já erodiu, e o chão na parte de trás está rachando.

“Você pode ver casas inteiras prontas para erodirem. Casas em cima de casas. Este registro impressionante está prestes a ser levado embora.”

“É muito óbvio que o sítio foi rachado ao meio”, Zac Petersen, que foi voluntário em Walakpa no verão passado, me disse. Ele está preocupado que a área de escavação esteja a apenas uma tempestade de desaparecer. O clima que ele viveu enquanto estavam acampados na costa durante o verão era alarmante”.

“Nós passamos por uma grande tempestade e tivemos que cavar uma trincheira enorme em torno de nossas barracas”, ele disse. “As ondas batiam contra o penhasco, e pedaços de terra estavam despencando. Uma tempestade como aquela no verão – definitivamente não é algo que qualquer um na cidade lembrava de acontecer.”

Charlotta Hillerdal, arqueóloga da Universidade de Aberdeen, na Escócia, está em uma corrida semelhante contra o tempo para escavar Nunalleq, uma aldeia Yu’pik do século 15-17 localizada à beira do mar de Bering, no sudoeste do Alasca. Como o sítio de Jensen, Nunalleq está ameaçada pela erosão –uma média de quase seis metros desde 2009 – e pelo descongelamento do gelo permanente.

Hillerdal estima que todo o sítio tenha cerca de uma década de vida ainda. Mas as áreas que ela está escavando ativamente, que são próximas da borda da erosão, “podem desaparecer neste inverno”, diz. Há muito a perder.

“A preservação é extraordinária”, Hillerdal me conta. “Temos cordas de grama, cestaria, praticamente uma amostra surpreendente da vida Yu’pik pré-contato deste período de tempo. O número de peças de qualidade de museu está na casa dos milhares.”

A preservação em Nunalleq é tão boa que os pesquisadores estão usando o material arqueológico para análises moleculares de alta resolução, diz Hillerdal. “Nós podemos fazer análise isotópica de cabelo humano para descobrir mais sobre sobre dietas passadas. Estamos fazendo estudos de DNA. Do ponto de vista científico, é imensurável.”

A frustração que Hillerdal enfrenta é uma que muitos arqueólogos com quem falei se identificam: conforme a tecnologia está permitindo que eles respondam a novas perguntas do registro arqueológico, o registro está indo embora.

McGovern tem colegas que trabalham na Islândia ocidental que recentemente reconstruíram a dinâmica populacional do bacalhau do Atlântico entre os séculos 16 ao 20, usando DNA isolado a partir de espinhas encontradas em aldeias de pesca abandonadas. Outro projeto piloto usou DNA antigo para identificar com sucesso meia dúzia de mamíferos marinhos de vestígios arqueológicos na Islândia, Groenlândia e Ilhas Faroé. Esses projetos sugerem que restos antigos, junto com ferramentas moleculares nascentes, podem oferecer uma visão das populações de animais muito antes da sociedade industrial. Tal informação poderia ajudar a fornecer informações para estratégias de conservação hoje em dia.

Informações vindas do registro arqueológico podem até nos ajudar a combater a mudança climática causada pelo homem. Afinal, como George Edwardson, presidente da Comunidade Iñupiat de North Slope, me fez lembrar, o povo do Ártico tem se adaptado às mudanças climáticas há milhares de anos, desde que seus antepassados migraram para o Alasca através do estreito de Bering. “Há muito que podemos aprender com o passado sobre resiliência ambiental”, diz Jensen.

“É uma trágica ironia que, conforme estamos melhorando os instrumentos e contribuindo para a pesquisa em mudanças globais, nossos conjuntos de dados estão sendo destruídos”, McGovern acrescenta.

Não é apenas no Ártico: um estudo publicado recentemente no periódico PLoS One identificou mais de 13.000 locais de patrimônio arqueológico no sudeste dos Estados Unidos que vão ser inundados por um metro de elevação do nível do mar, uma quantia que poderia acontecer até o final do século. O coautor do estudo David Anderson, da Universidade do Tennessee, em Knoxville, enfatizou que o número estimado de locais em situação de risco é provavelmente menosprezado.

“Os sítios arqueológicos registrados são apenas uma fração do que está lá fora”, diz, acrescentando que um “grande número” ainda não está no Registro Nacional. “Este é provavelmente o maior desafio que a arqueologia enquanto profissão tem enfrentado.”

De acordo com McGovern, a profissão precisa de um chamado à ação. A arqueologia precisa de pessoas no campo, fazendo a topografia, documentando e escavando o tanto quanto conseguirem, assim que conseguirem. Ele prevê um movimento similar ao esforço de coleta de núcleo de gelo da comunidade de ciência climática, que aumentou no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000 em resposta à percepção de que geleiras montanhosas da Terra estavam desaparecendo. Esses núcleos de gelo são agora armazenados em universidades, laboratórios e museus ao redor do mundo, onde os cientistas vão continuar a usá-los para estudar climas passados durante as próximas décadas.

A urgência da ameaça só agora está se tornando amplamente reconhecida. No ano passado, a Sociedade de Arqueologia Americana lançou um comitê sobre Estratégias de Mudança de Clima e Recursos Arqueológicos para “[pesquisar] o que está acontecendo com os recursos arqueológicos devido às alterações climáticas” e chegar a uma resposta estratégica. McGovern, que preside a comissão, recentemente se juntou a arqueólogos europeus numa importante conferência na Holanda para discutir as ameaças que pesam sobre o patrimônio cultural.

