Uma nova pesquisa um tanto perturbadora, mas estranhamente engraçada, documenta polvos socando peixes durante sessões de alimentação colaborativas. Os polvos fazem isso principalmente por razões práticas, mas às vezes esses golpes subaquáticos parecem ser puramente maldosos.

Descobrimos tantas coisas perturbadoras este ano e, infelizmente, temos que acrescentar outro item à lista: os polvos gostam de socar peixes. Como os autores especulam em seu artigo, publicado na Ecology, esses golpes são lançados para “prevenir a exploração e garantir a colaboração”. Em alguns casos, entretanto, a violência dos polvos contra os peixes não pode ser relacionada a nada em particular. Em outras palavras, os polvos estavam sendo simplesmente babacas. Ou talvez há algo sobre esse comportamento que ainda não foi compreendido.

No total, os pesquisadores documentaram oito eventos distintos (vídeo aqui) em que os polvos podiam ser vistos socando peixes. Isso ocorreu no Mar Vermelho entre 2018 e 2019, na costa de Israel e do Egito. Os polvos realizaram “um movimento rápido e explosivo com um tentáculo direcionado a um peixe específico, que chamamos de soco”, escrevem os autores. As vítimas incluíam peixes-esquilo, tubarões galha-preta, peixes-cabra sela dourada e peixes-cabra do Mar Vermelho.

Tradução: Sabe-se que polvos e peixes caçam juntos, se beneficiando da morfologia e estratégia de caça um do outro. Como muitos se juntam ao grupo, isso cria uma rede complexa em que investimento e lucro nem sempre são equilibrados, resultando em mecanismos de controle.

A cooperação entre espécies é rara, mas acontece. Coiotes e texugos às vezes unem forças para caçar juntos, assim como garoupas e enguias. Em um tuíte recente, Eduardo Sampaio, coautor do novo estudo do Instituto Max Planck de Comportamento Animal e da Universidade de Lisboa, disse que polvos e peixes caçam juntos para tirar proveito dos atributos físicos e habilidades de caça especializadas um do outro.

Garoupas e outras espécies de peixes caçam junto com polvos em sessões que duram mais de uma hora. Os peixes atuam como sentinelas, vasculhando o fundo do mar em busca de uma refeição em potencial. Quando uma vítima é avistada, o peixe gesticula em direção à presa, o que coloca o polvo em movimento. O ágil polvo persegue a presa – às vezes tendo que alcançar rochas e recifes de coral – e os lucros de guerra são compartilhados entre o grupo.

Às vezes, no entanto, podem surgir conflitos e desigualdades. Nesta “complexa rede social de interações”, escrevem os autores, “mecanismos de controle de parceiros podem surgir para prevenir a exploração e garantir a colaboração”. É aí que entram os socos, “onde diferentes indivíduos de Octopus cyanea se envolvem em um deslocamento ativo de peixes parceiros [ou seja, socos] durante a caça colaborativa”, de acordo com o artigo. Os socos podem ser dados pelo polvo para manter o controle sobre o comportamento dos peixes, para banir certos peixes do grupo, para impedi-los de alcançar as presas, ou por razões puramente egoístas, ou seja, para obter acesso imediato a uma refeição, como os autores especulam.

Dos oito eventos, no entanto, dois não puderam ser imediatamente relacionados a um episódio de caça ou acesso a uma presa próxima. Esses golpes ocorreram “na ausência de benefícios imediatos”, e os autores sugerem duas possíveis motivações, conforme escrevem:

No primeiro, os benefícios são totalmente desconsiderados pelo polvo, e o soco é um comportamento maldoso… No outro cenário teórico, o soco pode ser uma forma de agressão com benefícios posteriores…onde o polvo “pune” aqueles que se comportam mal, em um esforço para promover o comportamento colaborativo nas seguintes interações.

Nesse último caso, isso significaria que os polvos estão planejando com antecedência para futuras sessões de caça, o que seria muito legal se fosse verdade. Bem, exceto pelo aspecto coercitivo, é claro.

E, de fato, ainda há muito a aprender sobre essas interações surpreendentes. Pesquisas futuras serão necessárias para validar as observações da equipe e as razões hipotéticas para esse comportamento. Mas eu não me surpreenderia com esses animais – os polvos são inteligentes, emocionalmente complicados e um pouco travessos.