Fiquei triste com a saída da Nokia do mercado de smartphones em 2014. Eu curtia bastante os smartphones Lumia com Windows Phone – fosse pelas câmeras dos modelos mais caros ou pelo desempenho fluido até mesmo nos celulares de R$ 500. Deixou saudades.

Após muitas reviravoltas, a companhia desembarcou no Brasil seis anos depois – desta vez, sem nenhuma relação com a Microsoft. A marca Nokia agora é utilizada pela HMD Global, uma companhia finlandesa que licencia o os direitos de imagem e tem tentado emplacar no mercado. O primeiro modelo a chegar no Brasil é o Nokia 2.3, um Android básico com preço sugerido de R$ 899.

Tive a oportunidade de testar o aparelho e, infelizmente, fiquei desapontado. As expectativas já estavam alinhadas para um celular de R$ 899 e de especificações básicas, mas a experiência real não é das mais fluídas. Já adianto que este não é um telefone para você, que é ligado em tecnologia, mas para um público iniciante mesmo.

Visual e acabamento

É um celular que, por fora, é bonitinho. A tela IPS LCD de 6,2 polegadas tem cores bonitas e a resolução HD está dentro do padrão dos modelos de entrada. Além disso, ele tem um design que busca, dentro do possível, aproveitar o espaço frontal. O entalhe de “gota” abriga a câmera frontal e há relativamente poucas bordas.

Detalhe do Nokia 2.3Crédito: Alessandro Feitosa Jr/Gizmodo Brasil

A carcaça, ainda que de plástico, tem um visual aceitável com uma textura em linhas e cor degradê, que dá, digamos, um charme. A tela dele também é bacana: IPS LCD de 6,2 polegadas com cores vibrantes, nitidez e bastante brilho.

Nokia 2.3

Frente do Nokia 2.3

O que é?
Smartphone básico que marca a volta da marca Nokia ao Brasil.
Preço
R$ 899.
Curti
Bateria, Android atualizado, não tem bloatware.
Não curti
Pouca memória RAM, engasga e leva um tempo para abrir apps de forma fluida.

Mas não adianta muito tem esse visual moderno se faltam características comuns em aparelhos mais atuais. Digo especificamente da falta de um leitor de impressões digitais, que obriga a configurar um PIN para desbloquear a tela.

Para efeitos de comparação, o Philco HIT PCS01 que está na mesma faixa de preço, incluiu o sensor de impressões digitais.

Desempenho

O chip do aparelho, um Mediatek MT6761 Helio A22 (quatro núcleos de 2 GHz), somado aos 2 GB de RAM, fazem o dispositivo sofrer nas mais básicas das tarefas.

Durante meu uso, rolaram vários travamentos, porém com o tempo reparei que alguns minutos após a inicialização, ele realiza algumas tarefas sem engasgos. Aliás, os relatos de lags, travamentos e dificuldades de desempenho no Nokia 2.3 são amplos nos fóruns da HMD Global (em inglês).

Nokia 2.3Crédito: Alessandro Feitosa Jr/Gizmodo Brasil

Um exemplo: responder algumas mensagens pelo atalho das notificações do Android enquanto se assiste um vídeo no YouTube é impraticável. Até mesmo alternar entre os aplicativos é uma tarefa que exige bastante paciência.

E mesmo que você não queira ser tão exigente e não esteja consumindo vídeos, há momentos em que o teclado demora para subir, por exemplo.

É possível que uma atualização de software futura traga esperanças para quem já comprou o dispositivo, mas com essas especificações, eu não alimentaria essa ilusão. Ter 2 GB de RAM em pleno 2020 é um tiro no pé. Além disso, essa experiência é um bom indicador de vida útil do aparelho: ele deve ficar obsoleto em um tempo bastante curto.

Câmera

A câmera, no papel, tem números básicos: sensor de 13 megapixels e abertura f/2.2 somado a um sensor de profundidade de 2 megapixels, para fotos no Modo Retrato, com fundo desfocado.

A qualidade das imagens é mediana e a experiência é prejudicada pela performance geral, o que inclui o aplicativo da câmera. Até o clique sair, a cena já pode ter acontecido – o que é frustrante quando você quer capturar um momento. Não espere muita nitidez, mas isso não quer dizer que algumas fotos não possam ficar legais – em ambientes com bastante iluminação, até que a foto ficou satisfatória.

Me perdoem pela pouca variedade de fotos e cenários, estamos em quarentena no meio de uma pandemia.

Não consegui ter muito sucesso com o Modo Retrato, o software quase sempre indicava que eu deveria me afastar ou aproximar do objeto, em loop. De noite, a qualidade das fotos cai consideravelmente.

Autonomia de bateria

Traseira do Nokia 2.3Crédito: Alessandro Feitosa Jr/Gizmodo Brasil

Talvez um dos únicos pontos positivos do Nokia 2.3 seja a autonomia de bateria, que tem 4000 mAh: consegui passar todos os dias sem precisar levá-lo à tomada – talvez, em parte, porque é impraticável usar o aparelho por bastante tempo sem passar raiva. Talvez, essa seja uma grande sacada do Nokia 2.3: ajudar as pessoas que sofrem da dependência de estarem conectados.

De qualquer maneira, o processador da Mediatek não deve puxar muita energia e 4000 mAh é bateria pra caramba. Resumindo: não é preciso se preocupar com autonomia – dá e sobra.

Em termos de software, o Nokia 2.3 faz parte do programa Android One – voltado justamente para celular mais simples e com garantias de atualizações de segurança frequentes. Uma das vantagens desse programa é a ausência de aplicativos inúteis pré-instalados, que não se traduz em ganhos de desempenho (mas economiza alguns megabytes do armazenamento de 32 GB).

O interessante é que o aparelho já está no Android 10 e conta com recursos recentes, como o Modo Escuro, navegação por gestos, bateria adaptável, entre outros.

Conclusão

Nokia 2.3 de frenteCrédito: Alessandro Feitosa Jr/Gizmodo Brasil

Enquanto eu testava o Nokia 2.3, estava também com o Philco Hit PCS01 que está na mesma faixa de preços. A comparação entre os dois celulares é inevitável – ainda que o review do celular da Philco ainda não esteja pronto.

Por cerca de R$ 100 a mais, o Hit tem muito mais poder de fogo (ainda que também seja um celular de entrada, com suas limitações); por outro lado, o Android dele não é o mais atualizado, nem faz parte do programa One.

Ainda assim, o Nokia 2.3 tem desempenho fraco, o que tornaria pouco provável minha indicação, ainda mais para pessoas que usem muito o telefone e instalam diversos apps. Enfim, este telefone talvez valha apenas para usos muito básicos mesmo, para ser o primeiro telefone de alguém que quer usar o WhatsApp, navegar na internet e ter uma boa duração de bateria.

A reestreia da Nokia no mercado brasileiro deixou muito a desejar, ainda que outros modelos  da marca pareçam ser um pouco mais interessantes. Para o nível de entrada, a marca concorre com opções muito mais consolidadas como a linha Moto E, da Motorola.

A grande aposta da marca parece ser o fator nostalgia, um patrimônio que a marca tem de sobra com o público brasileiro — quando a empresa anunciou que voltaria ao Brasil, eles fizeram questão de destacar um monte de mensagens em redes sociais de brasileiros escrevendo “come to Brazil”. Porém, teria sido melhor uma volta mais impactante, pois geralmente a primeira impressão é a que costuma ficar.