UTQIAGVIK, ALASKA – segunda-feira, 21 de setembro de 2017: Anne Jensen, antropóloga ártica e arqueóloga da UIC Sciences em Utqiaġvik, olha para alguns dos artefatos recuperados por sua equipe no início do ano no sítio de Walakpa. Foto: Ash Adams para o Gizmodo

“Foi praticamente uma unanimidade”, diz. “Todo mundo estava expressando grave preocupações com as mudanças climáticas.”

Mas segue indefinido quem financiaria um esforço global para levantamento e escavação de locais que estão sumindo — ou mesmo uma fração deles. Nos EUA, o National Park Service tem assumido um papel de liderança, tanto em termos de planejamento para os impactos das mudanças climáticas sobre locais de patrimônio cultural e quanto para o financiamento de pesquisadores que queiram estudar sítios ameaçados que residem dentro dos parques. Mas os fundos do NPS são limitados.

“Eu diria que temos o equivalente a quinze anos de propostas com o financiamento atual”, Dan Odess, diretor assistente associado do NPS Park Cultural Resources Programs, me diz. “E eles continuam chegando.”

“Sob este governo, é claro que não vai acontecer nos Estados Unidos,” George Hambrecht, arqueólogo da Universidade de Maryland, diz quando questionado sobre a possibilidade de um esforço em grande escala para escavar sítios ameaçados. “Mas há evidências de que os europeus e [agências de financiamento] chinesas vão pegar um tanto da pesquisa.” Vários outros arqueólogos ecoaram esse sentimento.

Ainda assim, Hambrecht acrescenta: “Não há absolutamente nenhuma forma de sermos capazes de salvar tudo”.

Odess concorda. Sua própria pesquisa arqueológica está focada no Leste Ártico canadense, uma vasta extensão de florestas pouco povoadas e de tundra com apenas um punhado de projetos de escavação que ocorrem durante a temporada de campo. Ele acha que os arqueólogos precisam envolver as comunidades locais e indígenas, a fim de decidir quais sítios valem a pena salvar. Afinal, muitos sítios, como aqueles em torno de Utqiaġvik, são profundamente significativos para as pessoas que vivem lá hoje.

“Não há absolutamente nenhuma forma de sermos capazes de salvar tudo.”

“Há parentes das pessoas por aí”, diz Jensen, apontando que cada vez que uma tempestade expõe novos restos humanos em um dos sítios, ela recebe um telefonema. Se possível, uma escavação é organizada, e os restos são dados para a cidade para o repatriamento e enterro em um cemitério moderno. “O sentimento dos anciãos é, obviamente, não deixar que essas pessoas caiam no oceano.”

“Conforme as pessoas se tornam mais conscientes da sua herança, elas ficam mais propensas a querer preservá-la”, diz Tom Dawson, arqueólogo da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Dawson sabe do que está falando. Por quase 20 anos, ele tem liderado a SCAPE (Scottish Coastal Archaeology and the Problem of Erosion), um esforço para registrar, preservar e monitorar a erosão de sítios arqueológicos ao longo da costa escocesa, reunindo acadêmicos, agências do governo e as comunidades locais. É um dos mais antigos e mais bem-sucedidos esforços de salvar sítios arqueológicos ameaçados pela mudança ambiental. E o programa é profundamente dependente do apoio local.

“Tomamos medidas em locais que as comunidades escolhem”, disse Dawson, observando que a SCAPE acaba de concluir uma pesquisa de campo de quatro anos que atualizou registros mais antigos em zonas costeiras ameaçadas ao redor da Escócia. A pesquisa foi liderada pela comunidade, com os habitantes locais usando seus telefones celulares ou mapas para navegar para locais e avaliar a sua condição atual. A SCAPE está agora elaborando uma lista de ações prioritárias de locais com base nos resultados dessa pesquisa.

A SCAPE ajudou a Escócia a descobrir, documentar e preservar muitos lugares famosos e historicamente significativos, incluindo as Cavernas Wemyss, que apresentam a maior concentração in situ de esculturas dos pictos no mundo, o Eyemouth Fort, construído no tempo da Rainha Maria da Escócia pelos ingleses e depois reconstruída pelos franceses, e um raro sítio neolítico sob o monte queimado em Meur, em Orkney.

Ele também se tornou um modelo para a arqueologia de base comunitária em outras partes do mundo, inclusive na Inglaterra, Irlanda e País de Gales. Dawson visitou recentemente um programa de acompanhamento arqueológico de base comunitária, na Flórida, e se reuniu com pesquisadores em Maine que estão esperando para lançar um esforço similar.

“Eu acho que um monte de países está começando a, se não chegar à escavação real, a descobrir o que está em risco”, diz.

Mas, afinal, as listas de sítios vulneráveis e planos para examiná-los precisam dar lugar à ação – mais cedo ou mais tarde. Jensen se preocupa com o que vai acontecer se ela não puder voltar para Walakpa no próximo verão. Anos de corrida para escavar o patrimônio arqueológico de Utqiagvik antes que ele deslize para o mar lhe ensinaram que uma vez que um antigo assentamento começa a ir, ele pode ir embora rápido.

“Não é gradual”, diz ela. “Em alguns anos, não há nenhuma erosão, em outros, você perde um pedaço inteiro de uma só vez.”

Este artigo foi feito com financiamento da Participant Media, criadora de “An Inconvenient Sequel: Truth to Power”.

Imagem do topo: Chelsea Beck/GMG