À medida que a tempestade de poeira que se espalhou por toda a superfície de Marte se dissipa, cientistas da NASA aumentaram seus esforços para contatar o rover Opportunity, de quase 15 anos de idade, que está em silêncio desde 10 de junho.

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Alguns cientistas estão começando a ficar apreensivos, mas existe um plano em ação. A rede espacial de satélites de comunicação da NASA começou um período de 45 dias de “escuta ativa” na quarta-feira (12), durante o qual eles vão enviar sinais da Terra para Marte várias vezes ao dia. Receptores de rádio vão ouvir passivamente até janeiro de 2019, no mínimo.

“Acho que temos um plano em que, se o veículo estiver vivo, iremos ouvi-lo”, disse Steve Squyres , investigador principal dos rovers de exploração de Marte Spirit e Opportunity, em entrevista ao Gizmodo. “A questão é se ele está vivo ou não.”

Tempestades de poeira poderosas surgem em Marte a cada poucos anos, porém a mais recente foi provavelmente uma das maiores já registradas, segundo um comunicado da NASA. O que começou como uma tempestade pequena em maio logo tomou conta de todo o planeta. O rover Curiosity, abastecida por energia nuclear, está bem, mas os cientistas estavam mais preocupados com como o Opportunity, abastecida por energia solar, iria se sair, com a luz do Sol escurecida pela grossa camada de poeira.

Não é a baixa energia diretamente que mataria o rover. O Opportunity é equipada com uma caixa de eletrônicos quente, ou WEB, na sigla em inglês, que armazena equipamentos sensíveis à temperatura e garante que ela nunca esteja menor do que -40º C. Mas as temperaturas à noite em Marte podem alcançar níveis mais baixos do que -100º C.

Cada peça eletrônica dentro da caixa foi testada em -55º C, explicou Squyres, e a tempestade de poeira geralmente tem um efeito de moderação na temperatura, mantendo as noites mais quentes. Ainda assim, não está claro como o equipamento se comportaria em temperaturas inferiores a -55º C, ou como quase 15 anos de aquecimento e resfriamento mudariam a capacidade dos componentes de suportar o frio.

A NASA vai escutar ativamente o rover — ou seja, vai enviar sinais e esperar por uma resposta — por um período de 45 dias que começou nesta semana. Mas isso não significa que eles vão desistir depois desse período. “Se o veículo estiver de fato vivo, ele deve acordar e conversar conosco por conta própria”, disse Squyres. A NASA vai esperar um sinal potencial até pelo menos janeiro, já que, talvez, a poeira tenha se acumulado nos painéis solares, e um redemoinho de poeira passando pelo rover poderia limpar os painéis e despertar o veículo. É improvável, mas talvez aconteça.

A maratona da Opportunity. Imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS/NMMNHS

Atualmente, sentimentos conflitantes tomam conta dos cientistas. O Opportunity tem sido uma missão bastante bem-sucedida, aguentando quase 15 anos quando estava programada para durar 90 dias. Squyres, que tem trabalhado na missão desde 1987, lembra de quando o rover Spirit morreu após seis anos de operação, em 2010. Mas o Opportunity, diferentemente da Spirit, seria o fim desse projeto. Ainda assim, ele disse, “sempre senti que havia dois jeitos honráveis dessa missão terminar. Uma seria se simplesmente usássemos o rover até o fim, e a outra, se Marte o matasse”.

O Opportunity fez algumas observações importantes durante o seu tempo no Planeta Vermelho. “Encontramos as primeiras rochas sedimentares que mostraram evidências de água líquida em Marte”, disse Kirsten Siebach, geóloga especializada no estudo de Marte da Universidade Rice, em conversa com o Gizmodo. Então, o rover fez uma longa viagem até outra cratera, onde foi capaz de observar algumas das rochas mais antigas do planeta e ajudar a moldar nossa compreensão de como era a aparência de Marte. Ela percorreu 40,23 quilômetros pela superfície marciana durante sua operação.

Apesar das expectativas superadas, perder o Opportunity seria uma derrota para a ciência atual. “O Opportunity é o único rover explorando a época mais antiga da história de Marte, quando fortes evidências indicam que o planeta era mais quente, mais molhado e talvez parecido com a Terra naquela época e quando a vida surgiu aqui”, afirmou Matthew Golombek, cientista de projeto da missão Mars Exploration Rovers no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em entrevista ao Gizmodo. O Opportunity estava no meio da condução de mais pesquisas, estudando pequenos barrancos que parecem ter sido esculpidos por gotas de água líquida. Se o rover se perder, entender como esses barrancos realmente se formaram será mais um problema que, por ora, não será resolvido.

Seibach explicou que carreiras inteiras foram construídas a partir de dados da Opportunity e que é um ativo ter vários rovers. “Se você pousar uma missão na Terra em Nova York e tentar entender como é toda a Terra, você terá uma percepção distorcida”, ela disse.

Agora é torcer para que o Opportunity entre em contato conosco. Porém, mesmo que isso não aconteça, a missão tem sido um tremendo sucesso. “Antes de pousarmos, eu subestimava demais Marte”, disse Squyres. “No fim das contas, Marte é muito mais complicado e interessante do que imaginávamos.”

[NASA]

Imagem do topo: NASA/JPL-Caltech