A comando do presidente Donald Trump, os Estados Unidos se juntam à Síria e à Nicarágua na abdicação do Acordo de Paris, uma coalizão de 147 nações para combater as mudanças climáticas reduzindo emissões de carbono. Embora Trump tenha sofrido forte pressão internacional para manter o país dentro do acordo, desde o Papa, durante visita do norte-americano ao Vaticano, passando pelo presidente da China, Xi Jiping, até os líderes europeus, durante reunião do G7, o Partido Republicano se opôs fortemente ao Acordo de Paris desde o início. O chefe da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) Scott Pruitt argumenta há algum tempo que a meta de redução de emissões dos Estados Unidos sob o acordo enfraquecia a economia norte-americana.

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“A fim de cumprir meu dever solene de proteger os Estados Unidos e seus cidadãos, os EUA vão se retirar do acordo climático de Paris”, disse Trump, no Rose Garden da Casa Branca, prometendo buscar um acordo “mais justo” para o país. “Estamos saindo.”

Ironicamente (ou intencionalmente), vai levar quatro anos para que os Estados Unidos se retirem completamente do Acordo de Paris. O acordo previne que países iniciem seu processo de saída formal até três anos após entrarem nele. Os americanos se juntaram formalmente em novembro de 2016, ou seja, não podem se retirar até novembro de 2019. A partir de então, o período de retirada leva um ano: o mais cedo que os Estados Unidos conseguiriam sair do acordo seria em novembro de 2020, na reta final da eleição presidencial.

É importante notar que os Estados Unidos nunca estiveram limitados por seu objetivo de redução de emissões voluntária. Trump sempre esteve livre para ignorar a meta de redução de emissões de carbono em 32% até 2030, mas se retirar completamente passa mensagens diferentes. A principal delas, de que a administração Trump não valoriza esforços colaborativos internacionais, nem o poder brando da diplomacia e nem a capacidade futura de nossa biosfera.

Trump e Pruitt têm consistentemente atrelado a saída do Acordo de Paris à restauração da economia, argumentando que os interesses norte-americanos são primordiais nas relações internacionais. Ironicamente, economistas e ambientalistas defendem que a pressão para descarbonizar ajudaria a acelerar um boom em empregos no campo de energia limpa, incluindo empregos em energia solar e eólica, que viram ganhos recordes nos últimos anos. Ao perseguir a oportunidade econômica da energia limpa, os interesses de Estados Unidos e do Acordo de Paris se alinharam. Agora, eles diferem principalmente por causa da posição linha dura de desregulamentação da administração Trump.

A comunidade internacional foi rápida em criticar Trump por renegar o acordo e abrir mão de seu papel na luta global contra a mudança climática causada pelo homem. O fato de que Trump venha sendo especificamente sinalizado em muitas observações críticas à decisão, e não os Estados Unidos como um todo, pode ser na verdade o lado bom disso tudo.

“Todas as pessoas com quem conversei em outros países veem Trump como uma aberração”, disse Alden Meyer, diretor de estratégia e política da Union of Concerned Scientists, em entrevista ao Gizmodo. “Eles não acham que isso representa a sociedade norte-americana como um todo.”

Com os Estados Unidos se retirando do papel de líder global na luta contra a mudança climática, existe uma preocupação de que outros países que se juntaram ao acordo relutantemente se tornem mais propensos a romper com ele também. De um lado mais positivo, grandes economias em desenvolvimento devem se alçar a papéis de liderança, mais notavelmente a China e a Índia, maior e terceiro maior emissores de carbono no mundo e, até agora, as maiores histórias de sucesso do pacto pelo clima.

A China determinou recordes globais de investimento em painéis solares e fazendas de energia eólica e está até tomando a iniciativa de treinar mineiros de carvão americanos como técnicos eólicos. O país pode até já ter cumprido seu objetivo inicial do Acordo de Paris, de diminuir as emissões de carbono antes de 2030. De forma parecida, a Índia está projetando incríveis 57% de fontes de energia limpa em sua rede de fornecimento de energia até 2030. Pesquisadores projetam que se China e Índia excederem seus objetivos, podemos, ainda assim, ver uma diminuição geral nas emissões de gases de efeito estufa globais, mesmo com a retirada dos Estados Unidos e o consequente abandono de suas metas. Dito isso, sem a participação do segundo maior emissor de carbono do mundo, será, sem dúvidas, mais difícil alcançar a meta final do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global em 2ºC.

Reingressar o Acordo de Paris é um processo simples de 30 dias e dependeria muito do clima político em novembro de 2020. Meyer acredita que o maior incentivo para a reinserção no acordo viria de líderes de negócios, como Walmart, Apple e Intel, defendendo os benefícios econômicos e ambientais de se distanciar dos combustíveis fósseis.

“A pressão do empresariado tem um impacto maior sobre Trump”, disse. “Certamente foi um fator no processo de tomada de decisão que ele não esperava ver. O empresariado norte-americano deixou claro que permanece comprometido com o Acordo de Paris e o objetivo de descarbonizar a economia.”

No Twitter, Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, anunciou sua saída de dois conselhos consultivos da administração Trump, como resposta à retirada dos Estados Unidos do acordo. “Estou deixando os conselhos presidenciais. A mudança climática é real. Deixar (o Acordo de) Paris não é bom para os Estados Unidos ou para o mundo.”

Imagem do topo: AP