Crianças nos EUA e na Europa estão enfrentando uma condição rara, que representa risco de morte e parece estar ligada ao COVID-19. Médicos que estão estudando a doença e alguns especialistas argumentam que ela não deve ser comparada a outro distúrbio raro em crianças, a chamada síndrome de Kawasaki. Em vez disso, parece ser uma doença distinta desencadeada pelo novo coronavírus.

No mês passado, pediatras no Reino Unido começaram a relatar uma aparente onda de casos peculiares: crianças com febre prolongada, erupções cutâneas e outros sintomas de inflamação generalizada, como olhos avermelhados. Algumas crianças experimentavam uma queda súbita e perigosa da pressão arterial, comumente conhecida como choque, que poderia privar seus órgãos de oxigênio e necessitar de terapia intensiva.

Muitas dessas crianças acabaram sendo testadas para coronavírus, seja por meio de um teste de PCR, que confirma uma infecção ativa, ou por meio de exames de sangue que buscam anticorpos contra o vírus. Muitos resultados foram positivos.

Aparentemente, a condição tinha uma grande semelhança com duas condições bem conhecidas mas raras em crianças: síndrome de Kawasaki e síndrome do choque tóxico. Assim, quando médicos e organizações inicialmente soaram o alarme para que outros médicos ficassem atentos a esses sintomas, eles frequentemente fizeram alusão a ambas as condições, principalmente à Kawasaki.

Agora, mais casos foram relatados nos EUA, com pelo menos 102 sendo investigados por autoridades de saúde em Nova York, segundo dados de 13 de maio. A doença de Kawasaki continua sendo referenciada por autoridades de saúde e meios de comunicação ao falar sobre a condição, mas especialistas ouvidos pelo Gizmodo dizem que essa não é mais uma maneira útil de encarar a questão.

“Os pediatras são treinados para pensar na doença de Kawasaki quando veem febre, olhos vermelhos, lábios vermelhos e erupção cutânea em crianças”, diz Stanford Shulman, especialista em doenças infecciosas pediátricas da Northwestern University, de Chicago, EUA. “Mas, à medida que nossa experiência cresce, descobrimos que muitas condições dessas crianças são bastante diferentes da maioria dos pacientes com síndrome de Kawasaki.”

Uma das diferenças mais flagrantes é a idade. Enquanto a Kawasaki afeta predominantemente crianças menores de 5 anos, a faixa etária das vítimas dessa síndrome chega a 21. Outra diferença é que muitas crianças também apresentam dor de estômago e outros problemas gastrointestinais, sintomas incomuns com a Kawasaki típica.

Algumas crianças com Kawasaki podem desenvolver choque e precisam de terapia intensiva, assim como essas crianças desta nova condição — uma situação às vezes chamada de “kawashocki” pelos médicos. Mas, de acordo com Moshe Arditi, diretor da Divisão de Doenças Infecciosas Pediátricas e Imunologia da Cedars-Sinai, na Califórnia, EUA, ainda existem distinções aparentes entre essas duas condições.

Por um lado, apenas cerca de 5% dos pacientes de Kawasaki desenvolvem choque e precisam de cuidados intensivos, enquanto uma porcentagem muito maior desses novos casos acaba na UTI, de acordo com relatos iniciais.

Além dos diferentes sintomas, as crianças com a nova síndrome também têm exames laboratoriais que são facilmente distinguíveis daquelas com a Kawasaki típica, como níveis mais baixos de certos glóbulos brancos e plaquetas.

“A doença desses pacientes não deve ser chamada de síndrome de Kawasaki”, disse Arditi ao Gizmodo.

Arditi e Shulman concordam que a doença tem muito mais em comum com a síndrome do choque tóxico, principalmente quando se observa o exame de sangue dos pacientes. Mas há algumas coisas que também não se encaixam.

O choque tóxico é mais comumente causado por infecções de certos tipos de bactérias como estafilococos e estreptococos, não vírus. Essas infecções produzem “superantígenos” que levam o sistema imunológico a uma reação autodestrutiva que ataca sistematicamente o corpo. Nos novos casos, no entanto, essas bactérias foram descartadas como possíveis causas.

No entanto, as infecções por estafilococos e estreptococos não produzem superantígenos em todos os casos. O choque tóxico geralmente ocorre em circunstâncias complicadas, como um crescimento excessivo de bactérias causadas por uso prolongado de absorventes internos, por exemplo.

Sabe-se que a estrutura de alguns vírus os torna, teoricamente, capazes de produzir superantígenos. Arditi e sua equipe agora estão estudando se o coronavírus por trás da COVID-19 poderia ser um desses vírus.

Outro possível fator de risco para a síndrome é a genética, e isso seria mais um argumento contra a semelhança com a síndrome de Kawasaki.

Ela tende a ser mais comum em crianças de descendência asiática, mas os médicos no Japão ou na China ainda não relataram um pico semelhante em casos semelhantes a Kawasaki, até onde Arditi sabe, apesar de serem alguns dos primeiros lugares a serem afetados pela COVID-19.

Diferentes variações genéticas podem sublinhar a vulnerabilidade de uma criança a essa nova síndrome, diz Arditi, embora sejam necessárias mais pesquisas para descobrir isso. Outros fatores, como cepas virais distintas em diferentes partes do mundo, podem ser outra explicação possível, acrescenta ele.

No fim das contas, todas essas classificações de doenças descrevem em termos gerais uma disfunção semelhante: uma reação exagerada do sistema imunológico, que se volta contra o corpo. O que é diferente é a jornada para chegar lá e as partes do corpo envolvidas.

Pode acontecer que essa nova síndrome ocorra de maneira muito semelhante à do choque tóxico clássico ou que esteja acontecendo de alguma outra maneira ainda não totalmente compreendida. Já sabemos, por exemplo, que alguns adultos com COVID-19 também podem desenvolver respostas imunes hiperativas, e é possível que essas complicações possam estar ligadas ao que estamos vendo em crianças, diz Shulman.

Um grupo internacional de especialistas em pediatria criou um critério de diagnóstico para a doença e está a chamando de “síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica potencialmente associada à COVID-19” ou PMIS, na sigla em inglês, um termo adotado pelas autoridades de saúde de Nova York. Outros cunharam o termo “síndrome hiperinflamatória associada à COVID-19”. Qualquer que seja o nome, felizmente o prognóstico é bom para crianças que ficam doentes.

Embora pelo menos três crianças na cidade de Nova York tenham morrido com a doença, a maioria se recuperou. Os medicamentos imunossupressores e anti-inflamatórios usados ​​no tratamento de casos de Kawasaki ou no choque tóxico também parecem ajudar nesses casos, principalmente se detectados precocemente. No geral, o risco de doença grave para crianças com COVID-19 permanece muito menor do que para adultos.

Por outro lado, esses casos são apenas o exemplo mais recente do que falta descobrir sobre o novo coronavírus e seus efeitos no corpo. Esse mesmo ar de mistério envolve a síndrome de Kawasaki. Apesar de ter sido descoberta pelo pediatra japonês Tomisaku Kawasaki há mais de 50 anos, os médicos ainda sabem muito pouco sobre ela. A COVID-19 pode levar a uma conscientização muito maior da Kawasaki, de acordo com Arditi.

“Uma das poucas coisas boas que essa pandemia fez é o que nós, médicos e pesquisadores da doença de Kawasaki, não pudemos fazer em 40, 50 anos — nas últimas duas semanas, o mundo inteiro aprendeu sobre a Kawasaki, mesmo que ela seja um nome impróprio para o que está acontecendo”, diz ele.