O aquecimento global está reduzindo as taxas de oxigênio dos oceanos. Você sabe, aquela pequena molécula necessária para que nós – além de uma série de formas complexas de vida – possamos viver.

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A razão é simples. Segundo conceitos básicos da termodinâmica, a água fria pode conter mais gases dissolvidos do que a água quente. À medida que nossa atmosfera cada vez mais quente aquece a superfície do oceano, as taxas de oxigênio começam a cair. Além disso, com a água mais aquecida, ela se expande e se torna mais leve. Isso faz com que seja menos provável que ela afunde, o que reduz o transporte de oxigênio da atmosfera para o oceano profundo.

Tudo isso é ciência estabelecida. Sabe-se também que a taxa de oxigênio nos oceanos varia a todo momento por causa das mudanças nas condições meteorológicas, estações do ano, latitude e padrões climáticos de longo prazo como o El Niño. No entanto, um estudo publicado na Global Biogeochemical Cycles é o primeiro a mostrar que o teor de oxigênio está diminuindo devido à mudança climática.

“Em vários trópicos, esta redução, na verdade, está começando agora”, diz Matthew Long, oceanógrafo do Nacional Center for Atmospheric Research e um dos autores do artigo, ao Gizmodo.

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O mapa mostra quando o sinal de desoxigenação causado pelo aquecimento global se torna visível nos oceanos. Áreas azuis indicam onde o sinal já pode ser visto. Áreas cinzas não têm previsão de perda de oxigênio até o fim do século. Imagem por Matthew Long

Long usou simulações em supercomputador para modelar a concentração de oxigênio nos oceanos de 1920 a 2100, e trazer à tona a variabilidade natural de um aquecimento global. Em alguns lugares, o sinal já é bem visível: isso inclui parte do Oceano Atlântico entre o Brasil e a África; o sul do Oceano Índico; e o leste do Oceano Pacífico tropical. Até 2040, o modelo de Long prevê que as evidências da desoxigenação do oceano já estarão espalhadas por todo o mundo.

A redução na concentração de oxigênio pode ser pequena — em alguns casos, a quantidade é de apenas poucos pontos percentuais. Mas para muitos organismos, incluindo os humanos, um pouco de desoxigenação é a diferença entre ficar tonto, em estado letárgico, ou morrer.

E lembre-se: nós já vimos o que isso pode causar aos oceanos. É só observar a zona morta de 17 mil km² do Golfo do México: a poluição na água motivou o surgimento intenso de algas que afundam, se decompõem e consomem todo o oxigênio necessário para a vida na área.

O oceano inteiro não vai ficar sufocado. Mas se as projeções de Long estiverem corretas, nós começaremos a ver mais águas com baixos níveis de oxigênio, e mais zonas mortas, reduzindo os locais para habitat de animais – que já estão sendo afetados pela mudança climática, pela poluição e pela acidificação do oceano.

“Acho que é uma grande preocupação que o ecossistema do oceano se tornará mais fragmentado, haverá mais barreiras e algumas áreas se tornarão inabitáveis”, disse Long.

E se um monte de peixes fora d’água parece algo que não é problema seu, considere isto: metade do oxigênio que respiramos vem de um conjunto de pequenos organismos marinhos chamado fitoplâncton. Como ressalta Phil Plait, do Slate: “bagunçar o habitat do fitoplâncton é como colocar fogo em nossa própria casa, e é o que estamos fazendo.” É melhor que Elon Musk consiga cumprir a promessa de nos levar para Marte o mais rápido possível.

[Global Biogeochemical Cycles via National Center for Atmospheric Research]