Cientistas passaram os últimos 15 anos juntando dados sobre o Ártico em um relatório anual. E, o que ficou claro após 15 versões do relatório é que nada será o mesmo pelos próximos séculos. As mudanças estão acontecendo mais rápido do que se esperava.

Na última terça-feira (8), pesquisadores revelaram a última edição do relatório na conferência da União Geofísica Americana. O documento narra que, no último ano, tivemos transformações sem precedentes em todas as regiões do Ártico.

“Em 2006 estava claro que o Ártico estava mudando”, diz o relatório. “No entanto, a complexidade do tema era menos compreendida e a velocidade das mudanças que aconteceriam em apenas alguns anos não era esperada”, continua.

Esse ano serviu como um lembrete de cada aspecto das mudanças no Ártico. Nível do mar? Atingiu o segundo menor já registrado. Temperaturas? A segunda maior já registrada, com grandes regiões ficando entre 4ºC e 6ºC acima do normal. Incêndios? Fora do controle e sem precedentes.

O relatório coloca essas mudanças em contexto com as últimas décadas. Embora tudo seja chocante, os incêndios se destacam como exemplo do que está acontecendo na região. O documento, junto com outros apresentados na conferência, revela que as queimadas siberianas incendiaram ao menos 23 milhões de acres, uma área com aproximadamente seis vezes o tamanho das queimadas da Califórnia.

Alison York, especialista em fogo na Universidade do Alasca, disse que a área queimada não tem precedentes nos últimos 40 anos. Está apenas atrás de 2019, outro ano de grandes incêndios e que colaboraram para esse fenômeno em 2020. “Muitos dos incêndios de 2019 hibernaram só para voltar em uma nova temporada de fogo nas condições extremamente quentes de 2020”, disse York.

Outras pesquisas no início desse ano mostraram que as mudanças climáticas multiplicaram por 600 as chances de incêndios como os vistos em 2020 em meio a um calor de 40 ºC. As chamas ainda liberaram uma quantidade recorde de dióxido de carbono, à medida que o solo rico em carbono e as árvores viraram fumaça.

Isso e outras mudanças ao longo de 2020 são enormes pontos de exclamação em uma região com tendências de transformações aceleradas. As temperaturas, a relativa umidade e as precipitações são todas medidas usadas para prever os incêndios, que só cresceram nos últimos 40 anos.

O gelo do Ártico é conhecido por estar desaparecendo e trazendo grandes mudanças em geral; o degelo da Groenlândia, por exemplo, quadruplicou nos últimos 20 anos — resultando em índices cada vez maiores de crescimento do nível do mar. Em partes do Oceano Ártico, em que verões sem gelo são o “novo normal”, há um grande crescimento das temperaturas.

Jackie Richter-Menge, uma das autoras do relatório mostrou uma foto do gelo marítimo na primeira vez que ela foi para Prudhoe Bay, no Alasca, em 1982, e uma outra de quando ela foi em 2018. Na primeira imagem, tinha uma camada de nove metros de gelo, enquanto na segunda apenas um gelo quebrado boiando na água. “O Ártico chegou a um ‘novo normal'”, disse a pesquisadora.

As imagens chocam por mostrar as diferenças que Richter-Menge vivenciou em sua carreira. Mas, mais chocante ainda, é imaginar o que os pesquisadores das próximas décadas irão mostrar. Eles podem se lembrar de 2020 com saudades.