O álcool tem muitos efeitos negativos bem conhecidos em nossa saúde, mas um novo artigo desta semana destaca em quais fases da vida a substância é mais prejudicial ao corpo e, principalmente, ao cérebro.

O artigo, publicado como um editorial no BMJ na sexta-feira, foi escrito por pesquisadores do Reino Unido e da Austrália: Louise Mewton, Briana Lees e Rahul Tony Rao. Mewton e Rao estudaram o envelhecimento do cérebro, enquanto Lees se especializou em saúde mental e uso de substâncias. Juntos, eles resumem grande parte da pesquisa atual sobre como o álcool pode influenciar o cérebro e o corpo ao longo de nossas vidas.

Como você pode esperar, a exposição ao álcool pode ser especialmente prejudicial nos primeiros estágios de desenvolvimento, começando quando o feto está no útero.

Sabe-se que o uso excessivo de álcool durante a gravidez aumenta as chances de crianças nascerem com deficiência neurológica vitalícia e outros defeitos congênitos — uma condição chamada transtorno do espectro alcoólico fetal. Os autores também apontam pesquisas que sugerem que mesmo beber de forma leve a moderada durante a gravidez pode ter efeitos negativos sutis sobre a saúde cerebral de uma criança mais tarde.

O próximo pico de perigo do álcool parece chegar quando estamos no meio da adolescência.

A pesquisa mostrou que os jovens de 15 a 19 anos costumam iniciar nessa idade seu hábito de beber em excesso, e esse consumo excessivo de álcool tem sido associado à diminuição do volume cerebral, conectividade das células nervosas e pequenos declínios na função cognitiva, observam os autores.

Finalmente, e talvez o mais surpreendente, vem os idosos (65 anos ou mais).

O consumo excessivo de álcool é menos comum em pessoas mais velhas. Mas aqueles com longos períodos de bebedeira são conhecidos por terem um risco maior de demência e declínio cognitivo quando atingem seus anos dourados.

Como os autores apontam, ainda há mais pesquisas que precisam ser feitas para mostrar a partir de qual nível o uso de álcool afeta negativamente o cérebro em vários pontos de nossas vidas. Alguns estudos, por exemplo, descobriram que a ingestão leve de álcool está, na verdade, relacionado à melhora da saúde do cérebro em pessoas mais velhas.

Mas esses tipos de estudos observacionais têm suas limitações, e outras pesquisas recentes sugeriram que na verdade não existe um nível “saudável” de consumo de álcool — apenas níveis relativamente mais baixos de risco. Mesmo o consumo leve tem sido associado a um risco maior de câncer, por exemplo.

Embora um mundo sem álcool pareça inimaginável (e, dado o que aconteceu da última vez que as pessoas tentaram proibi-lo, problemático, para dizer o mínimo), todos nós provavelmente poderíamos nos beneficiar de políticas que facilitem a redução do consumo regular, não importa se para jovens ou idosos.

“Uma perspectiva sobre a saúde do cérebro que leva em consideração as várias fases da vida dá suporte à formulação de políticas e intervenções de saúde pública para reduzir o consumo e abuso de álcool em todas as idades”, escreveram os autores. “Isso pode aumentar a longevidade e a qualidade de vida, reduzindo a prevalência de distúrbios do espectro do álcool fetal, desenvolvimento neurocognitivo aberrante na adolescência e demência na vida adulta.”